"Antes de entrar em palco, fico sempre nervoso, tenho vómitos, até sentir a pulsação do público"

N' A Volta ao Mundo em 80 Minutos, o musical de Filipe La Féria em cena no Casino Estoril, ele canta, dança, salta, ri, mete-se com o público e até anda um pouco nas alturas, ele que detesta a própria ideia de aviões.

Ele é aquilo que se chama "animal de palco", com uma energia que os 53 anos não reduziram. Ao vê-lo em sucessivas imagens, encontrei sempre aquele mesmo sorriso que lhe marca o olhar e que só raramente deixa cair. Quando começa a sessão fotográfica, fica logo na pose enérgica e radiosa, minutos depois de ter confessado que é tão tímido que não consegue entrar sozinho num restaurante ou num cinema.

Nunca fica aborrecido? Está sempre com a energia no máximo.

Sou como as outras pessoas, há coisas que me aborrecem, coisas que me podem deixar deprimido. Deprimido é uma palavra demasiado forte. Mas sou bem-disposto e otimista. No cenário de trabalho, normalmente estou bem-disposto porque gosto muito do que faço. Principalmente aqui, neste ambiente em que estamos no segundo mês consecutivo, para além dos ensaios. N' A Volta ao Mundo em 80 Minutos estou ainda numa fase de encantamento e de paixão. Cada vez gosto mais de fazer este espetáculo, cada vez gosto mais de vir para aqui.

Vai fazer a peça pelo menos até janeiro.

Fim de dezembro, início de janeiro, em princípio.

Num espetáculo que demora tanto tempo tem uma curva em que vai esse entusiasmo vai mudando?

Normalmente o nível mantém-se, embora as pessoas achem muito estranho que um ator repita todos os dias o mesmo texto. Mas nunca é igual, principalmente nestes espetáculos mais ligeiros que podemos atualizar com uma bucha ou outra. Este espetáculo nunca é rotineiro, acontecem sempre coisas diferentes e o público é sempre diferente. Como gosto muito, tento sempre fazer no mesmo nível. Não há uma curva descendente em que já não suporto. Tenho feito espetáculos com alguma durabilidade. O último foi também com o Filipe La Féria, Grande Revista à Portuguesa, e estivemos um ano em cena, sempre lá em cima.

Nota-se, até na sua expressão corporal, o prazer do palco.

Gosto imenso. E depois quando sentimos o público...É a primeira vez que trabalho nesta sala e foi um bocado difícil aperceber-me de que a reação chega um bocadinho depois, ou não é tão nítida, porque as pessoas estão mais longe. É o contrário do Politeama, onde parece que estamos em cima do público. Inicialmente até pensava que o público não estava a aderir. Mas era uma ideia falsa da minha parte, as pessoas adoram o espetáculo, e eu não o sentia porque ou estou pendurado, ou lá ao fundo, ou na escada.

Como é que sente o público? Não está a ver, tem luzes em cima.

Quando dominamos o espetáculo, quando o texto, as coreografias e as canções já estão seguros, começamos a ter tempo para outras coisas. Nas minhas pausas, olho para o público. Encontrei alguns pontos em que falo diretamente com eles e para eles, e vejo que as pessoas estão num encantamento. Confesso que há filmes que nunca vi, porque apareceram quando estávamos em ensaios gerais e não podia ir para a plateia ver.

Já tinha tido uma componente tão grande de audiovisuais no ecrã, estar dentro e fora da cena?

Nunca. Tinha feito uma comédia de brincadeira aos reality shows e aí tive a experiência de contracenar comigo mesmo, mas nada desta grandiosidade. Com o Filipe tínhamos feito algumas coisas na Grande Revista à Portuguesa, uma iniciação a esta dinâmica de interação do multimédia com o teatro. Mas esta é muito mais forte. É maravilhoso o trabalho da Zara e de toda a sua equipa que realizou os vídeos. E funciona. Ainda há pouco recebi a opinião de um amigo com quem fiz teatro e a quem chamo um dos meus primeiros mestres, e ele dizia: isto é contemporâneo, este jogar com o vídeo, a banda desenhada e a representação, é uma linguagem diferente e moderna.

