"Um fadista envolve os outros na sua história. Como o Tom Waits e o Bob Dylan"

É um conversador nato, este homem que consegue impor-se a cantar baixinho, muito baixinho. Helder Moutinho conversa sempre no tom de quem está na sua casa de fados, na Mouraria, a contar histórias do tempo em que começou e os mestres lhe davam ensinamentos e ordens como quem não quer a coisa. Amanhã canta no São Luiz, em Lisboa, um concerto a que deu o nome de Escrito no Destino, que levará a 9 de maio ao Porto, à Casa da Música. Nasceu em Oeiras, em 1969, no meio do fado, como se este estivesse misturado na comida.

Ana Sousa Dias
© Reinaldo Rodrigues / Global Imagens

O que é este concerto, Escrito no destino?

Decidi apresentar uma retrospetiva do que tenho vindo a cantar desde sempre. Obviamente os meus últimos discos - 1987 e Manual do Coração - são os que estão mais vivos neste momento, mas fui repescar temas antigos, alguns que não costumo cantar. Na casa de fados canto mais temas tradicionais do que os do Manual do Coração, aqui quero afirmá-los mais. Não deixa de ser uma retrospetiva da minha carreira desde 1994, sem fazer nenhuma comemoração.

Não é um número redondo, de facto.

E quando houver também não quero que se saiba.

Em 2024 são 30 anos e para o ano tem os 25.

Não vou fazer nada disso. Acho que 25 anos não é coisa que se comemore. Não é nada. Comemora-se noutras coisas, por exemplo, as bodas de prata num casamento.

Vai levar este concerto à Casa da Música a 9 de maio e até lá tem um programa intenso. Na sexta-feira vai estar em Bruges, na Bélgica.

Vou ao Belmundo Festival, um festival de músicas do mundo. Os belgas adoram músicas do mundo e adoram fado. Fazemos muitos espetáculos na Bélgica e na Holanda, na Holanda já não tanto como antigamente. No final dos anos 1990 e até 2005, era uma febre tremenda. Agora é mais a zona belga.

Vai para Nova Iorque, no princípio de abril?

Há um festival de fado que tem este ano a segunda edição. Os programadores estiveram na minha casa de fados e acharam imensa graça, desafiaram-me a recriar uma casa de fados, toda decorada e com petiscos, comes e bebes. Depois eu e a Teresinha Landeiro vamos cantar, acompanhados pelo Pedro Castro e pelo André Ramos. E se aparecer alguém pode cantar. Se cantar bem.

No Escrito no Destino então tem temas do Manual do Coração e do 1987 - que por acaso é um disco de 2013.

Chama-se 1987 porque acordei a pensar nesse número e achei que era giro. Não sabia o que havia de chamar ao disco, havia uma série de ideias. Pensei: por que é que não lhe chamo um número em vez de um nome?

E porquê 1987?

Achei graça à musicalidade do número. Se fosse 1988 não tinha graça nenhuma, 86 ou 89 também não. Só depois fui à procura das razões e de facto aconteceram coisas fantásticas em 1987. Foi o início do conceito da música do mundo, foi quando o Ronald Reagan disse na Praça Vermelha "mandem o muro abaixo", foi o primeiro disco de uma banda mítica portuguesa, os Madredeus. E foi também o ano em que fiz 18 anos. Mas quando pensei no número não foi por causa disso.

O Manual do Coração só tem letras do João Monge. Já tinha trabalhado com ele?

Tinha trabalhado com ele no Quinteto Lisboa, na primeira formação, no 1987 fez quatro temas, o disco tem três poetas a escrever além de mim, enquanto letrista. Este disco surgiu porque eu lhe disse: um dia havemos de fazer um disco os dois, só com letras tuas. Eu sei que ele gosta disso. E ele respondeu: quando quiseres diz-me, para eu não fazer mais nada durante esse ano. Fiquei a pensar naquilo e perguntei-lhe: o que estavas a dizer é mesmo verdade? Completamente. Não podia deixar de o fazer, tinha de aproveitar.

E as músicas deste disco são de autores extraordinários. Tropeço logo no Carlos Barretto, que esteve aqui na semana passada.

É uma surpresa, porque o Carlos não se assumia como compositor, sempre como instrumentista ou então numa coisa muito mais jazzística, nada de canções mais populares. E fez ali dois temas fantásticos. Ele está a gostar à brava de fado e tem outros projetos também de fado.

