António Costa abre as portas do Palacete para mostrar obras de Serralves

Serralves é a primeira instituição convidada pelo primeiro-ministro para mostrar a sua coleção na residência oficial que esta quinta, 5 de outubro, e aos domingos, pode ser visitada gratuitamente.

Um quadro de José Loureiro, com mais de dois metros e meio de altura, é o único que já encontrou o lugar onde vai ficar durante o próximo ano. Na segunda-feira de manhã, os restantes continuavam ainda meio embalados, no chão ou em cima de um dos móveis da sala de jantar da residência oficial do primeiro-ministro, uma das cinco salas que a partir desta quinta-feira podem ser visitadas pelo público. A entrada livre repete-se todos os domingos e até ao próximo 5 de Outubro, serão 25 obras de arte de Serralves que os visitantes podem ver no Palacete de São Bento.

A razão do desalinho não se prende com atrasos ou outros imponderáveis. "As mudanças de última hora são normais, por isso é que concordámos em começar a montagem mais cedo", explica Suzanne Cotter, a ainda diretora do Museu de Serralves, curadora desta primeira exposição da iniciativa Arte em São Bento, que no próximo ano terá outra instituição como convidada. "Começámos a montagem na semana passada e isso deu-me tempo para refletir com uma certa distância. Na quinta-feira não estava muito satisfeita, faltava qualquer coisa. Só na sexta-feira, quando estava a folhear o catálogo da coleção para trabalhar noutro projeto, tive esta revelação. Sabia que nos faltava uma coisa: era uma Lourdes Castro", conta a curadora que no final do ano deixa a direção de Serralves onde está desde 2013, enquanto dois funcionários da equipa de Serralves vão tirando medidas e abrindo os furos para pendurarem Sombra projetada de Adami, obra realizada por Lourdes Castro em 1967 em Paris. Esteve na exposição O Olhar do Artista: Obras da Coleção de Serralves, que entre maio e agosto ocupou a Cordoaria Nacional, em Lisboa, razão pela qual Suzanne não a contemplou na sua escolha inicial.

Havia ainda outra "culpada" para o desalinho: Paula Rego e o seu quadro de 1985 Homenagem a Dubuffet. "Esta obra de Paula Rego é fortíssima. No início, tinha pensado em colocá-la na grande sala de receção. Mas a força deste quadro era demasiada e absorveu toda a energia da sala. Tinha que mudar de espaço." E acabou na sala de jantar onde, para além de Lourdes Castro e José Loureiro, são também apresentadas obras de Jorge Queiroz e Ana Manso. Nilo, desta jovem artista, é a peça mais recente, de 2016, enquanto Littérature conjugale, de René Bertholo, de 1966, é a mais antiga.

Suzanne Cotter fez a curadoria da exposição

Uma obra apresentada na espaço logo ali ao lado, a tal grande sala de receção onde Suzanne Cotter comenta a escolha de um quadro com quase três metros de largura e dois de altura de João Queiroz. "Esta obra estabelece uma forte ligação com o jardim", sublinha, lembrando que desde junho de 2016 os jardins do Palacete de São Bento, edifício do final do século XIX que há 80 anos serve de residência oficial ao primeiro-ministro, estão abertos à população todos os domingos, com entrada gratuita. E aponta outra razão para esta escolha: "Antes, no seu lugar, estava uma grande tapeçaria muito antiga e acho que é interessante ver este quadro contemporâneo tendo presente a tradição das tapeçarias que historicamente estão ligadas aos grandes quadros históricos", refere, ilustrando com este exemplo a sua abordagem a este projeto, que tem sempre em conta a história do edifício.

Ora, foi precisamente essa sua abordagem que ditou a primeira seleção de obras, dominada por quadros - "tal como estava antes", refere - e artistas consagrados. Mas "numa segunda visita, acompanhada pelo primeiro-ministro, ele deu-me ideias muito específicas sobre a arte e também o seu gosto. Foi uma discussão muito inspiradora. Fez-me muitas perguntas. Perguntou-me se poderíamos ter algumas fotografias, mais mulheres e artistas mais jovens." E foi assim que esta primeira mostra passou a incluir duas obras de Helena Almeida: Pintura Habitada (1975) e Estudo para um enriquecimento interior (1977), ambas apresentadas na primeira sala aberta ao público, bem como duas obras de Pedro Henriques, da série Sidewinder (2014).

Esta, que não é uma exposição no sentido clássico, como as organizadas em museus ou galerias de arte, leva os visitantes a percorrer três salas no piso térreo e duas no primeiro andar. É já no cimo das escadas, na antecâmara do primeiro-ministro, que se encontram duas das três obras que pela primeira vez saíram das reservas de Serralves, dois guaches sobre papel de Ana Léon. Inédita é também a pintura de 1989 de Sofia Areal São Rosas Meu Senhor (1989), "comprada em 1991, quando ainda nem havia Fundação de Serralves", sublinha Suzanne Cotter. Para completar a festa de amanhã, a Orquestra de Jazz de Matosinhos atua nos jardins, a partir das 16.00.