Angra do Heroísmo, a baía do jazz

O Angrajazz termina hoje a sua 19ª edição. Com um programa alargado, apresentou-se em cafés da cidade, fora do recinto principal, para levar a música a toda a gente. Um desafio da Direção Regional da Cultura que quer ter uma cidade em que o património não são só os edifícios e os monumentos mas também as pessoas que lhe dão vida.

"What is éroízmo?" Charles Tolliver, ainda estremunhado depois do voo madrugador desde Lisboa, começa a absorver a ilha, aos poucos, na via rápida que a atravessa pelo coração. "Bravery [bravura]", respondemos. "Significa baía de bravura, Angra do Heroísmo." O trompetista olha a ilha do lado de fora da carrinha do transfer e diz: "Ok. Baía do jazz. I like it."

O norte-americano seguia com os músicos que constituem o seu decateto para o hotel, em vésperas do concerto no Festival Internacional de Jazz da ilha Terceira, Açores, o Angrajazz. O resultado das bolandas da aviação ia-se desvanecendo estrada fora, entre as Lajes e a cidade de nome estranho, e à medida que tomava (tomavam) o pulso ao território insular. "Que árvores são aquelas?" Apontava às enormes criptomérias que ladeavam uma zona do percurso. Fica a saber que vieram do Japão no tempo da indústria da laranja na ilha, para fazer as caixas que as acomodaram para a Europa. Vai-se espantando com a descoberta. Quando avista palmeiras, já às portas da cidade, diz: "estas eu conheço, existem onde eu vivo, na Florida."

A banda do trompetista subiu na quinta-feira ao palco do Centro Cultural e de Congressos de Angra do Heroísmo no segundo dia do festival. No programa, o concerto de 1959 de Thelonious Monk no Town Hall, tocado na íntegra. O pianista norte-americano completaria cem anos no próximo dia 10 e é um dos cinco nomes centenários da história do jazz homenageados nesta edição.

O duo madeirense Mano a mano num café da cidade

Na véspera, o festival abriu com a Orquestra AngraJazz, dirigida por Claus Nymark e Pedro Moreira, num concerto que, para além de temas do aclamado Monk, deu a escutar Dizzy Gilespie, Tad Dameron, Ella Fitzgerald e Lena Horne. Antes de se instalar no Centro Cultural - uma antiga praça de touros, destruída parcialmente no sismo de 1980, que ganhou novos usos -, já o Angrajazz andara pela rua, no centro da cidade (o Centro Cultural localiza-se numa zona mais periférica) - um desafio da Direção Regional da Cultura aos organizadores do festival, a associação Angrajazz. "Nós entendíamos que o festival merecia ser vivido pela cidade", diz Nuno Ribeiro Lopes, diretor regional da Cultura dos Açores.

O Jazz na Rua veste-se de duas ideias: dar uma maior visibilidade do jazz e contrariar a desertificação da cidade após as horas de funcionamento dos serviços e comércio. O diretor Regional de Cultura admite que esta aposta de animação cultural se destina, também, aos turistas que cada vez mais aterram na ilha: "Numa cidade património mundial, a sua singularidade não pode ser só a parte física, tem que ver com a forma como as pessoas a vivem, a parte imaterial. Ninguém vem visitar uma cidade só para ver edifícios vazios ou só para ver outros turistas. Parece-nos importante que a cidade seja animada e essencialmente vivida pelos autóctones."

No concerto do duo madeirense Mano a Mano num café do centro da cidade, juntou-se ao público local uma jovem espanhola de copo de vinho branco numa mão, telemóvel em live stream na outra. Vinha pela Rua Direita quando foi atraída pelo som das guitarras dedilhadas pelos irmãos André e Bruno Santos. É esta a ideia, ter a música a servir de isco para as pessoas viverem de outra forma a cidade Património da Humanidade da UNESCO.

José Ribeiro Pinto, um dos elementos da associação Angrajazz, diz que se sente "um cheiro a jazz por toda a cidade". Satisfeito com o novo modelo do festival, perspetiva um crescimento para 2018, quando chegam aos redondos 20 anos: "queremos criar uma semana com dez dias de jazz, num ambiente que cative as pessoas", dizia no discurso de abertura da presente edição. O diretor Regional da Cultura aponta no mesmo sentido: "Pensamos que não são só os 500 espectadores que estão cá [no recinto principal] que devem viver o jazz. Se Angra se quer afirmar e se o festival se quer afirmar, a cidade deve estar toda em festa", acentuou.

Mas nem só de concertos se fazem estes dias de Angrajazz. Também numa estreia, o festival decidiu apostar na formação e promoveu sessões para jovens. Como a que encheu uma sala da escola Tomás Borba, onde funciona o Conservatório Regional de Angra do Heroísmo. Pedro Moreira, um dos diretores da orquestra da casa, e os Mano a Mano apresentaram-se perante uma plateia irrequieta.

Quando testou o seu saxofone, ainda antes de todas as quatro turmas estarem instaladas, escutou com um ar divertido a pergunta: "Ó senhor, o senhor sabe tocar a música da Pantera Cor-de-Rosa?" Talvez, respondeu Pedro Moreira divertido. Durante uma hora, apresentou o jazz, esta "música jovem que nasceu há cento e tal anos", explicando aos miúdos o que fazem estes músicos quando tocam: "é como se fosse uma conversa em que ouvimos o que os outros tocam e respondemos musicalmente."

Assim acontece todas as noites, dentro e fora do Centro Cultural. Na sexta-feira, o espetáculo alastrou-se à Casa do Sal, um bar junto à Prainha, em que alguns músicos da banda de Tolliver acabariam por improvisar uma conversa noite fora, após a jam session dos músicos locais Wave Jazz Ensemble.

Em Angra do Heroismo,

A jornalista viajou a convite da Associação Cultural Angrajazz

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