Tem também música do Zeca Medeiros, do Manuel Paulo, do próprio João Monge, João Gil, Marco Oliveira, Mário Laginha, Pedro da Silva Martins e Luís José Martins, Ricardo Parreira e Vitorino. Um disco de luxo. Foi diferente cantar canções dos outros?

Foi-lhes pedido para fazer música como se fosse para eles próprios.

Sem pensar em fado?

O fado fazemos nós, pegamos nas músicas e trazemo-las para o fado, somos fadistas. Quando as pessoas fazem músicas a pensar muito em fado depois parece que vêm arrancadas a ferros. Vieram músicas normalíssimas, como eles gostam e se sentem bem. Não mudámos as harmonias nem as melodias. Há alguns fados tradicionais com estrutura poética tradicional - as quintilhas, os versículos, as quadras.

Canta-as todas como fados?

Eu e os músicos, como se fosse um fado.

Os músicos são o Ricardo Parreira na guitarra, o Marco Oliveira na viola, o Ciro Bertino no baixo e o Carlos Barretto no contrabaixo, nos temas dele. O fado estava misturado no Cerelac desde que o Helder era pequenino?

Isso é giro, nunca tinha pensado nisso.

Se fosse no meu tempo era na Farinha Amparo.

Por acaso eu comia mais Nestum com Mel. Se eu tivesse nascido em Sevilha, seria cantor de flamenco. A música estava connosco, esta foi a nossa oportunidade, o que nos foi entregue: vocês têm isto. Gostam de música? Têm aqui esta.

E quem é que entregou isso?

Acho que foi a família. O meu bisavô já era fadista, foi um dos primeiros fadistas conhecidos da história.

Chegou a conhecê-lo?

Não. O meu bisavô passou o bichinho ao meu avô, ao meu tio-avô, por sua vez ao meu pai. Há muito pouco tempo, há talvez dois meses, uma tia-avó minha, a tia Palmira, foi à minha casa de fados. Entrou, cantou, ia com uns amigos. E eu não fazia ideia. Daqui a bocado faço 50 anos, desde miúdo que a conheço e nunca a tinha ouvido cantar. Fiquei de boca aberta. Como é possível? Até disse à minha mãe - a tia canta tão bem, tem uma voz tão bonita... E a minha mãe contou-me que ela podia ter sido uma fadista mas o meu bisavô não a deixava cantar, tinha medo, porque na altura não era tão fácil como isso. Era aquele tempo em que se dizia "meninas à sala que chegaram os americanos".

Os seus pais passaram isto para os filhos todos?

Sim, com as matinées de fado, as tertúlias com os amigos em Cascais.

Quantos irmãos são?

Somos três.

Os três fadistas - o Pedro Moutinho, o Helder Moutinho e...

... o Carlos Moutinho...

... também conhecido por Camané. Já cantaram juntos?

Fizemos uma vez uma experiência, uma brincadeira. Não permitimos gravação nem comunicação social, foi um evento privado de um banco, um aniversário do Montepio. Eu acho que a Associação Mutualista faz muito pela cultura portuguesa e nesse sentido não é publicidade, é falar sobre quem faz alguma coisa. Fizemos dois coliseus, Lisboa e Porto, e eu não queria ir. Por acaso foi depois de um espetáculo no São Luiz.

Isso foi há quanto tempo?

O São Luiz foi em 2012, portanto foi no final de 2012.

E ninguém soube? Isso é um choque.

Só fiz porque aceitaram todas as condições que coloquei. A principal era que não queria comunicação social, não podia ser anunciado. Houve promotores artísticos que vieram falar connosco e queriam fazer uma tournée pelo país fora e nós dissemos que não.

Em vez de ser os três tenores eram os três irmãos?

Exato. Havia a Kelly Family e nós éramos a Moutinho Family.

Ou os Jackson Brothers. Li numa entrevista sua a história de como os seus pais se conheceram e o Helder falava na hipótese de um dia contarem essa história em espetáculo. Pode contar como foi?

Claro, isso devia ser escrito porque é uma história muito bonita.

Como se chamam os seus pais?

