Às vezes crítica, às vezes serena. Marie José Burki expõe na Gulbenkian

A mais recente ocupante da Sala Projeto do Museu Gulbenkian é a artista suíça Marie José Burki. A exposição pode ser até 20 de novembro

A obra de Marie José Burki, artista natural da cidade suíça de Bienna e a viver na Bélgica, revela-se ainda no átrio, com uma série de fotografias, um dos suportes que mais tem trabalhado a par do filme. Nesta exposição - Às Vezes Sombra, Às Vezes Luz - mostram-se cinco, um deles co-produzido pela Fundação e terminado há apenas uma semana.

Nessa primeira obra, AOS, Burki trabalha dois conceitos que a curadora da exposição, Leonor Nazaré, considera que atravessam o trabalho da artista: a pessoa anónima e vulgar e o arquétipo de juventude. E, acrescenta, mesmo quando trabalha a imagem, fá-lo de "maneira fílmica". A artista concorda e explica que o próprio título da obra, a inicial do primeiro nome das três jovens fotografadas remete para esse anonimato. O que se vê são imagens destas adolescentes capturadas quando giravam sobre si próprias. Marie José Burki ensaia o movimento enquanto explica: "Não é o retrato de uma pessoa". "O título é abstrato, porque não queria a fotografia da pessoa."

Explica que as sessões fotográficas destas jovens, no seu estúdio, terão durado "cerca de 10 minutos". O único pedido que fez às jovens, amigas entre elas, foi que apanhassem o cabelo. Apontando para uma delas, explica: "Esta seria considerada uma má fotografia numa escola". A pessoa em causa está mal enquadrada, mas esta imagem pertence a uma série de 44 fotos (apenas uma parte é mostrada aqui) e o que interessava à autora era "o movimento".

Curadora e artista conduzem a visita guiada à exposição no Museu Gulbenkian - Coleção Moderna. Leonor Nazaré faz as apresentações. Marie José Burki começou por estudar História e Literatura e hoje dá aulas na Escola de Belas Artes de Paris. Mostrou o seu trabalho no Documenta IX, em 1992 e "tem exposto em vários sítios de prestígio da Europa", explica. "Penelope Curtis [diretora do Museu] adorou o trabalho". A oportunidade de mostrar o trabalho surgiu e mostra-se agora na Sala Projeto até 20 de novembro.

Ao mesmo tempo que estudava Literatura e História em Genebra fez o curso de arte. Foi nos anos 80 e interessou-se de imediato pelo vídeo.

Vamos diretos ao fundo da sala, até essa tripla projeção chamada Um Cão na Estrada à Passagem do Caminhante. Travelling e grandes planos. O animal do título ouve-se a dado passo no filme, mas "nunca se vê", alerta Leonor Nazaré. A curadora define o trabalho de Burki como um equilíbrio entre dois pontos: "contemplativo e engajado". Um grande plano de comida com um recorte de jornal, quase pintura antiga, revela esse encontro: o ambiente sereno contrasta com a notícia que se exibe - de uma explosão. É desse encontro que fala, de resto, o título da exposição.

Às Vezes Sombra, Às Vezes Luz é o nome de uma obra em néon, a partir da caligrafia da artista ("sem tirar a caneta do papel"). Inicialmente, esse projeto deveria ter feito parte da exposição, mas acabaria por ficar de fora ("É preciso fazer escolhas"). Ficou o título.

Para esta exposição, Marie José Burki escolheu também várias colagens a partir de notícias de jornais. Por exemplo, uma compilação de capas de jornal publicada três dias depois do 11 de Setembro.

A mais recente obra é o filme de uma hora, um minuto e 20 segundos, com essas imagens poéticas que percorrem o trabalho da artista sobre as quais se ouve um diálogo entre duas pessoas. Uma conversa que vai da ecologia à política, passando pelo papel dos media. "O texto é meu, influenciado por coisas que li", diz. "Um dos assuntos que aborda é a sexta extinção em massa de espécies de que se fala pouco em Portugal ou pelo menos eu não leio aqui", refere. "É uma obra que em está preocupada com grandes questões civilizacionais".

A duração foi a que desejou, sem constrangimentos, fazendo um corte com o cinema tradicional. "Adoro filmes e histórias, mas não sou uma realizadora, não estou a fazer isso". "Espero que o meu trabalho não seja uma lição, mas que o espectador se divirta a vê-lo". E, apesar da duração longa, a própria artista não exige que o espectador se senta e veja o que fez durante todo esse tempo. "Para ver todos os filmes que estão aqui precisaria de três horas", diz, fazendo as contas. O que contam explica-se vendo o tempo que o visitante considerar adequado, reforça.

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