As palavras que são música para os nossos ouvidos

Nos dias 28, 29 e 30 de abril, os Dias da Música, no CCB, em Lisboa, vão aprofundar a relação entre a música e a palavra. Haverá muita ópera, teatro e poesia. E algumas surpresas.

No programa dos Dias da Música deste ano cabem Raul Brandão e Bach, Sérgio Godinho e Beethoven, Molière e Joly Braga Santos, José Afonso e Stravinsky. Isto porque desta vez o tema do festival não é um compositor, um instrumento ou um género musical mas, antes, algo inédito: a relação entre as palavras e a música. E é sob o mote "As Letras da Música" que, nos próximos dias 28 a 30 de abril, o Centro Cultural de Belém, em Lisboa, vai receber mais de 50 concertos e mais de 1400 intérpretes.

Na apresentação do festival, no Dia Mundial da Poesia, o programador André Cunha Leal deu exemplos das muitas maneiras como a música e as palavras vão andar de mãos dadas por ali. Haverá, por exemplo, concertos em que a música tocada se inspirada na literatura, como acontece naquele em que a Orquestra Sinfónica Aproarte, com direção musical de Benoît Fromanger, vai interpretar dois poemas sinfónicos: O Caçador Maldito, de César Franck, e Tasso, Lamento e Triunfo, de Franz Liszt. Mas também no concerto em que o pianista Artur Pizarro irá interpretar dez peças de Serguei Prokofiev a partir de Romeu e Julieta, de Shakespeare, e ainda Gaspard de la Nuit, de Maurice Ravel, música inspirada nos poemas de Aloysius Bertrand.

Num festival que tem o foco na relação entre as música e as palavras não poderia faltar a música de teatro (de Shakespeare, de Molière, de Ibsen) e a ópera, obviamente. "Esta edição é a que terá mais ópera e, sobretudo, terá óperas completas, que é algo não costumamos ter muito nos Dias da Música", explica o programador. É esse o caso do concerto de encerramento, com Candide ou o Otimismo, de Leonard Bernstein, que será interpretada pela Orquestra Sinfónica Portuguesa e pelo Coro do Teatro Nacional de São Carlos. Mas também há ópera em O Rapaz de Bronze, com música de Nuno Côrte-Real e libreto de José Maria Vieira Mendes, a partir de Sophia de Mello Breyner, numa interpretação do Ensemble Darcos. Ou em O Doido e a Morte, de Alexandre Delgado (a partir de Raul Brandão) pelo Toy Ensemble. Ou em A Serrana, de Alfredo Keil, pelo Quarteto Vintage.

Outro dos eixos da programação pelos temas de cantautores - desde os trovadores, como D. Dinis, até ao concerto de Sérgio Godinho com o pianista Filipe Raposo, passando pelas canções espanholas ou francesas (um concerto de Lou Tovano, que vai cantar Gainsbourg, Aznavour, Le Ferre e outros), pela bossa nova de Vinicius de Moraes e Tom Jobim, e até pelo fado, com um "concerto surpresa" - pede-se ao público que aceite o desafio de ir a um concerto sem saber quem é o fadista que vai subir ao palco. "E também teremos pequenas provocações, como um concerto de canções sem palavras, de Mendelssohn", propõe André Cunha Leal.

Para além dos concertos em sala, há programação específica para famílias, apresentações mais informais nos coretos e um programa de conferências e conversas em volta do tema desta edição. Com um orçamento que ronda os 470 mil euros, os Dias da Música têm a ambição de conseguir juntar durante três dias o público mais melómano, "que já é público da música erudita e é exigente", com o "grande público", aqueles que quer participar na festa do CCB e para o qual é necessário ter uma oferta mais heterogénea. Os 28 mil bilhetes disponíveis já estão à venda: de 4 euros para entrar no recinto até 12 euros (o bilhete mais caro).

Veja a programação completa AQUI.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Rosália Amorim

"Sem emoção não há uma boa relação"

A frase calorosa é do primeiro-ministro António Costa, na visita oficial a Angola. Foi recebido com pompa e circunstância, por oito ministros e pelo governador do banco central e com honras de parada militar. Em África a simbologia desta grande receção foi marcante e é verdadeiramente importante. Angola demonstrou, para dentro e para fora, que Portugal continua a ser um parceiro importante. Ontem, o encontro previsto com João Lourenço foi igualmente simbólico e relevante para o futuro desta aliança estratégica.

Premium

João Gobern

Tirar a nódoa

São poucas as "fugas", poucos os desvios à honestidade intelectual que irritem mais do que a apropriação do alheio em conluio com a apresentação do mesmo com outra "assinatura". É vulgarmente referido como plágio e, em muitos casos, serve para disfarçar a preguiça, para fintar a falta de inspiração (ou "bloqueio", se preferirem), para funcionar como via rápida para um destino em que parece não importar o património alheio. No meio jornalístico, tive a sorte de me deparar com poucos casos dessa prática repulsiva - e alguns deles até apresentavam atenuantes profundas. Mas também tive o azar de me cruzar, por alguns meses, tempo ainda assim demasiado, com um diretor que tinha amealhado créditos ao publicar como sua uma tese universitária, revertido para (longo) artigo de jornal. A tese e a história "passaram", o diretor foi ficando. Até hoje, porque muitos desconhecem essa nódoa e outros preferiram olhar para o lado enquanto o promoviam.