Ana Moura: "Se o fado se canta e chora também se pode dançar"

De volta ao Coliseu de Lisboa, a fadista garante que vai surpreender os espectadores. Quanto a novo disco, o conceito já anda a passear pela sua cabeça e subentende-se que o novo produtor vai cumprir o seu desejo de continuar a inovar.

A escolha do repertório é cuidadosa e escolhe as letras que canta com precisão: "Canto muitas letras com histórias que não vivi, mas sinto que poderiam ter sido minhas. Se me sinto tocada pela letra e pela melodia, identifico-me." Se for preciso mudar uma ou outra palavra, não se coíbe de o fazer: "Faço-o muitas vezes e tenho esse à-vontade com os compositores e letristas para lhes pedir que mudem alguma coisa, porque há palavras que dão uma interpretação muito diferente do que sinto ao cantá--las". Não nega que embirre com algumas palavras: "Se são muito complicadas ou não têm aquela sonoridade redonda que aprecio." Uma particularidade dos seus dois últimos álbuns é o de contar com autores pouco habituais no fado: "Quando peço a um compositor para escrever um tema, digo sempre para se esquecerem de que estão a fazê-lo para uma fadista. O que quero é que tragam o seu universo, porque o elemento fadista já lá vai estar através da minha alma."

O próximo desafio de Ana Moura chama-se Coliseu. De Lisboa, hoje à noite, e do Porto, dia 28. Não que seja uma novidade pisar os palcos destas duas salas míticas, mas é nelas que vai dar por encerrado um ciclo de espetáculos com o pretexto dos álbuns Moura e Desfado, o momento em que rompeu definitivamente com o fado tradicional. A digressão não ficará por aí, pois já estão marcadas datas para Nova Iorque, São Francisco e Paris, entre outras cidades. Ana Moura não quer revelar como será o espetáculo dentro de poucas horas e apenas garante que o alinhamento irá ser uma surpresa. Desvenda o cenário, uma espécie de janela do que lhe vai dentro a par da sua observação do exterior. Quanto à roupa, os vestidos terão umas franjas que se movem conforme as andanças do corpo. Afinal, como diz na conversa, o fado é para dançar.

Não foi só de fado que se falou, apareceu a Nina Simone: "Não digo que seja a melhor intérprete, antes que me influencia desde que me conheço devido à sua interioridade. É uma cantora de alma, tal como Etta James ou Billie Holliday". E das mais novas? A resposta é imediata: "A Amy Winehouse arrebatou-me... Tinha uma alma que já é difícil de encontrar." Já agora, o que diz de Madonna viver em Lisboa: "Adoro-a e percebo a razão [política] por que deixou os EUA e escolheu Portugal." Já que se fala de mulheres e se assume como feminista, pergunta-se se seria capaz de cantar uma letra machista: "Não. Também por isso procuro compositoras e letristas mulheres pois há nelas outra forma de se exporem. Têm menos receio em dizer o que sentem."

Antes de se começar, questiona-se se ainda há alguma pergunta nova para se lhe fazer ao fim de tantos anos de carreira? "Realmente, com tantas entrevistas que já dei, pouco sobra", diz. Sente que são uma devassa da sua vida ou faz parte do ofício? "Este lado exposto que temos faz parte desta coisa", explica. Que perguntas mais odeia nas entrevistas? "Há coisas que me interessam menos responder, mas é como quando vamos para o palco e tememos a reação do público perante canções novas. Detesta-se a surpresa e, na entrevista, também existe isto. Por vezes, há perguntas mais desconfortáveis", responde. Fica a promessa de a única questão de que não vai gostar ficar para o fim...

As entrevistas são como o fado. As perguntas e as respostas repetem-se, os fados cantam-se vezes sem conta. Repetir não desgasta?

É verdade, tanto que no fado tradicional faço por ir mudando o alinhamento para ser mais livre. Nem os músicos sabem o que cantarei, é o que me apetece na hora.

Se tivesse de eleger a canção que menos lhe custa repetir, qual era?

É o Desfado, porque tenho-a cantado desde que saiu e ainda não existe essa sensação de ter de deixar de o interpretar como já aconteceu com outras.

Quais, por exemplo?

Prefiro não dizer, os compositores iriam ficar aborrecidos. Até há umas mais antigas, só que o público pede sempre esses temas.

Há sucessos que nunca podem deixar de ser interpretados...

Exatamente. O Coliseu vai ser um pouco diferente. Cantarei temas de que não posso fugir, mas o alinhamento não terá só por base o último disco, prefiro cantar alguns lados B que a maioria das pessoas nem conhece.

É um alinhamento especial para os coliseus?

Sim, para as salas e para este momento da minha carreira, pois já estou há dois anos com a digressão do Moura, cujos concertos têm sido muito festivos. Segue-se Nova Iorque, Paris...

Quem é o público nova-iorquino. O da world music portuguesa?

A coisa da world music já está um pouco ultrapassada e quem procura um concerto de uma fadista é alguém que deseja uma alternativa ao que se ouve massivamente. Nos EUA, já tenho um público que me segue e é normal nem haver um português na sala.

Qual é o conceito destes coliseus?

Fiz muitos concertos no último ano, em Portugal e no estrangeiro, e tenho vontade de partilhar esta minha ideia do mundo através da minha janela e trazer a universalidade para a interioridade. Ou seja, como o regresso a casa após as viagens. O concerto vai ser muito mais íntimo do que os recentes e todo o trabalho cenográfico está a ser feito em função de passar esta ideia.

