Um jogo de damas contra a indústria farmacêutica

O filme que denunciou o maior escândalo farmacêutico em França acabou de se estrear em Portugal. "150 Miligramas" tem a dinamarquesa Sidse Babett Knudsen como protagonista e é um projeto de Emmanuelle Bercot. Juntámos as duas numa conversa em Toronto.

Rui Pedro Tendinha, em Toronto
A atriz Sidse Babett Knudsen interpreta o papel da pneumologista Iréne Frachon© Direitos Reservados

Provar que um medicamento prejudicava a saúde de milhares foi a grande luta de Iréne Frachon, pneumologista que lutou contra toda a indústria farmacêutica francesa neste caso que apaixonou a opinião pública francesa. Por ter ganho a luta contra uma poderosa farmacêutica, a médica ficou conhecida como Iréne Brockovich. O chamado caso Mediator surge retratado no filme 150 Miligramas, mais uma grande interpretação de Sidse Babett Knudsen, uma atriz nórdica a conquistar a América e a França. Em Toronto, no ano passado, Sidse e a realizadora Emmanuelle Bercot estiveram à conversa com o DN.

Parece-me ser uma cineasta que acredita que o cinema comercial francês não se limita a comédias idiotas. O seu anterior filme como realizadora foi um êxito, De Cabeça Erguida...

EB - Eis um bom exemplo, nós em França não estamos presos às fórmulas dessas comédias! Há uma categoria de público que está interessada em filmes sérios como este. Em França temos ainda um público que acredita nos filmes que falam de temas políticos e que possam lançar um debate, sobretudo agora. Um filme como este tem o seu público! Trata-se de uma história incrível e com uma personagem também incrível!

Foi a personagem ou o artigo do Le Figaro que a atraiu para fazer o filme?

EB - Não foi o artigo, foi a personagem da Iréne. Quis, através dela, fazer um retrato de uma mulher. Filmar um retrato feminino, isso foi o que me interessou. Tudo isso porque ela é uma pessoa muito viva, uma mulher com um lado também muito divertido. Creio que é uma personagem para o grande público. Fazem falta mais filmes assim, engagés!

Esta era uma história feminina que só poderia ser contada por uma mulher?

EB - Nem pensar! O que as pessoas vão poder ver é apenas o meu olhar, neste caso feminino, pois sou uma mulher. Estou convencida de que um realizador bom também poderia fazer justiça a esta história.

SBK - O cinema pode ter um género na maneira de se contar uma história, mas não olho muito para isso. Já representei uma primeira-ministra mas, para mim, era igual. Do meu ponto de vista, apenas estava a interpretar um ser humano que, por acaso, era político. O que conta para mim é o lado humano.

Fica-se com a ideia de que, quando vemos um filme realizado por uma mulher, o público quer logo que seja feminista...

SBK - Uma mulher que esteja a fazer algo sensacional não tem de ser feminista, é apenas uma mulher!

O feminismo é apenas uma palavra?

EB - Acertou!

SBK - Luto muito pela igualdade, tenho de dizer isto! Amava poder fazer coisas que ajudem esse debate. Acredito mesmo na igualdade entre os sexos.

Há pouco, a Emmanuelle dizia que o que lhe interessou aqui foi fazer o retrato de uma mulher e a Sidse interpreta-a de forma radicalmente orgânica. A dada altura, ela farta-se de espirrar, coisa que não vemos muito em cinema...

SBK - Limitei-me a ganhar inspiração daquilo que vi dela, uma mulher cheia de vida. A Iréne é muito interessante, a verdadeira mulher "maior do que a vida". Além do mais, tem uma família incrível. Aquilo que vemos no filme é verdade. Melhor do que uma família normal - não dá para acreditar!

A perfeita família em termos cinematográficos...

SBK - Sim, uma família que representa aquela noção de que só assim podemos ter apoio para fazermos o que sonhamos. Identifiquei-me com a personagem porque há nela qualquer coisa de trapalhona com a qual sinto empatia. Tal como esta mulher, não estou sempre em controlo das coisas no que ao físico diz respeito. A Emmanuelle incentivou-me muito por essa via. Quando ela está ao telefone a tentar explicar as coisas, fala imenso por gestos, mesmo não podendo ser vista. Foi muito atraente convocar tudo isso numa história tão séria.

As pessoas riem muito em certas partes do filme, mas depois há uma cena de autópsia que nos atira ao chão.

EB - Quis mostrar uma autópsia de forma tão explícita porque o cinema nunca vai por aí! Esse medicamento obrigou a serem feitas todas essas autópsias. Por outro lado, é duro, sim! Não é nada intelectual, mas era importante incorporar essas cenas de forma orgânica.

A atriz Emmanuelle Bercot já teve os seus níveis de concentração mais baixos num filme por ter aparecido a Bercot realizadora a espiar?

EB - Isso nunca. Quando estou no modo de atriz entrego-me por completo ao realizador. Mas quando trabalho com um grande realizador claro que fico curiosa para ver como ele trabalha, embora nunca queira intelectualizar nadinha!

Já agora, está curiosa de um dia poder vir a contracenar com a Emmanuelle num filme?

SBK - Nunca! Seria arrasada!

EB - Seríamos perfeitas!

Por fim, o filme é dedicado ao seu pai. Alguma razão em particular?

EB - O meu pai era médico e cresci nesse meio. Lembro-me de ele alertar acerca dos perigos dos abusos das farmacêuticas. Está aqui o meu background familiar.