Bienal de Veneza entrega Leão de Prata a Marlene Monteiro Freitas

O festival entrega hoje o Leão de Prata da Bienal de Dança de Veneza à coreógrafa cabo-verdiana Marlene Monteiro Freitas, em reconhecimento pela sua carreira.

O prémio é entregue a Marlene Monteiro Freitas depois da apresentação do espetáculo Bacantes - Prelúdio para uma purga. O secretário de Estado da Cultura, Miguel Honrado, estará presente na cerimónia que se realiza às 20.00 (hora local).

Nascida em 1979, em São Vicente, Cabo Verde, Marlene Monteiro Freitas é um "presença eletrizante", detentora de "um poder dionisíaco", nas suas produções, destacou a Bienal de Dança de Veneza, quando anunciou a atribuição do prémio de carreira à bailarina e coreógrafa, no passado mês de janeiro. O comunicado dizia ainda que ela se interessa mais pela "metamorfose e deformação", que "trabalha mais com as emoções do que [com] os conceitos, e que apaga as fronteiras do que é esteticamente correto".

Marlene Monteiro Freitas trabalha habitualmente em Portugal e cofundou em Lisboa a estrutura cultural P.O.R.K, com a qual assinou coreografias como Paraíso-coleção privada (2012-13) e marfim e carne - as estátuas também sofrem (2014), entre outras obras. Em entrevista à Lusa, depois da atribuição do pémio, a coreógrafa explicou que, no seu processo de trabalho - cheio de referências de várias áreas artísticas -, lhe interessa "deformar algo para chegar a outra coisa", e que, "para chegar a uma metamorfose, é preciso haver forçosamente uma transgressão". "O meu objetivo não é a transgressão em si, mas usá-la para atingir a metamorfose", justificou.

Outro aspeto importante nas suas motivações é o lado emocional de uma obra coreográfica. "Claro que a narrativa é importante, mas interessa-me mais ter uma relação emocional com o público do que o reconhecimento de uma história na coreografia", apontou, sublinhando que dá também particular relevância à relação direta entre o bailarino e o público.

Em Bacantes - Prelúdio para uma purga, que se estreou no ano passado no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, o ponto de partida é o mundo moral e estético de Eurípides, com apelo a fatores comuns à sua obra - "a abertura, a impureza, a intensidade" -, com o objetivo de impor um "autêntico combate de aparências e dissimulações". "Em Eurípides, está presente o delírio e o irracional. Manifesta-se a ferocidade e o desejo de paz, a selvajaria e a aspiração a uma vida simples. Encontram-se, no seu texto, direções contraditórias, elementos que chocam, corpos íntegros que se desmembram e crenças testadas ao limite. Este é o mundo, moral e estético, que o autor convida a percorrer", lê-se na apresentação da obra.

O festival Festival de Dança de Montpellier, que co-produziu e apresentoua obra, disse que Marlene Monteiro Freitas é "uma das maiores descobertas da atual cena internacional", capaz de "fascinar audiências com a sua linguagem de abundante vitalidade, o seu imaginário forte e a riqueza de referências" que detém.

A Bienal de Dança de Veneza encerra no próximo domingo. Nesta edição, foi igualmente homenageada a coreógrafa norte-americana Meg Stuart, com a atribuição do Leão de Ouro de Carreira, conhecida do público português por criações como Running, Violet,Hunter ou Blessed.

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