Não vai ser festivo?

Sim, os meu próprios vestidos são de modo a ver-se o movimento de que Moura fala muito, o de o fado se poder dançar. O fado no século XIX era dançado, só que isso perdeu-se. Quero resgatar essa ideia e há mesmo uma música do Miguel Araújo que a expressa ao dizer que se o fado se canta e chora também se pode dançar.

Onde fica o silêncio que se pede enquanto se canta o fado?

Enquanto estamos entregues à dança está-se envolvido na música, é o mesmo transe. O não silêncio é algo não intrusivo e que não distrai. Claro que nos temas mais íntimos, pedir-se-á esse silêncio.

O Moura já tem dois anos. Quando é que há um novo disco?

Já tenho umas ideias, mas ainda nada começou. Espero conseguir gravá-lo no próximo ano.

Já lhe pedem novo disco...

Já.

Vai ser parecido com quê?

Com nada, espero. Ainda não está delineado, mas não dependerá só de mim, também de uma pessoa que chamei para o produzir.

Um novo produtor significa um outro corte radical?

Espero bem que sim, mesmo que não goste de falar disso ainda.

Vai cantar em inglês e reviver a rockeira que ainda existe em si?

Será mais aquele meu lado de estar sempre a querer experimentar coisas diferentes. No entanto, tenho sempre a vontade de fazer um disco só de fado tradicional. Sei que o Desfado chocou um pouco por causa dos temas em inglês, mas surgiram de uma forma espontânea e foi impossível evitar.

Também continha sonoridades pouco habituais no fado...

Deixei de me preocupar com isso, cantei muitos anos em casas de fado e ouvi muita coisa no meio que era castrador e que me limitava. Só quando comecei a fazer as minhas tournées é que vi que estava presa a certos conceitos e com muitos medos. Tive necessidade de ter como objetivo principal da minha vida conquistar uma situação que me libertasse e foi então que se deu esse rompimento, com o Desfado. Até com as pessoas que trabalhavam comigo na parte técnica, músicos e compositores. Foi essa mudança radical que me fez ganhar uma liberdade para pensar na minha própria identidade musical e fazer um caminho sem receio. Foi um passo muito importante na carreira, pois com o tempo o artista define o que é ou não fado. Na altura da Amália, muitos dos temas que cantava não eram considerados fado e hoje são clássicos desta música. O que quero é ser livre e determinar a minha identidade na música.

Desde criança que foi pressionada para cantar fado. É verdade?

Costuma dizer-se que se nasce fadista e com certas características, que não se sabe bem traduzir quais são, como o modo em que entregamos a alma. Já ouvi o Caetano Veloso a cantar Estranha Forma de Vida e reconhecemos o fado mas não o sentimos como fadista. Se ouvirmos a Lucília do Carmo, percebe-se que não faz voltinhas e transpira fado por todos os lados. Desde miúda que as pessoas sentiam que eu tinha fado sempre que cantava e diziam que seria fadista. Acho que posso cantar em árabe e haverá sempre algo que me distingue como fadista.

Não se vê a cantar doutra forma?

Posso cantar todo o género de música, mas esta particularidade estará sempre presente. O que me faz medo é a estagnação - põe-me ansiosa. O risco motiva-me, mesmo que todos à minha volta digam "tem cuidado". Isso aconteceu-me enquanto estava a gravar o Desfado em Los Angeles e recebia "avisos" constantes de amigos. Mas o que eu queria era aquela sensação de estar a gravar o disco que desejava naquele momento e fiquei feliz porque foi um sucesso.

Não se sente obrigada a estar numa reinvenção constante?

Ainda não. Sei que há muita pressão a cada novo disco, contudo ganhei uma segurança ao fazer o que acho que faz sentido. Houve alturas em que me entreguei nas mãos de outros, agora prefiro seguir o meu instinto.

É do tempo em que o fadista tinha de ter sucesso lá fora para ser reconhecido em Portugal. Mudou?

Comecei por trabalhar com agentes que não eram portugueses e a fazer digressões internacionais. Tem tudo que ver com a nossa mentalidade e de há uns anos os portugueses terem vergonha do que fazia parte da nossa tradição.

Vamos à pergunta fora do baralho. Quando se vai à internet buscar informações sobre si, só aparecem coisas sobre o seu novo amor... O que se passa?

É raro googlar o meu nome, mas há pouco tempo precisei de ver fotografias antigas e fiz isso. O que vi deixou-me entristecida, confesso. Já não me googlava há uns bons anos e o que antes era só a falar do meu percurso na música, o que era bom, agora resume-se à minha intimidade, sobre a qual nada tenho a partilhar. Zero. Faço tudo para que seja assim, mesmo que não evite fazer uma vida normal como qualquer outra pessoa.

É tudo verdade ou mentira?

Nem é verdade nem é mentira, até porque como não leio isso fico sem opinião. Avisaram-me e cedi. Fiquei com vergonha alheia daquelas pessoas que estão a falar com uma certeza absoluta sobre coisas da vida privada de outras. Quem é que pode falar sobre mim sem me conhecer? Só dirão disparates. Fiquei triste.

Ana Moura

Coliseu dos Recreios, Lisboa

Hoje, às 21.30.

Bilhetes: entre os 20 e os 60 euros

Coliseu do Porto
Dia 28, às 21.30.
Bilhetes: entre os 20 e os 50 euros

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