Ao vivo no Coliseu. Longa se torna a estrada dos Xutos & Pontapés

Energia ao alto, espetáculo segmentado e com pelo menos duas horas. E continua a haver novidades nos concertos dos Xutos

Antes de mais nada, as novidades: o concerto do Coliseu vai contar com três canções novas - ou inéditas, como preferirem - dos Xutos: Alepo, Mar de Outono e Sementes do Impossível. Tim, porta-voz do grupo na conversa com o DN, situa cada uma delas: "A primeira, alusiva à cidade síria que tão martirizada foi durante a guerra civil, tem a sua letra construída (por mim) a partir de frases que fui apanhando nos tweets sobre o assunto. A segunda é uma balada que nós gostamos de considerar à Pink Floyd. A terceira foi a canção escolhida para o fecho do filme do Joaquim Leitão, Índice Médio de Felicidade." Fica clara a ideia de que, não largando os palcos, os Xutos têm conseguido tempo e inspiração para estas novas aventuras que agora submetem ao "veredicto" público. Tim: "É curioso porque 2017 foi um ano de muito trabalho da banda, nem sempre visível para o exterior. Ensaiámos muito, juntámo-nos muito e, além de irmos limando as arestas do espetáculo, que tem de ser montado de acordo com o momento da banda, ainda descobrimos um espaço para compor e escrever."

Tim calcula que a digressão deste ano, que encerra oficialmente no concerto lisboeta de amanhã, tenha chegado às duas dezenas de presenças em palco, de Lagoa a Cantanhede, sem esquecer o Festival F (Faro) ou a Feira dos Frutos (Caldas da Rainha): "Contámos com a coragem e a vontade do Zé Pedro, cujo estado de saúde nos inspirava cuidados e nos levou a montar um concerto que, de alguma forma, o protegesse. De resto, ele acabou - felizmente - por estar sempre presente e muito ativo, com exceção do show de Toronto (Canadá), em que nós o convencemos a poupar-se ao desgaste das viagens. A ideia de segmentação vai, de alguma maneira, manter-se no espetáculo de Lisboa, em que apresentaremos um bloco mais acústico a meio, para respiração geral - até do público. No fim de contas, parece quase um regresso aos bailaricos, em que havia diferentes sets para momentos distintos. Neste caso, juntámos aos incontornáveis temas do Gritos Mudos e do Dados Viciados, que têm tido respostas muito boas por parte das assistências. A única questão que às vezes se levanta prende-se com a duração dos shows, algo que já se sente em rapazes da nossa idade..." Nem por isso a cronometragem se torna mais avarenta: no Coliseu, a duração anunciada aponta para os 120 minutos. Mas quem quiser apostar que ainda serão acrescentados uns pozinhos às duas horas, certamente não ficará a perder.

Sem brincar em serviço, os Xutos estão a caminho dos 40 anos de palco. Que é como quem diz, já podem encontrar nas respetivas plateias os netos dos seus seguidores de primeira hora. E haverá um segredo que explique esta longevidade? Tim aborda as novidades que o grupo procura chamar ao palco em cada digressão, mas acaba por sublinhar aquilo que se observa à vista desarmada: "Acho que podemos mencionar, como fator decisivo, a nossa verdade. Não há truques nem desvios. Gostamos mesmo daquilo que fazemos e, de cada vez que subimos a um palco, não nos poupamos na entrega, na energia. Claro que nem sempre as coisas correm como queríamos, mas não é por falta de trabalho ou de convicção. Acho que qualquer pessoa que assista a um concerto nosso poderá gostar ou não - mas nunca se sentirá enganada." E disse.

Da resistência à legião

O próprio Tim não se engana nestas suas considerações - se é humanamente impossível encontrar num mesmo ponto uma banda que se estreou em palco a 13 de janeiro de 1979 (nos Alunos de Apolo, Lisboa) e agora se prepara para "fechar o livro" do ano de 2017, a essência programática e a disponibilidade para "ir a jogo" dos Xutos & Pontapés não precisaram de mudar. No limite, mantém-se intacta a expressiva singeleza com que Zé Pedro resumiu a sua paixão pela música e a atitude da banda de que foi cofundador, com Tim, Kalu e Zé Leonel: "Fui ver os punks e prontos..." É com os Xutos - e com alguns contemporâneos como Faíscas, Minas & Armadilhas ou Aqui d"El Rock - que os ecos do punk, em rutura com os "estabelecidos" e em especial com o chamado rock progressivo, ganham uma tradução portuguesa. Tímida e minoritária, a princípio; depois, com a inauguração e os anos de apogeu do Rock Rendez-Vous, fulcral na década de 1980, a franja ganhou espaço e impacto. Sem coincidências, coube aos Xutos & Pontapés o papel, naturalmente, oficioso de banda residente, quase sempre com casas lotadas por adeptos que já revelavam uma especial militância. Antes disso, o grupo já tinha transposto - em alta - a via crucis dos conjuntos nacionais, desafiados para as primeiras partes dos espetáculos dos visitantes internacionais: a 23 de fevereiro de 1980, o quarteto subiu ao palco do Pavilhão do Belenenses antes de Wilko Johnson, regateando atenção e aplausos com um concerto carregadinho de adrenalina, em que ficou na memória o apelo de Zé Pedro para "um minuto de barulho" em homenagem a Bon Scott, cantor dos AC/DC que tinha morrido quatro dias antes.