E tem um ritmo muito rápido.

Isso é característico do Filipe La Féria e é uma linguagem que se quer para este espetáculo em que não há intervalo. Embora se fuja um bocadinho aos parâmetros de um espetáculo de casino, é um espetáculo que, sendo do Filipe e feito por mim, com um grande elenco de bailarinos, cantores e acrobatas, é no Casino. Temos no público muitos estrangeiros, franceses, americanos, espanhóis...

Como tem sido a reação deles?

Ficam encantados, porque há uma tradução em simultâneo e é tudo muito visual. Quando percebo que são estrangeiros, brinco com eles. No fim vêm ter comigo.

Sempre teve o objetivo de fazer teatro?

Sempre sonhei com esta forma de viver e de comunicar.

Mais isto do que televisão?

Comecei com nove anos a fazer as minhas brincadeiras teatrais, com amigos ou colegas de escola e com grupos de teatro que eu arranjava sempre, e com o meu irmão que tinha um grupo de teatro com repertório de autores portugueses. Na altura a televisão estava longe de fazer parte dos meus sonhos.

Ia ao teatro?

Ia, e muito contente. Por curiosidade, comecei a andar literalmente no Teatro Monumental, que infelizmente já não existe. Estava ao colo do meu pai e ele largou-me.

Os seus pais gostavam muito de teatro, não era?

Eles conheceram-se na Capricho de Beja [Sociedade Filarmónica Capricho Bejense], onde o meu pai estudou canto e música e a minha mãe fazia teatro. A minha família é quase toda de Beja, o meu irmão nasceu lá. Depois vieram para a Buraca. Os meus pais iam todos os fins-de-semana ao teatro, ao Parque Mayer, e eu ficava acordado à espera para que eles me contassem tudo. Inventava teatros na escolas, fazia palcos nas escadas das casas dos amigos, fazia concursos de misses e festivais da canção com as minhas colegas. Não parava um bocadinho. Todo o meu imaginário tinha a ver com o espetáculo, com o teatro. E praticava ginástica desportiva, jogava futebol, fazia muita coisa ao mesmo tempo. O que era engraçado, sem falsas modéstias, é que em todas as atividades eu me destacava porque me empenhava muito. Ganhei uma medalha num campeonato de ginástica porque tinha a melhor técnica...

Ginástica acrobática?

Sim. Tinha muita preocupação de fazer tudo certinho, as pernas bem esticadas. Sempre fui muito certinho, fazia primeiro os trabalhos de casa e depois o resto. Até era certinho de mais. Era muito pouco aventureiro, muito medroso, nunca me aventurava para além da minha situação confortável.

Apesar de tudo arriscou para chegar aqui.

Arrisquei quando tinha um trabalho e fazia teatro amador. Vi um anúncio no jornal de um bar muito giro, o Solo Mio, À Procura de Novos Talentos e concorri com textos meus, organizei um espetáculo tipo café-concerto. Ganhei a eliminatória e ganhei a final, que tinha como jurados a Rita Ribeiro e o Igor Sampaio. Eles convidaram-me para fazer testes - agora diz-se casting - para o Teatro Nacional, porque estavam à procura de figurantes. Fui e fiquei.

Qual era a sua profissão?

Era impressor de offset. Tenho uma grande paixão pela música e trabalhava numa empresa que fazia as capas dos discos. Adorava. Uma das capas que fiz foi o Thriller, do Michael Jackson, um dos discos mais vendidos no mundo. Ofereciam-nos bilhetes para espetáculos, eu via tudo, Ney Matogrosso e Simone no Coliseu, todos os brasileiros. O espetáculo sempre acompanhou a minha vida. Até na tropa fiz teatro e ganhei uma medalha.

