Vangelis ou a banda sonora poderosa de Blade Runner

Para o som de Blade Runner, Vangelis utilizou técnicas revolucionárias que alteravam a perceção do espectador

João Céu e Silva
O compositor Vangelis durante as gravações de Blade Runner© DR/Estúdios Nemo

Ninguém pode falar sobre o filme Blade Runner sem a música de Vangelis invadir a sua memória e, talvez, o filme de Ridley Scott não fosse tão conseguido se a ambiência sonora não se tornasse esmagadora. A história por trás dessa interação imagem-música tem segredos que os estúdios Nemo revelaram ao pormenor recentemente, a propósito da estreia da sequela, onde se percebe como é que Vangelis compôs os temas após ver o material filmado em dezembro de 1981 e não resistir a aceitar a encomenda.

Diga-se que esta banda sonora, tal como a do filme Chariots of Fire, foi um dos seus maiores sucessos, o que não evitou que, tendo o filme estreado em 1982, só 12 anos depois fosse lançada a banda sonora definitiva e, 25 anos depois, um triplo CD com tudo o que gravara para o filme baseado no conto sobre um caçador de replicantes de Phillip K. Dick.

A sonoridade de Vangelis foi determinante para que o espectador compreendesse as armadilhas dos sentimentos expostos no filme, como os do protagonista Harrison Ford, o exterminador de replicantes que se apaixona por uma mulher-máquina que roça o mais possível o humano e se vê num dilema terrível de a ter de eliminar. Essa cena final, coprotagonizada por Sean Young, em que ela desmonta a farta cabeleira armada que usou durante todo o filme como se através dessa transformação fosse autorizada a ter uma vida nova, tem em fundo a faixa Love Theme, com uma profundidade que compete com o horizonte que surge no ecrã e o saxofone de Dick Morrissey. A banda sonora não vive apenas desse tema e a caixa tripla mostra que compôs sons e canções que obrigavam o espectador a penetrar no filme de um modo total.

O processo de composição e gravação de Vangelis foi especial. Mal o filme foi montado em versão quase definitiva, os técnicos do estúdio de cinema calibraram a sua mesa de mistura com a de montagem do filme e ele sentava-se em frente aos 35 instrumentos que tinha no seu estúdio para compor em função das imagens que observava.

O desafio que Vangelis tinha pela frente exigia que superasse a inovação de Wendy Carlos para o filme Laranja Mecânica, de 1971, onde o sintetizador embrulhara peças clássicas numa sonoridade muito original. Vangelis utilizará os sintetizadores que estavam na moda e que se adaptam ao que se imagina serem os sons de um mundo extraterrestre, mas irá incorporar instrumentos que parecem familiares, evocando essa familiaridade, como seria o caso de harpas orientais, de um modo alterado em estúdio e que influenciavam a perceção do espectador.

Para se perceber o método de Vangelis, parta-se do tema de abertura. As notas são alongadas num sintetizador Yamaha CS-80, com teclas que as permitem adulterar em função de uma pressão menor ou maior. Que se complementam com a execução de outros instrumentos: um Roland VP--330 VocoderPlus para imitar os instrumentos de cordas; um Fender Rhodes para os do piano; um Prophet 10 para os efeitos; um Emulator com uma arquivo de sons e um Yamaha GS-1 para a percussão. Todos eles são reverberados por um processador Lexicon 224... O processo criativo levou quatro meses e a banda sonora ficou para a história, rivalizando com a inovadora estética do filme. Tanto assim que no trailer de Blade Runner 2049, a primeirâ sonoridade faz o espectador regressar à mítica elaboração de Vangelis.