Manuel e Maria Luísa Paiva. O meu pai é nascido e crescido em Lisboa, e na juventude, na fase dos bailaricos, nos anos 1950, ganhou todos os concursos em Lisboa a dançar. Gostava muito de dançar, tipo Fred Astaire. Decidiram ir para a Linha do Estoril para conhecerem miúdas novas. Foi ao Baile dos Carecas, numa coletividade, havia uma banda e o baterista era o Paulo de Carvalho. Acho que foi num sábado à tarde e a minha mãe ia com a minha avó, sempre acompanhada

Talvez também a tia Palmira?

A minha tia Ana, da parte da minha mãe. O meu pai conheceu a minha mãe nesse baile e a partir daí começaram a namorar. Ele metia-se no elétrico até à Cruz Quebrada, pendurado para não pagar bilhete, e depois apanhava o comboio até Santo Amaro. Acabou por casar com ela.

E foi viver para Oeiras? Os três filhos nasceram lá?

Parece aquela série do Conta-me como foi, é mais ou menos a mesma época. O meu pai tinha um alfaiate em Campo de Ourique - ele morava na zona da Lapa, Ele falava-me daqueles pormenores.

Não andavam à pressa como nós hoje?

Até a música era mais lenta.

A música era mais lenta?

Há alguns fados intemporais feitos nessa altura que nós hoje voltamos a cantar, especialmente alguns tradicionais. Nas versões antigas, eram muito mais lentos do que agora.

Há alguma explicação para isso?

É um fenómeno. As pessoas andam mais depressa. O fado podia ter 66 ou 67 versos naquela altura e as pessoas tinham paciência para ouvir até ao fim. Hoje tem de ter quatro quadras.

E contavam uma história?

Havia um trabalho muito interessante dos poetas populares que, lá está, tinham muito mais tempo. Pegavam em quadras e glosavam-nas em quatro décimas e cada uma das décimas finalizava com as frases da própria glosa. Há um fado tradicional, no Fado Mouraria ou em Fado Corrido, que é Um fadista já cansado. E diz: "Um fadista já cansado / quando o passado lembrou / abraçou uma guitarra / não pôde cantar, chorou". Isto é uma quadra e depois ela é glosada em quatro décimas e cada uma destas frases calha no final de cada décima. Tem uma forma de rimar diferente do que é comum na arte das quadras. "Entrou, sentou-se e bebeu / um copo de vinho tinto / enquanto que no recinto / uma guitarra gemeu / tangos, sambas, que sei eu / tudo se ouviu menos fado / e o cantador desolado / acabou por me dizer / só tenho pena de ser / um fadista já cansado". E daí sucessivamente até às últimas. Depois diz: "Criei nome, dei nas vistas / conquistei fama, ovações / mas não a cantar canções / de envergonhar os fadistas / cantei fado nas conquistas / da boémia que passou / sei quem fui, sei que não sou / um cantador presumido / disse-me ele entristecido / quando o passado lembrou". Isto não é fácil, é preciso ter muito tempo e muita paciência.

Já cantou esse fado?

Já, por isso é que sei de cor. Já o gravei, inclusive. Para as pessoas que estão a ouvir é muito fácil mas para fazer uma coisa destas tem que se ter um emprego a entrar às nove da manhã e sair às cinco da tarde.

Que era o que acontecia?

E não havia trânsito. As pessoas saíam do emprego e iam para as tascas ou para as pastelarias conversar umas com as outras. Eram os poetas populares da altura. Esta é do Carlos Conde, mas havia outra do [João] Silva Tavares que era jornalista e fez a Casa da Mariquinhas, por exemplo. O João Linhares Barbosa fez o "É tão bom ser pequenino / ter pai, ter mãe, ter avós". As pessoas sentavam-se e chegava um poeta com o mote: "agora cada um vai fazer". Há várias versões do É tão bom ser pequenino, uma do Linhares Barbosa, que ficou mais conhecida, e outra que creio que é do Silva Tavares ou do Carlos Conde, que acaba: "É tão bom cantar o fado / e ter quem goste de nós". É outra história, diferente.

Nunca fez esse tipo e vida mas cantou em casas de fados desde sempre. Começou no Nonó, no Bairro Alto.

Foi muito bom. E naquela fase melhor ainda porque consegui ouvir e conhecer uma série de fadistas, os mestres, aqueles que nos deixaram a herança. Pudemos perceber como fazem as coisas. Não há escola de fado, não se vai a um sítio onde se ensina a cantar ou a ser fadista. Nas casas de fados, os mais velhos tinham essa "mania". Nós acabávamos de cantar e eles diziam "naquela frase devias pensar em respirar naquele sítio, por causa daquela vírgula, aquilo não está muito bem".