Onde fez a tropa?

Fiz a recruta em Abrantes e a especialidade em Aveiro, e depois voltei para Abrantes. Descobriram que eu fazia teatro e no final da recruta, no acampamento, juntaram dois camiões militares e eu fiz umas rábulas. Foi um êxito. Mas ainda na escola, a minha primeira preocupação quando via o novo livro de Português era saber se havia textos teatralizados.

Não estudou mais do que o 9.º ano?

Não estudei porque tinha que ajudar os meus pais e comecei a trabalhar. A única hipótese era estudar à noite e eu nesse caso tinha de deixar o teatro e não queria. Estava no grupo do meu irmão, tínhamos ensaios à noite.

Como se chamava o grupo?

Inicialmente chamava-se Marabunta, depois Praça Pública. Era na Cel Cat, na Venda Nova, e depois na Sociedade Filarmónica Recreio Artístico da Amadora. Representava-se grandes textos. A minha primeira abordagem ao Anton Tchekov foi aí, fiz Um Pedido de Casamento. Trabalhámos muitos autores portugueses - Soeiro Pereira Gomes, Bernardo Santareno. Eu era pequenino, fazia de filho do meu irmão. Era um grupo enorme de jovens, com perspetivas culturais muito grandes. Trabalhavam grandes autores e eu ali no meio deles. Não tinha grandes papéis mas subir ao palco era o máximo. E eu formava outros grupos, criei uma secção de teatro nos escoteiros. Foi nessa altura que conheci o Joaquim Monchique, quando fomos fazer um espetáculo à escola dele. Na Filarmónica da Amadora tem um palco excelente, com uma ótima teia, uma sala como era raro ver. Agora felizmente há boas infraestruturas, mas em Lisboa não tínhamos uma sala tão boa como aquela. E aí eu e o meu irmão escrevemos um espetáculo de revista muito giro, com jovens, tudo amadores.

Depois entrou no TNDMII para fazer a Mãe Coragem.

Era uma coprodução do Teatro Nacional com o Novo Grupo.

Quem era a Mãe Coragem?

Era a Eunice Muñoz. Todo o elenco era em grande: Eunice Muñoz, Irene Cruz, Rogério Paulo, São José Lapa, António Anjos, Catarina Avelar, o João Lourenço como encenador. Eu fazia figuração. Quando aquilo acabava, lá ia eu de comboio porque no outro dia tinha que me levantar às sete da manhã para ir trabalhar. Foi assim até acabar a carreira da peça. Eu imitava toda a gente. Um dia fui chamado ao refeitório pelo João Lourenço e à frente de toda a gente pediram-me para imitar a Eunice Muñoz à frente dela. Sofri um bocadinho mas imitei-a. Éramos aí uns 15 figurantes, a maioria alunos do Conservatório. Lembraram-se de mim quando precisaram de um ator para o Teatro Aberto e fui fazer um teste para um papel. Acabou por não ser esse mas fiquei lá. Aí tive de optar. Falei com os meus pais e eles disseram: se é isso que tu queres, já sabes que esta vida é sempre um bocadinho periclitante. Deixei o meu trabalho e fui para o Teatro Aberto.

Nesses primeiros tempos deve ter sido mesmo periclitante.

Como fui logo para a Companhia, com contrato de exclusividade no Teatro Aberto, estava mais ou menos seguro. Mas andava sempre assustado, tinha que ter dinheiro para o passe, depois a companhia vivia dos subsídios.

Vivia com os seus pais?

Sim, mas tinha que ajudá-los, não era fácil. Estive lá quatro anos, fui para o Teatro Experimental de Cascais a convite do Carlos Avilez, onde fiz clássicos - Shakespeare, etc. As pessoas ligam-me muito à revista, acham que eu vim da revista. Teria sido ótimo mas não aconteceu. A minha primeira abordagem à revista foi quando conheci o Filipe La Féria que me convidou para fazer a Grande Noite na televisão. E fiz uma comédia no Teatro Villaret com o Armando Cortez - que grande ator! - e a Manuela Maria.

