As pessoas comuns são os novos heróis da Banda Desenhada, mostram os prémios

Foram eleitos os melhores álbuns nacionais do ano. O DN procurou-os no Amadora BD

Talvez se surpreendesse alguém que, ouvindo falar dos álbuns vencedores dos Prémios Nacionais da Banda Desenhada (PNBD) 2015, atribuídos na noite de sábado durante a 26.ª edição do Amadora BD, os tivesse procurado ontem no Fórum Luís de Camões, espaço principal daquele festival internacional de banda desenhada. Deparar-se-ia, por exemplo, com o ex-ministro Miguel Relvas ou o Presidente venezuelano Nicolás Maduro. A responsabilidade de tais presenças é de Marco Mendes, autor de Zombie, distinguido como Melhor Álbum Português.

E se Relvas e Maduro lá estão é porque Mendes, ilustrador, artista plástico e professor do Porto, fez de Zombie uma espécie de volta à vida em 24 horas. Há nele uma dimensão autobiográfica, como em todo o trabalho de Mendes, autor de Diário Rasgado ou Anos Dourados, mas também da tessitura dos dias, e por isso lá estão as praxes académicas no Porto ou a política de tempos recentes.

Marco , autor, achou que através de Marco, personagem central de Zombie, "os eventos iam ser representativos de muita coisa, do espírito do tempo, de um certo ambiente que se vive no Porto, boémio, ativista". E depois, lembra em conversa telefónica com o DN já de regresso ao Porto, "há o tema do amor". Zombie começa com a visita ao hospital onde Manuela, companheira do pai de Marco, está internada e onde "tem aquele monólogo, uma apologia à vida". É dela que lemos: "Ainda há quem não queria viver." A frase como que ecoa ao longo do álbum onde nos vemos retratados no quotidiano em que vamos vivendo como zombies de nós mesmos.

E se ontem alguém tivesse de facto corrido para o Amadora BD, encontraria Nélson Dona, diretor do festival, por entre os fãs de banda desenhada que percorriam o espaço dos editores e livreiros ou os que se antecipavam ao desfile de cosplay e por ali passeavam mascarados de personagens da BD e do cinema de animação. Ouviria então, talvez, o diretor do festival dizer: "A BD deixou de ser baseada em heróis. Cada vez mais, fala de pessoas comuns, como nós. É uma relação ainda mais de proximidade, o leitor reconhece-se naquelas questões levantas pela obra cada vez mais densa". Falávamos de Zombie como de Volta - O Segredo do Vale das Sombras, que valeu a André Oliveira o prémio de Melhor Argumento para Álbum Português. "Volta: parece que isto volta sempre tudo ao mesmo, não é?" Nélson, que integrou o júri dos PNBD 2015 com o autor de BD Pedro Massano, o colecionador Bruno Caetano e os jornalistas Luís Salvado e Sara Figueiredo Costa, falava da crise e de como "o questionar do que andamos aqui a fazer enquanto povo" contamina também a 9.ª arte.

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Anselmo Borges

"Likai-vos" uns aos outros

Quem nunca assistiu, num restaurante, por exemplo, a esta cena de estátuas: o pai a dedar num smartphone, a mãe a dedar noutro smartphone e cada um dos filhos pequenos a fazer o mesmo, eventualmente até a mandar mensagens uns aos outros? É nisto que estamos... Por isso, fiquei muito contente quando, há dias, num jantar em casa de um casal amigo, reparei que, à mesa, está proibido o dedar, porque aí não há telemóvel; às refeições, os miúdos adolescentes falam e contam histórias e estórias, e desabafam, e os pais riem-se com eles, e vão dizendo o que pode ser sumamente útil para a vida de todos... Se há visitas de outros miúdos, são avisados... de que ali os telemóveis ficam à distância...