Aproveitar a feira para descobrir os clássicos

Na Relógio d"Água há títulos que não perdem a alma com o passar do tempo

É quase uma ilusão quando se pensa que a Feira do Livro de Lisboa é o lugar próprio para encontrar livros antigos e desaparecidos das livrarias. Porque em grande parte essa tradição já deu o que tinha a dar em feiras do milénio passado e agora poucos são os stands que ainda têm fartura de fundos de catálogos. Quanto mais não seja porque muitas edições são pequenas, e os saldos feitos no recinto ano após ano nos restos de coleção vão fazendo rarear os títulos especiais que os leitores iam procurar à Feira do Livro.

Nem os alfarrabistas escapam a esta situação, sendo ali também cada vez menor a possibilidade de se darem com tesouros ao alcance da bolsa do visitante normal. Talvez o colecionador abastado consiga satisfazer a sua pretensão, quanto mais não seja encomendando numa visita e indo buscar o volume na seguinte.

No entanto, há stands onde ainda se aposta nesse velho hábito de satisfazer os clientes de uma certa literatura mais séria, que é a dos clássicos e a dos bons romances, que entretanto foram descatalogados, como é o caso do stand da Relógio d"Água. Onde várias bancas seduzem os visitantes da feira pela qualidade, quantidade e preços muito especiais. Designadamente no setor que a editora reserva a volumes que já não estão abrangidos pela Lei do Preço Fixo do livro e que não conseguem ter espaço nas livrarias, por já terem sido editados há vários anos. Razões para que se vistorie com atenção essa parte dos stands desta editora, mesmo ao lado de outros exemplares mais atuais, porque são livros que não perderam atualidade e podem ser adquiridos a três e a cinco euros. Como é o caso de Peregrinação de Fernão Mendes Pinto.

O editor Francisco Vale destaca entre os muitos livros em exposição a coleção de 35 clássicos que está a ser editada nos últimos meses e que têm preços entre os cinco e os dez euros. Quanto ao setor dos livros descatalogados, confirma que têm um preço muito bom: "Na primeira semana da feira é quando vendemos mais nesse pavilhão, pois os descatalogados são livros muito bons e que as pessoas procuram sempre." Explica que neste caso o preço de venda é ligeiramente pouco acima do custo de produção, o que é preferível a estarem no armazém ao pó." Há quem venha direcionado para um ou outro título, diz, mas "em geral como encontram surpresas, aproveitam".

Orwell, Voltaire e Montaigne

Entre os clássicos que a Relógio d"Água lançou no período que coincide com o da Feira do Livro estão três volumes que valem a pena, até porque contam com edições muito bem cuidadas e são vendidos abaixo dos dez euros. É o caso de Cândido ou o Otimismo, de Voltaire, que vem acompanhado por um posfácio de Roland Barthes. Este conto filosófico data de 1759, mas não deixa de ter atualidade. Diga-se que em vida do autor ele foi reeditado duas dezenas de vezes. Ou a Antologia de Ensaios, de Montaigne, com prefácio de Rui Bertrand Romão, do autor que inventou este novo género literário.

Também os leitores de George Orwell voltam a ter possibilidade de ler Ensaios Escolhidos, uma seleção abrangente de 37 dos seus textos ideológicos, narrativos e de reportagem. Todos a bom preço e com mais descontos nesta Feira do Livro de Lisboa.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ferreira Fernandes

Conhecem a última anedota do Brexit?

Quando uma anedota é uma anedota merece ser tratada como piada. E se a tal anedota ocupa um importante cargo histórico não pode ser levada a sério lá porque anda com sapatos de tigresa. Então, se a sua morada oficial é em Downing Street, o nome da rua - "Downing", que traduzido diz "cai, desaba, vai para o galheiro..." - vale como atual e certeira análise política. Tal endereço, tal país. Também o número da porta de Downing Street, o "10", serve hoje para fazer interpretações políticas. Se o algarismo 1 é pela função, mora lá a primeira-ministra, o algarismo 0 qualifica a atual inquilina. Para ser mais exato: apesar de ela ser conservadora, trata-se de um zero à esquerda. Resumindo, o que dizer de uma poderosa governante que se expõe ao desprezo quotidiano do carteiro?

Premium

Adolfo Mesquita Nunes

A escolha de uma liberdade

A projeção pública da nossa atividade, sobretudo quando, como é o caso da política profissional, essa atividade é, ela própria, pública e publicamente financiada, envolve uma certa perda de liberdade com que nunca me senti confortável. Não se trata apenas da exposição, que o tempo mediático, por ser mais veloz do que o tempo real das horas e dos dias, alargou para além da justíssima sindicância. E a velocidade desse tempo, que chega a substituir o tempo real porque respondemos e reagimos ao que se diz que é, e não ao que é, não vai abrandar, como também se não vai atenuar a inversão do ónus da prova em que a política vive.

Premium

Marisa Matias

Penalizações antecipadas

Um estudo da OCDE publicado nesta semana mostra que Portugal é dos países que mais penalizam quem se reforma antecipadamente e menos beneficia quem trabalha mais anos do que deve. A atual idade de reforma é de 66 anos e cinco meses. Se se sair do mercado de trabalho antes do previsto, o corte é de 36% se for um ano e de 45%, se forem três anos. Ou seja, em três anos é possível perder quase metade do rendimento para o qual se trabalhou uma vida. As penalizações são injustas para quem passou, literalmente, a vida toda a trabalhar e não tem como vislumbrar a possibilidade de deixar de fazê-lo.

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

O planeta dos sustentáveis 

Ao ambiente e ao planeta já não basta a simples manifestação da amizade e da esperança. Devemos-lhes a prática do respeito. Esta é, basicamente, a mensagem da jovem e global ativista Greta Thunberg. É uma mensagem positiva e inesperada. Positiva, porque em matéria de respeito pelo ambiente, demonstra que já chegámos à consciencialização urgente de que a ação já está atrasada em relação à emergência de catástrofes como a de Moçambique. Inesperada (ao ponto do embaraço para todos), pela constatação de que foi a nossa juventude, de facto e pela onda da sua ação, a globalizar a oportunidade para operacionalizar a esperança.