Como conheceu o Filipe La Féria?

Eu estava a fazer um café-concerto com textos meus, e ele ouviu falar em mim. Ele estava a fazer no Nacional o Passa por mim no Rossio e foi ver-me ao Pintado de Fresco, onde estávamos ao sábado. Tinha convidado a Maria Rueff para fazer o café-concerto comigo, conheci-a nos camarins do Villaret, era ela aluna do Conservatório. Todas os sábados tínhamos o elenco quase completo do Passa Por Mim no Rossio a ver-nos. Chamava-se No sofá-cama com, uma brincadeira com um filme da Madonna que se chamava Na cama com Madonna. Era uma série de rábulas, durante a semana íamos saltando de bar em bar, mas ao sábado estávamos sempre no Pintado de Fresco. O Filipe La Féria foi ver, adorou e convidou-me para a Grande Noite e depois para a Maldita Cocaína. Foi a reabertura do Politeama. E a partir daí...

Hoje gostaria de voltar a fazer teatro dramático, um clássico?

Sim. Eu nunca fui daquelas pessoas que dizem "o meu desejo é fazer o Hamlet do Shakespeare". As coisas foram acontecendo naturalmente. Nem nunca me preocupei com "agora tenho de fazer isto para mostrar às pessoas que também sei fazer teatro sério". Na altura do Big Show Sic fiz uma comédia com o Diogo Infante, o Ricardo Carriço, a Fernanda Lapa no Teatro Villaret, uma comédia giríssima, o Odeio Hamlet. Na altura existia o Sete e a Maria João Rolo Duarte escreveu: "Apetecia-me tanto ir ver esta peça, mas está lá o rapaz do Big Show Sic e não queria vê-lo. Mas fui. Este João Baião não tem nada a ver com o João Baião do Big Show Sic". Foi o meu melhor prémio. As pessoas misturam tudo. Não renego nada daquilo que fiz e nunca me preocupei em mostrar que para além do Big Show sou um ator sério e sei fazer teatro. No Teatro Experimental de Cascais fiz uma peça ótima do Bernardo Santareno, O Pecado de João Agonia, com a Lia Gama, grande atriz. No Teatro Aberto, o João Lourenço quis apostar nos novos atores - eu, a Teresa Sobral e a Cristina Carvalhal - depois de fazermos pequenos papéis. E fizemos A Rua [1984], sobre a vida dramática das ruas, a toxicodependência, a prostituição. Eu fazia o monólogo de um skinhead, violento, todos os dias partia um vidro de uma cabine telefónica com um murro. Aquilo não tinha nada a ver comigo. Mas esse é o prazer de ser ator. Se me convidassem para uma coisa séria, se tivesse oportunidade, faria porque gosto.

N' A Volta ao Mundo em 80 Minutos, mal entra em cena as pessoas ficam contentes por vê-lo, agitadas. Vêm aqui para vê-lo, foi a sensação com que fiquei. Num teatro com mais distância seria diferente. Imagine que era convidado para fazer um Hamlet. O tipo de púbico era outro, haveria ali uma confusão. Isso agradar-lhe-ia?

Agradar-me-ia sempre. As pessoas que vêm aqui ver-me, que gostam de me ver num registo mais ligeiro, se calhar não iam entender e eu nesse caso teria de pensar, porque não quero afastar-me do meu público, embora gostasse de fazer um outro registo. Essa é a gestão mais difícil do percurso em que se quer tocar vários instrumentos. Mas acabaria sempre por fazer. As pessoas também têm que me ver noutros registos.

Aqui tem uma entrada de sedução do publico, à maneira da sua personagem de televisão.

Eu não me aproximo mas as pessoas acabam sempre por se aproximar disso. Veem-me vestido de Maria Albertina e acabam por dizer "eu vejo-o todos os dias na televisão". Este é um tipo de espetáculo que permite esse desmanchar. Num espetáculo de outro registo era impraticável.

