Arquitetura portuguesa com vista para o canal

"Público sem Retórica" é o nome da exposição portuguesa na Bienal de Arquitetura de Veneza, aberta ao público a partir deste sábado.

"Para tentar dar uma imagem, estamos num palácio veneziano, ocupando duas partes do edifício, uma em relação direta com o canal, onde os barcos atracam e estão os vídeos dos quatro artistas portugueses que convidámos a filmar os 12 edifícios da exposição. No piso nobre, com uns grandes salões, grandes pés direitos, muito carregados de informação arquitetónica, há uma leitura mais disciplinar.

É assim que Nuno Brandão Costa descreve Public Without Rethoric, a exposição que representa Portugal na Bienal de Arquitetura de Veneza, no Palazzo Giustiani Lolin, sede da Fundação Ugo e Olga Levi, a quem não está na cidade italiana, palco da bienal dedicada à arquitetura até 25 de novembro.

A exposição incide sobre a encomenda público num período histórico nos últimos 10 anos, isto é, a década da crise. "Foi construída uma retórica neoliberal contra o edifício público", refere o arquiteto e professora da Faculdade de Arquitetura do Porto.

Foram escolhidos 12 edifícios, de várias escalas e gerações, que demonstram "uma resistência, sejam do poder, institucional e outros que não aboliram o edifício público e em que a arquitetura teve um papel fundamental a dar resposta aos problemas públicos."

"O edifício público é um exercício de democraticidade. Tem um impacto na cidade e um impacto social importante".

Entre os edifícios selecionados por Nuno Brandão Costa e Sérgio Mah, que co-assina a curadoria, existe escala vária. "Não é a escala que atribui qualidade ao edifício", sublinha o arquiteto.

Também houve a preocupação de ter arquitetos de várias gerações. De Álvaro Siza e Souto Moura a arquitetos que nasceram no final dos anos 80 e começaram a trabalhar há pouco tempo. Entre os mais novos estão os depA, Diogo Aguiar Studio, FAHR 021.3, Fala Atelier e Ototto.

Esta é a lista completa:

1. Arquipélago - Centro de Artes Contemporâneas, Ribeira Grande - João Mendes Ribeiro e Menos é Mais (Cristina Guedes e Francisco Vieira de Campos)

2. Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Angra do Heroísmo - Inês Lobo

3. Centro de Criação Contemporânea Olivier Debré, Tours - Aires Mateus e Associados (Manuel Mateus e Francisco Mateus)

4. Centro de Visitantes da Gruta das Torres, Pico - SAMI (Inês Vieira da Silva e Miguel Vieira)

5. Estação de Metro Município, Nápoles - Álvaro Siza, Eduardo Souto Moura e Tiago Figueiredo

6. Hangar Centro Náutico, Montemor-o-Velho - Miguel Figueira

7. I3S - Instituto de Inovação e Investigação em Saúde, Porto - Serôdio Furtado Associados (Isabel Furtado e João Pedro Serôdio)

8. Molhes do Douro - Carlos Prata

9. Pavilhões de parque, no Parque Urbano de Albarquel, Setúbal - Ricardo Bak Gordon

10. Pavilhões Expositivos Temporários Incerteza Viva: Uma exposição a partir da 32ª Bienal de São Paulo, Parque de Serralves, Porto - depA (Carlos Azevedo, João Crisóstomo e Luís Sobral), Diogo Aguiar Studio, FAHR 021.3 (Filipa Fróis Almeida e Hugo Reis), Fala Atelier (Ana Luísa Soares, Filipe Magalhães e Ahmed Belkhodja) e Ottotto (Teresa Otto).

11. Teatro Thalia, Lisboa - Gonçalo Byrne e Barbas Lopes Arquitectos (Diogo Seixas Lopes e Patrícia Barbas)

12. Terminal de Cruzeiros de Lisboa - João Luís Carrilho da Graça

"Cada projeto tem três peças: uma maquete que demonstra a forma em relação com a cidade ou paisagens, um desenho técnico com a planta do rés de chão, que é muito importante nos edifícios públicos, e uma sequência de imagens projetadas numa tela, de fotógrafos, cedidas pelos arquitetos".

Nuno Brandão Costa, que faz parceria com Sérgio Mah na curadoria desta exposição, diz que são dois momentos distintos. Um mais introspetivo e disciplinar, que tem que ver com a objetividade; outro, com a visão dos cineastas, que introduz um nível subjetivo.

Fala do trabalho encomendado a André Cepeda, Catarina Mourão, Nuno Cera e Salomé Lamas, "quatro artistas que têm uma relação com a arquitetura, o que também nos pareceu interessante. "Atribuímos a cada artista três obras e não demos nenhuma diretiva, demos total liberdade. Depois, verifica-se que, além de ser muito diverso o olhar, também os artistas têm a sua visão e sua forma de comunicar."

De onde vem o título

Public Without Rethoric vai buscar o título a um livro de textos de Alison e Peter Smithson, Without Rhetoric: An Architectural Aesthetic 1955-1972. "O trabalho deles sempre incidiu sobre o edifício público e aproximamo-nos deste título porque o tema central da nossa curadoria é o edifício público.

Com a escolha deste título, Nuno Brandão Costa e Sérgio Mah também dão resposta ao tema geral da Bienalle de Venecia, cujas curadoras são Yvonne Farrell e Shelley McNamara: Freespace. "O edifício público sempre foi um espaço de liberdade, de uso livre, pelo qual passa o coletivo", diz o arquiteto.

Com a instalação da exposição neste palácio veneziano, a representação portuguesa deixa La Giudecca, a ilha/bairro que albergou a exposição de Álvaro Siza em 2016, no edifício que ele concebeu, e onde José Pedro Croft instalou há um ano as suas esculturas.

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