Antes da Meo Arena, o Cirque du Soleil foi ao palácio

A companhia canadiana volta a Lisboa com "Varekai", espetáculo que em 2009 foi representado numa tenda de circo gigante à beira Tejo. Desta vez, antes de trocar a tenda pela arena, os artistas passaram pelo Palácio Nacional da Ajuda

Num raro acontecimento, o Cirque du Soleil veio a Portugal sem o habitual aparato material e humano, composto por uma tropa de artistas, técnicos, costureiros, fisioterapeutas e cozinheiros. Passaram - discretamente - por Lisboa antes de trazerem a habitual ilha do circo canadiano e seus habitantes. Essa só chega na próxima semana para atuar na Meo Arena de quinta-feira até dia 15. As fotografias que aqui vê foram tiradas no Palácio Nacional de Ajuda (à exceção, claro, daquela em que vemos o Tejo e a ponte 25 de Abril). Ícaro e a sua Prometida fazem acrobacias nas salas que foram residência de D. Luís e D. Maria Pia. E é assim que pela primeira vez os vemos, pela lente do fotógrafo Hugo Macedo, que apenas numa hora e meia, contou ao DN, captou algumas das personagens de Varekai.

Lembra-se de ver uma grande tenda de circo (chapiteau), no Parque Tejo (Parque das Nações, Lisboa), em 2009, dois anos depois da estreia do Cirque du Soleil em Portugal com Delirium? Foi dentro dessa tenda que muitos viram Varekai, que agora regressa ao país, já não em formato de tenda, mas concebido para ter lugar numa arena, como tem acontecido mundo fora desde 2014. O espetáculo estreou-se em 2002 em Montreal, Quebeque, sede da companhia fundada em 1984 por Guy Laliberté. Desde então, já foi visto por quase dez milhões de pessoas ao longo de 130 cidades, em 23 países. O seu nomadismo - próprio, aliás, da vida de circo - está desde logo anunciado no seu nome: varekai significa "onde quer que seja" no idioma cigano romani.

Julie Desmarais acabava de chegar a casa quando, ontem, atendeu o telefone no Canadá. A companhia esteve de férias nos últimos dez dias. A responsável pela comunicação do Cirque du Soleil afirma que "muitas coisas mudaram" em Varekai desde a última vez que o vimos. "Alguns números, os artistas... mas o conceito de Varekai não mudou. É a história de um rapaz [Ícaro, inspirado no mito grego em que este cai ao mar Egeu depois de as asas feitas de penas de aves unidas com cera derreterem perto do sol] que voa próximo do sol e que cai numa floresta encantada, onde encontra aquela jovem criatura que o ajuda e o guia através do seu caminho. Varekai fala de esperança. É uma história onde as pessoas se encontram num momento de dificuldade e há sempre alguém que os pode ajudar."

É curioso ouvir Desmarais falar se nos lembrarmos que o próprio Dominic Champagne, que concebeu o espetáculo, teve ele mesmo um episódio semelhante ao de Ícaro quando, numa queda, partiu as duas pernas e teve de reaprender uma série de coisas. Varekai, contou o diretor artístico Bruno Darmagnac à revista Telerama, parece dizer: "Levantem-se, é possível!"

De quinta-feira a 15 de janeiro, 50 artistas - de 19 nacionalidades - subirão ao palco da Meo Arena num espetáculo que nos leva à floresta de 300 árvores em que cai Ícaro - que antes vemos voar com as suas asas impressionantes - repleta de acrobatas, trapezistas, palhaços, sete músicos e dois cantores.

Como sempre acontece no Cirque du Soleil, tudo o que está em cena merece o olhar de quem assiste. Atente-se, por exemplo, aos figurinos, concebidos por Eiko Ishioka, a estilista e figurinista japonesa (1938-2012) que venceu um Óscar para Melhor Guarda-Roupa pelo Dracula (1992) de Francis Ford Coppola. Foram precisas 33 mil horas de trabalho para fazer aqueles mais de 600 figurinos, chapéus e outros acessórios; e 250 horas para a manutenção deles.

Quanto à escolha do Palácio da Ajuda para as fotografias, Julie diz: "É extraordinário. É um ícone de Lisboa, as pessoas reconhecem-no. Levámos algumas personagens de Varekai, como o Ícaro e a Prometida, que representam uma história de amor. Eles encontram-se e transformam-se, como o palácio fez ao longo do tempo."