Como consegue gerir o programa de televisão todas as tardes, o teatro à noite? Não é possível não se cansar.

Não me canso. É incrível. Já fiz uma autoanálise. As pessoas falam tanto disso que eu próprio começo a pensar. Só me canso na voz, porque sou muito intenso e estou sempre no limite.

Canta ou tem playback?

Tenho, mas canto por cima. Não consigo fingir. Quando estava mais cansado da voz, o Filipe La Féria dizia: hoje não puxes tanto nos ensaios. Mas eu puxo sempre. Não concebo estar a fazer de. Ou estamos lá ou não estamos. O teatro é fingir de, mas temos de ser nós ali dentro. O João Baião está ali, é o João Baião mas enquanto Phileas Fogg, enquanto Maria Albertina, enquanto o que for, mas tem que ser ele. Por isso canso mais a voz. Mas cansaço... Na RTP cheguei a fazer os casamentos [de Santo António] de manhã e à tarde, as marchas populares à noite e cheguei a casa às duas da manhã e pensei: estou aqui como se nada tivesse acontecido e não percebo porquê. Só reparei quando as pessoas começaram, no Big Show Sic, a falar da energia. Eu sempre fui assim, nunca senti que fosse diferente dos outros.

Quando está a contracenar, exige dos outros essa energia?

Não exijo, cada um como é. Só assim as peças se jogam. A não ser que o espetáculo peça duas personagens com o mesmo tipo de resposta. Aqui não foi preciso. O Filipe Albuquerque, que é uma pessoa completamente diferente de mim, acaba por responder à minha energia e eu à dele, e isto aconteceu de uma forma instantânea. Nunca tínhamos trabalhado juntos, tirando uma cena na Grande Revista à Portuguesa.

Na televisão trabalha por vezes em duplas, e estou a lembrar-me da Tânia Ribas de Oliveira e agora da Rita Ferro Rodrigues. Tem que haver química?

Não pode ser forjado. Chamem o que quiserem mas tem de haver. E com a Tânia foi uma coisa... Nem a conhecia antes. E foi uma ligação instantânea.

Isso não costuma acontecer-lhe?

Não acontece com muita gente. Noutros casos as coisas têm de ser um bocadinho direcionadas. Apresentar em dupla é como em teatro, tem que haver uma contracena, tem que haver uma ligação, mas sobretudo tem que haver verdade. Porque enquanto no teatro, ligeiro ou não, temos de servir o texto da forma que o encenador nos dirige, na televisão somos nós próprios. Tenho que ser autêntico, eu pelo menos sou assim, tenho que ser eu.

E como aconteceu o Macaco Adriano? Ainda lhe falam dele?

Falam-me muito dele, perguntam-me muito pelo Macaco Adriano.

E como foi contracenar com ele?

Foi maravilhoso. Por acaso não tínhamos muita contracena, ele entrava e saía. Mas foi muito divertido.

Quando lhe disseram: vais ter um macaco contigo, o que achou?

Odiei. Não, não odiei. Quando o Ediberto [Lima] me falou nisso, pensei, um macaco? Porquê um macaco? Achei estranho. Mas ele tinha sempre razão nas ideias que tinha - e perguntava-me primeiro o que achava. Fiz muitos espetáculos pelo país fora e por vezes o macaco era solicitado e era um êxito. Uma vez tivemos que sair porque, assim que o macaco entrou, o pavilhão caiu todo em cima de nós. Havia miúdos que tinham medo, outros que lhe batiam, outros que tinham paixão pelo macaco. Tivemos mesmo que sair porque as pessoas saíram das bancadas para ir dançar, porque havia aquela música do macaco em que dançávamos todos, eu começo a chamar as pessoas para o palco e vai tudo, tudo! Ainda hoje me falam no macaco, no Big Show Sic e nas baionettes.

O que quer fazer que ainda não fez?

