Ben-Hur: o arriscado regresso de um épico

O novo Ben-Hur estreia amanhã. Procura carisma em Jack Huston, mas apenas Morgan Freeman nos lembra o que isso é

Antes de mais, a pergunta retórica: o que leva Hollywood a fazer um remake de Ben-Hur? Mastigar um clássico para a nova geração? Atualizar a abordagem formal e narrativa? Realizado por Timur Bekmambetov (Diário Secreto de Um Caçador de Vampiros...), o mais que este novo filme se digna fazer é uma competição técnica com as emblemáticas versões anteriores - sim, diz-se no plural, porque não é apenas a grande produção da Metro-Goldwyn-Mayer (MGM), de 1959, vencedora de onze Óscares e assinada por William Wyler, que ficou nas páginas da história. Antes dessa, temos a versão do cinema mudo, de 1925, justamente dos primórdios da MGM, que quase levou o então recém-formado estúdio à falência...

Na verdade, se observarmos com atenção os contextos em que se deram estas duas precedentes adaptações do romance de Lew Wallace, publicado em 1880 - Ben-Hur: A Tale of the Christ -, rapidamente fica claro que a aura em torno deste título tem uma correspondência muito forte com os próprios desafios de produção. Sobretudo no caso do filme de 1925, de Fred Niblo, cuja sequência da batalha marítima, filmada com navios reais, resultou de um também real infortúnio: o petróleo queimado para simular efeitos de fumaça acabou por incendiar mesmo os navios... Wyler já não repetiu a proeza, optando por colocar miniaturas num tanque cheio de água.

Por sua vez, é nesse Ben-Hur de Wyler que se imortaliza a sequência da corrida de quadrigas, com um Charlton Heston no auge da carreira, a configurar o mais virtuoso heroísmo, ao lado de Stephen Boyd.

E falando da figura do ator protagonista - que na versão de 1925 era o mexicano Ramon Novarro, à época, o típico "amante latino" - vale a pena notar como no novo remake o intérprete mais carismático não é certamente Jack Huston (mesmo sendo um nome com pedigree, neto de John Huston), na pele de Judah Ben-Hur, mas a personagem secundária de Morgan Freeman, o xeque Ilderim, que empresta também a voz à narração, segurando as pontas da débil construção dramática.

Voltamos assim, por estes dias, à história do príncipe judeu que foi traído pelo seu amigo de infância, Messala (Toby Kebbell), e feito escravo, numa Jerusalém ocupada por romanos ávidos de espetáculos sanguinários. É para esse cenário violento, resolvido na famosa corrida, que se encaminha o novo filme, criando expectativas goradas. Além disso, como o subtítulo do livro de Wallace assinala, há também a narrativa secundária de Jesus Cristo - um fraco e beatífico Rodrigo Santoro - que vai atravessando os acontecimentos centrais como uma pálida e forçada iluminação moral...

E por falar em moralidade, não deixa de ser curioso que, depois da polémica causada pelas declarações do escritor Gore Vidal, em 1996, sobre a possível homossexualidade de Judah Ben-Hur e Messala (no filme de 1959), este recente Ben-Hur surja com uma expressão religiosa mais sublinhada, mais conservador, eliminando as sempre bem-vindas subtilezas da arte cinematográfica. Aboliu-se qualquer subtexto.

Em todo o caso, esclareça-se que detetar o lado prescindível do Ben-Hur que chega amanhã às salas portuguesas, não equivale à afirmação perentória de que os clássicos são intocáveis. Acontece, no entanto, que depois da aclamada produção dirigida pelo "artífice" William Wyler, que surgia numa altura de combate à hegemonia da televisão, não se encontra justificação para uma réplica motivada quase exclusivamente pela renovação do fôlego técnico. Perante este desajuste, vale a pena recordar as palavras de Jean Renoir sobre Louis Lumière: "Porque a técnica nessa altura era mais difícil, ele era obrigado a compor mais". Só para que conste, no Ben-Hur do cinema mudo, foram precisas 42 câmaras para filmar a corrida de quadrigas... Veja-se agora a ausência de imaginação que acompanha as facilidades tecnológicas.

Os Clássicos

BEN-HUR, A Tale of The Christ (1925)

Desafio para a estreante MGM: Sendo uma das primeiras grandes produções da MGM representou enormes desafios de rodagem, por vezes trágicos, que quase levaram os estúdios à falência. O ator mexicano Ramon Novarro interpretava Ben-Hur

BEN-HUR (1959)

Nove minutos de corrida: Com nove minutos de duração, a cena da corrida de quadrigas do Ben-Hur de William Wyler, é o momento célebre da versão de 1959. Charlton Heston, no carismático papel do príncipe judeu, estava então no ponto alto da sua carreira.

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