Coincidência ou não, seria o mesmo Pavilhão do Belenenses que serviria de cenário para receber e demonstrar a subida a pulso da banda: com os discos Circo de Feras e 88, os Xutos motivavam uma corrida em massa ao recinto, com longas filas de espera, entradas e saídas pelas janelas do primeiro andar (!), uma impressionante e ininterrupta chuva de suor do teto, uma situação de risco evidente para os músicos que praticamente "patinavam" em palco. Para quem os viveu, são ocasiões inesquecíveis, em que já era dominante a coreografia com os braços cruzados em xis (de Xutos, claro) e assinalável a presença dos lenços vermelhos (ao pescoço, na cabeça ou no pulso) que também identificavam a banda.

Os passos seguintes também foram percorridos sem pressa, mas com segurança: a 26 de junho de 1993, os Xutos integravam o elenco all stars de um festival chamado Portugal ao Vivo que, em Alvalade, os juntou a Sétima Legião, Madredeus, Resistência, Sitiados e Delfins. Com bolas de futebol chutadas para o público, com strippers de carne osso e bonecas insufláveis a ajudar ao tema Sexo, com João Aguardela (Sitiados) e Fernando Júdice (Resistência) como convidados de ocasião, o grupo deixou bem vincada a sua impressão digital.

A 28 de setembro de 2009, em nome próprio, voltaram às instalações do Belenenses - mas desta vez ao Estádio do Restelo, com 40 mil pessoas a participarem freneticamente nas comemorações do 30.º aniversário do conjunto que, entretanto, foi passando por todos os grandes espaços e salas disponíveis - do Coliseu, a que regressam amanhã, ao renovado Campo Pequeno, do Pavilhão Atlântico ao palco do Rock in Rio. Sem esquecer um concerto muito especial, no Coliseu do Porto, em que outro aniversário da banda (1994) deu direito a uma primeira parte imparável, com músicos de muitos conjuntos (GNR, Rádio Macau. Sitiados, Delfins, Peste & Sida, Três Tristes Tigres, mais Jorge Palma) a "atirarem-se"ao património Xis e, dessa forma, a deixarem o respetivo abraço a quem tanto remou, remou para chegar a bom porto.

Missão comprida

Em 1999, nos vinte anos, os Xutos viam editado o álbum XX Anos, XX Bandas - outra manifestação de reconhecimento do meio musical que ajudaram a alargar e a sedimentar-se. Sete anos mais tarde, o ator António Feio concebeu e encenou um espetáculo musical que tinha por base as canções dos Xutos - chamava-se Sexta-Feira, 13 e deu direito a que nascesse mais um tema original, homónimo, da banda que, entretanto, iniciara também uma colaboração com o cinema, em particular com o realizador Joaquim Leitão. À época, o grupo assegurou a banda sonora de Tentação. Pelo meio, convirá não esquecer a condecoração que os músicos dos Xutos & Pontapés receberam das mãos do Presidente Jorge Sampaio.

Feita a devida vénia, sempre se dirá que essas comendas não contam mais do que as medalhas com que os fãs os distinguem a cada passo de um percurso, longo (como se viu) mas ainda com capítulos desejavelmente por cumprir. O de amanhã, no Coliseu, será mais. E, hoje, é perfeitamente justo parafrasear a simplicidade assertiva de Zé Pedro para perceber o alcance de um serão bem passado diante da banda, ou com ela: Fui ver os Xutos. "E prontos."

Xutos & Pontapés, Coliseu dos Recreios, Lisboa., 4 de novembro, 22.00. Bilhetes de 25 a 30 euros.

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1. Muitas vezes me tenho referido aqui, e não só aqui, à tragédia da pedofilia na Igreja. Foram milhares de menores e adultos vulneráveis que foram abusados. Mesmo sabendo que o número de pedófilos é muito superior na família e noutras instituições, a gravidade da situação na Igreja é mais dramática. Por várias razões: as pessoas confiavam na Igreja quase sem condições, o que significa que houve uma traição a essa confiança, e o clero e os religiosos têm responsabilidades especiais. O mais execrável: abusou-se e, a seguir, ameaçou-se as crianças para que mantivessem silêncio, pois, de outro modo, cometiam pecado e até poderiam ir para o inferno. Isto é monstruoso, o cume da perversão. E houve bispos, superiores maiores, cardeais, que encobriram, pois preferiram salvaguardar a instituição Igreja, quando a sua obrigação é proteger as pessoas, mais ainda quando as vítimas são crianças. O Papa Francisco chamou a esta situação "abusos sexuais, de poder e de consciência". Também diz, com razão, que a base é o "clericalismo", julgar-se numa situação de superioridade sagrada e, por isso, intocável. Neste abismo, onde é que está a superioridade do exemplo, a única que é legítimo reclamar?