Nunca penso nisso. Penso muito naquilo que estou a fazer agora e no grato que sou ao facto de ter a oportunidade de fazê-lo os 53 anos. Sinto-me na melhor forma. Desde que o Filipe faz aqui espetáculos sempre alimentei, de uma forma clandestina, o sonho de um dia pisar este palco. O palco do Casino Estoril é especial, foi pisado pelas maiores estrelas mundiais. Portanto, chegar aos 53 anos e ter a oportunidade de fazer televisão como gosto, com uma amiga de sempre como a Rita Ferro Rodrigues, e ter a oportunidade de fazer este espetáculo, a contracenar com novas gerações, é maravilhoso.

Vai tomar iniciativas, fazer projetos?

Já produzi e dirigi alguns espetáculos, não tenho é tempo para tudo, o problema é esse. Quando se está fazer programas diários, é difícil sair em tournée, andar pelo país, uma coisa que adoro.

O João adora público.

Adoro. Fico muito nervoso antes de entrar. Todos os dias. Até saber como é que eles estão. Fico nervoso, com vómitos e tudo. Até saber como é que eles vão reagir, como é que eles vão receber, fico assim. Por isso é que gosto muito de começar no meio deles, é uma forma de os seduzir e também de os sentir.

E se uma sala tiver pouca gente?

É para aqueles, aquela pouca gente merece, isso nem sequer se põe em dúvida. É mais frio.

Por que é que gosta do palco? Tem alguma racionalização para isso?

Não, nunca tive. Mesmo nas minhas brincadeiras de criança eu estava sempre a falar para. Quando era pequeno, havia desenhos animados, o Vamos dormir, com a Família Pituxa. O meu pai ofereceu-me um quadro com os quatro da família. E eu brincava, dava-lhes aulas de português, seguia a gramática: "Hoje vamos dar Morfologia". Fingia que era professor. A minha irmã é que fazia os pontos. As minhas brincadeiras foram sempre a comunicar com. Tudo para mim era um palco.

E a sua irmã gémea também?

Ela cantou inicialmente, participou nalguns espetáculos nos escoteiros, nos espetáculos de rua que eu organizava cantava o fado mas escondida, era envergonhada.

O seu irmão deixou o teatro?

Não, o meu irmão é um intelectual, um advogado. Continua a fazer teatro, faz muitas tertúlias, compõe, escreve poesia, edita livros de poesia. Continua a fazer tudo isso nos tempos livres.

Desmancha-se a chorar com facilidade. Não tem a barreira de "um homem não chora". Está à vontade consigo?

Estou, estou à vontade comigo em todos os aspetos. Quer dizer, eu nunca estou à vontade porque se entro num sítio sozinho... Antigamente, quando não era tão conhecido, saía dos espetáculos e ia a uma sessão de cinema à meia-noite sozinho. E agora não faço isso, fico incomodado, intimidado, porque as pessoas olham, não sei onde hei de pôr as mãos, o que hei de fazer.

Esse lado da vida pública é esquisito?

Não é esquisito, implica alguma gestão. Uma vez fui passear a Sines, visitar uns primos meus, e à noite queria ir a um daqueles belíssimos restaurantes à beira-mar sozinho, mas tinha de entrar num restaurante cheio... não entrei e não jantei. Só por timidez. Se não estiver acompanhado, sou tímido. As pessoas acham estranho mas é assim.

Não é nada estranho, esse seu atirar para a frente é uma coisa de tímido.

Estou sempre com o botão on, e quando estou sozinho fico mais recatado. Normalmente sou tímido, até me ambientar fico um bocadinho calado no meu canto. Quando me sinto aconchegado liberto-me. E no palco, até sentir a pulsação do público, fico sempre muito nervoso. Mas só nos cinco minutos antes de entrar. Até costumo dizer: ninguém sabe o que se sofre, ninguém sabe o que é esta dor, esta ansiedade. Depois de entrar, é maravilhoso.

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