Arte Antiga pede 6 cêntimos a cada português

MNAA lança campanha para, até 30 de abril, juntar 600 mil euros para comprar 'A Adoração dos Magos', de Domingos Sequeira

Entra-se no Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), em Lisboa, e ali está ela: A Adoração dos Magos, de Domingos Sequeira. Mesmo no meio do átrio principal, a pintura de 1837 pode ser apreciada por qualquer pessoa até 30 de abril do próximo ano. Esta não é, porém, uma exposição qualquer. O quadro, que é propriedade de um colecionador particular, está ali a pedir ajuda: o museu precisa de 600 mil euros para comprar esta obra e apela à contribuição de todos. A campanha arrancou ontem. "Basta que cada português dê seis cêntimos. Mas como alguns estão a dar bastante mais acredito que vamos conseguir", diz, sorridente, António Filipe Pimentel, diretor do MNAA. "Sou um otimista."

Embora esta seja a primeira vez que um museu português organiza uma campanha de angariação de fundos com vista à aquisição de uma obra, o MNAA decidiu arriscar com esta obra de Sequeira. Não será um artista muito conhecido do grande público mas a verdade é que Domingos António de Sequeira (1768 -1837), um dos primeiros românticos portugueses, mestre em desenho e pintura, é o artista mais representado na coleção do museu, onde se incluem 45 pinturas (dos quais 23 são esboços) e 760 desenhos.

A pintura que o MNAA quer agora comprar faz parte da chamada "série Palmela", um conjunto de quatro telas sobre a vida de Cristo - Descida da Cruz, Adoração dos Magos, Ascensão e Juízo Final -, que terão sido executadas entre 1827 e o começo da década de 1830. O museu tem já em sua posse os quatro cartões (ou desenhos finais) e um conjunto de desenhos preparatórios. Falta-lhe, portanto, as quatro pinturas.

Alexandra Markl, conservadora do MNAA e especialista na obra de Sequeira, explica ao DN que A Adoração dos Magos "é considerada uma das obras mais importantes do Sequeira, aquela que remata todo o percurso dele. É uma obra já da fase final." Uma das últimas obras de Sequeira, com 57 anos, feita em Roma, onde ele tinha estudado na juventude e onde se exilou em 1826, após um conturbado percurso político. Sequeira foi pintor da corte no início do século XIX, nomeado pelo então príncipe regente D. João VI, mas depois apoiou as invasões francesas e a revolução liberal, chegou a ser preso e acabou por sair do país. Antes de optar por Roma, chegou a morar em Paris.

"Esta obra é feita para uma exposição, de pintores e amadores, em Roma. Sendo uma pintura com um tema religioso, comum naquela altura, é uma obra de qualidade excecional, onde Sequeira investe toda a sua habilidade", diz Alexandra Markl. "Quando ele morreu, a família ficou em más condições económicas e empenhou-a, em Roma. Depois nos anos 40 do século XIX, ela foi adquirida pelo primeiro duque de Palmela e veio para Portugal."

Há já alguns anos que o proprietário do quadro manifestou a vontade de vendê-lo, dando preferência ao MNAA. Mas só há cerca de um ano é que a campanha começou a desenhar-se. Ao museu, juntaram-se desde logo o jornal Público e a RTP, a Fundação Millenium e a agência de publicidade Fuel que concebeu toda a campanha com o mote "Vamos pôr o Sequeira no lugar certo". Nos spots que vão começar a passar hoje na televisão aparecem figuras públicas como o artista Julião Sarmento, o cineasta João Botelho, a cantora Carminho ou o humorista Herman José, mas também o chef José Avilez, os apresentadores Fernando Mendes e Catarina Furtado e o jornalista José Rodrigues de Santos, entre outros

No átrio do museu, está instalada uma caixa onde qualquer pessoa pode colocar a sua contribuição que também pode ser feita através de transferência bancária. Todas as informações estão no site sequeira.publico.pt onde também será possível acompanhar a evolução da angariação e "ir pintando" um quadro virtual, onde cada 6 cêntimos correspondem a um pixel. "Esta é uma campanha que apela à cidadania, queremos que a sociedade se envolva nisto. Se todos contribuírem é muito fácil."

Nos últimos anos, a obra esteve exposta em pelo menos duas ocasiões - em 1987 e em 1999 - mas a aquisição pelo MNAA permitiria a sua "fruição plena por todos", sublinha António Filipe Pimentel. Para o MNAA, ter ali A Adoração dos Magos seria uma excelente forma de completar a exposição, explica Alexandra Markl. "Temos os Painéis de São Vicente a abrir e seria fantástico ter esta obra a fechar, que é uma obra já da transição, do princípio do século XIX, em que a pintura passa a ser outra coisa, romântica e naturalista." No MNAA já há uma parede escolhida para colocar esta pintura depois de abril.

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