A companhia que reinventou o circo e foi mostrá-lo ao mundo

Estávamos em 1984 e comemoravam-se os 450 anos da descoberta do Canadá por Jacques Cartier. Era preciso um espetáculo que levasse as comemorações a todo o Quebeque e, por incrível que possa parecer, foi assim que Guy Laliberté criou o Cirque du Soleil, a companhia de circo que, de facto, levou ao Quebeque as artes de circo - sem nunca recorrer a animais - e da animação de rua numa tenda azul e amarela. Segundo Laliberté, a escolha do nome vem do facto de soleil (sol) "representar a energia e a juventude". Quanto à razão que o levou a dedicar a vida a uma companhia de circo, tem que ver com o grupo de teatro de rua fundado por Gilles Ste-Croix, Les Échassiers de Baie-Saint-Paul, e composto por cuspidores de fogo, malabaristas, acrobatas e bailarinos pela pequena cidade de Baie-Saint-Paul, Quebeque.

O Cirque du Soleil, que se distinguia pela sua cenografia de aparência feérica, a ausência de animais, e o tipo de performance dos seus artistas, chega pela primeira vez aos Estados Unidos em 1987, onde o espetáculo We Reinvent the Circus (Nós Reinventamos o Circo, na tradução para português) entusiasma a sua plateia em Los Angeles, San Diego e Santa Monica. O seu nome, aliás, espelhava já a forma como a companhia se via e o mundo a viria a reconhecer.

Em 1990 segue-se a aventura europeia, que começa em Londres e Paris. Dois anos depois: a Ásia. Fascination, uma seleção dos melhores números de espetáculos anteriores da companhia, chega a Tóquio. Em 1993, Mystère tornar-se-ia no primeiro espetáculo permanente do Cirque du Soleil em Las Vegas, no teatro Treasure Island.

Não pararam mais. 160 milhões de espectadores já assistiram a espetáculos da companhia canadiana em mais de 400 cidades de 60 diferentes países de seis continentes. Em 1984, o Cirque du Soleil era composto por 73 trabalhadores. Hoje, a companhia tem quase quatro mil - entre eles 1500 artistas oriundos de 50 países - distribuídos por cem diferentes ofícios: de costureiro a fisioterapeuta, cozinheiro ou técnico de som ou de luz.

Só a partir de 2007 Portugal conheceria o novo circo e o novo mundo que se abriu em Cirque du Soleil. A companhia estreou-se em Lisboa mais de 20 anos depois da sua fundação, com Delirium. Curiosamente, atuaram no Pavilhão Atlântico, hoje Meo Arena, a que regressam na próxima quinta-feira.

O português Nando Cardoso é técnico de som no Cirque du Soleil desde 2013

No ano seguinte chegaria Quidam, que estreara em 1996 em Montreal e, em 2009, Varekai que foi representado num chapiteau no Parque Tejo, em Lisboa. Em 2011 viria Alegría, que estreara em 1994, e que trouxe a Portugal um acrobata português no seu elenco: Diogo Faria.

Agora, em Varekai, também haverá um português na equipa de cem pessoas da companhia que quinta-feira chega a Lisboa, contou ao DN a responsável pela comunicação do Cirque do Soleil, Julie Desmarais. Chama-se Nando Cardoso e, apesar de continuar sediado em Lisboa e passar "a maior parte do tempo" em digressão, é técnico de som na companhia desde 2013, ano em que foi convidado pela companhia para trabalhar no Quidam.

O Cirque du Soleil foi vendido em 2015 a investidores americanos da TPG Capital e chineses, o grupo chinês Fosun - que em Portugal detém a Fidelidade e a Luz Saúde, e é acionista BCP. Laliberté detém hoje apenas 10% da companhia. A venda do Cirque du Soleil, dizia-se então, abriria portas à expansão da companhia para a China, de onde têm vindo alguns artistas, embora nenhum deles participe atualmente em Varekai, afirmou Desmarais.

Neste ano que agora termina, o Cirque du Soleil levou 20 espetáculos (11 dos quais residentes) a todo o mundo: Quidam na Austrália e Nova Zelândia, Avatar na América do Norte, Ovo nos Estados Unidos ou, entre outros, Totem no Japão.

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