As pinturas sonoras de Brian Eno e Beezy Bailey. Com vénia a Bowie

São feitas a quatro mãos e incluem auscultadores. Os dois autores de O Som da Criação, que pode ser vista em Lisboa, prestam ainda tributo ao amigo e autor de Space Oddity

Brian Eno, Beezy Bailey e David Bowie são - ou eram, o último morreu em janeiro último - amigos. Eno compunha com Bowie, que pintava com Bailey, que pinta e compõe com Eno. Confuso? Deixemos então, por agora, David Bowie. O sul-africano Beezy Bailey entra na Perve Galeria, em Lisboa. Sentamo-nos, rodeados por três das 40 obras vindas da Bienal de Veneza 2015 e que compõem a mostra O Som da Criação.

Ultrapasse-se - se for o caso - o espanto causado por ver pinturas de um dos maiores músicos, engenheiros de som, e teóricos da contemporaneidade, Brian Eno. Ultrapasse-se igualmente o espanto causado por ver as obras que ele pintou a quatro mãos com Bailey na estreita Rua das Escolas Gerais, Alfama. Isto porque, se espanto houver, talvez deva ser guardado para os auscultadores que figuram ao lado de muitas das pinturas. Pomo-los nos ouvidos para escutar a que soam aquelas pinturas.

Primeira e óbvia observação: a pintura é estática, como o som é movimento. A música - composta também ela a quatro mãos - introduz movimento na pintura? Bailey esboça um sorriso. "Podemos dizer o contrário: ouvir música é estático e pintar é movimento." Algumas pinturas têm pequenos altifalantes embutidos, revelando o projeto inicial: a música a sair dos quadros.

Mas, antes de tudo, veio a pintura a dois. Eno e Bailey juntos no ateliê depois de, logo pela manhã, recolherem em armazéns sobras de MDF (placa de fibra de madeira de média densidade), que lhes servem de telas. Espalham-nas pelo chão e começam a pintar. Eno "põe discos de vinil. Jazz, Beatles, Neville Brothers" soam no ateliê. E eles pintam. A música só chegou aos quadros "depois de dois anos a trabalhar nas pinturas. Pusemos uma na parede e começámos a ilustrá-la com som."

ouvir música é estático e pintar é movimento

Uma particularidade: enquanto pintam, vão continuamente passando de um quadro para outro. "É como as abelhas com o pólen, não polinizam apenas uma flor", diz Beezy. "É um pouco como jogar 30 jogos de xadrez em simultâneo", descreveu Eno, citado no catálogo da exposição que tem curadoria dos italianos Francesca Giubilei e Luca Berta, completada pela de Carlos Cabral Nunes em Lisboa.

A certa altura, para descrever o processo de introdução da música, Beezy evoca Roma, de Fellini, para explicar a pintura e a música da obra Generals at the wall. No filme, "há um homem sentado ao canto da sala. Cada vez que alguém entra ele ri-se. O Brian gravou-me a rir e atrasou o som 64 vezes. É verdadeiramente assustador e cómico. E a pintura é assustadora e cómica."

Não é preciso fugir do tema. Esta exposição em Lisboa chega também como um tributo a David Bowie, que morreu em janeiro aos 69 anos. Na inauguração, Beezy Bailey recordou-o com uma performance em que, vestindo um fato insuflado, e ao som da canção I"m Deranged, de Bowie, dançava enquanto o cineasta português Edgar Pêra projetava sobre ele imagens das obras da exposição.

Como Bowie quis ser pintor

A escolha da canção não é meramente estética. Nela, Beezy escuta Bowie a musicar e cantar o aspeto que primeiramente os uniu: o facto de um e outro terem um irmão esquizofrénico. Perceberam-no pouco depois de se conhecerem, em 1993, quando se encontraram na África do Sul. Bowie entrevistaria Bailey para a revista Modern Painters. O entrevistado sugeriu que pintassem enquanto conversavam. E essa conversa, depois feita amizade, e acompanhada pela pintura a quatro mãos, prolongou-se durante anos.

"Bowie era muito parecido com o Brian Eno. Com muito sentido de humor, muito humilde, nada estrela de rock. Foi ele que disse: "Quando entramos no estúdio, deixamos o nosso ego à porta." Eu estava a pintar com o David Jones, não estava a pintar com o David Bowie, a estrela de rock. Ele queria ser pintor, antes de se tornar músico. E eu queria ser uma estrela de rock, antes de me tornar pintor."

O curador Carlos Cabral Nunes conta que Brian Eno ficou "muito magoado" pela interpretação errada desta exposição, que muitos entenderam ter como centro a homenagem a Bowie. Eno, muitíssimo próximo do autor de Life on Mars ou Space Oddity, figura forte na discografia deste, não veio à inauguração. Mas Carlos acredita que acabará por ver esta mostra. Na Perve, no Porto ou na Madeira, para onde quer que a exposição depois siga. E revela ainda a sua vontade em fazer uma exposição conjunta de Beezy Bailey e o seu alter ego, outrora secreto, Joyce Ntobe.

A artista negra que criou serviu--lhe para denunciar como "a história do racismo na África do Sul se está a tornar numa obsessão". De tal maneira que se criou uma espécie de racismo invertido. "Uma das razões porque a criei há mais de 20 anos foi porque se fosses uma mulher negra podias ter o teu trabalho diretamente na [South African] National Gallery." Foi o que aconteceu. A obra de Beezy foi rejeitada, a de Joyce integrada na coleção do museu. E depois veio o escândalo...

O Som da Criação

Exposição patente até 28 de maio na Perve Galeria, Rua das Escolas Gerais 17-19, Alfama, Lisboa

3,5 euro

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