Quem lhe fez isso, por exemplo?

Muitos. O António Rocha, que ainda hoje canta n" O Faia e é um fadista fantástico, tradicional, daqueles puros e duros, fadistas a sério, poeta. Incentivou-me a começar a cantar, ensinou-me muito no início. A Beatriz da Conceição era capaz de me dizer coisas de uma forma mais indireta. Ia-me dando conselhos. Dava-me um livro de poemas para a mão, obrigava-me a ler e depois dizia que não estava a entender nada, que eu tinha que ler muito mais lento. Ela repetia as frases, obrigava-me a repetir e depois olhava para mim de lado, como quem diz "estás a perceber? Tens de pensar nas palavras, em cada uma delas". E depois era ouvir os outros.

Como a Beatriz da Conceição com quem cantou na Taverna do Embuçado?

Eu conheci a Beatriz no Nonó, comecei com ela. Houve uma altura em que precisávamos de ter alguém no Embuçado, porque é muito bonito ter malta nova mas é preciso ter alguém que testemunhe. E a Teresa Siqueiro e o Nuno, que eram os donos, foram buscar a Beatriz.

E também a Celeste Rodrigues?

Conheci a Celeste no Embuçado e depois n" A Viela do Fado.

E cantou na Parreirinha de Alfama com a Argentina Santos.

Mesmo sem eles dizerem nada, só ouvi-los cantar e percebê-los... Ouvi-los cantar o mesmo fado hoje, amanhã e depois, perceber as dificuldades. Cantar bem é saber gerir a voz que se tem. Muitas vezes as pessoas estão melhores da voz, ou menos bem, ou estão constipadas e têm de se defender, ou a casa está mais cheia por qualquer motivo ou estão a fazer mais barulho. E eu via a atitude das pessoas. Aprendi muito com a Beatriz, a atitude de chegar ao sítio onde ia cantar e impor a atenção das pessoas para aquilo que ia fazer. As pessoas diziam: "a Beatriz quando se levanta para ir cantar já é fado", e eu tinha que perceber o que era isso.

E consegue explicar?

Ela estava sentada na mesa a jantar, altamente relaxada, apagavam-se as luzes, ela sabia que tinha de se levantar e mudava completamente. Parecia que era bipolar. Mudava de atitude e entrava calma, "agora vocês têm de olhar para mim porque agora sou eu que vou contar a história".

E atraía mesmo a atenção?

Exatamente. E outras coisas, outras formas. Na Parreirinha, a tia Argentina chamava-me "o polícia". Dizia - "olha, lá vai o polícia".

Porquê?

Porque eu aprendi com a Beatriz e portanto ia com a atitude toda. Vamos imaginar que antes alguém tinha cantado uma marcha popular, era o início da noite e as pessoas estavam a jantar. Estava tudo a fazer barulho, eu aparecia e as pessoas ficavam a olhar umas para as outras, quem é este? Eu dizia aos músicos: Vielas de Alfama, um fado muito lento que se canta muito baixinho. Eles diziam "ninguém vai ouvir, está tudo a fazer barulho". "Vielas de Alfama e mais baixinho ainda". Eu começava a cantar e começava tudo shhhh, fado, fado. E calava-se tudo. Em vez de gritar mais alto para as pessoas me ouvirem, a ideia era cantar mais baixo e as pessoas pensarem "é melhor é a gente calar-se".

E funcionava?

Funcionava. Em todas as casas em que trabalhei raramente foi necessário mandar calar as pessoas. É preciso baixar a luz quase drasticamente para as pessoas perceberem. Como quando estamos numa sala de espetáculos, sentados a conversar com o vizinho do lado, e de repente percebemos que vai acontecer qualquer coisa. Baixam umas luzes, acendem-se outras. Se isto for bem feito, há silêncio, eles percebem. Claro que não estamos a falar de uma sala de 300 pessoas em que estamos a cantar e os empregados a servir ao mesmo tempo. Aí as pessoas não se vão calar porque é música ambiente. Se o serviço parar simplesmente, se houver uma forma de desligar a música ambiente com algum cuidado, se as luzes forem apagadas com cuidado, se se acenderem as velas que têm de se acender, está a acontecer o ritual de começar um espetáculo. Os turistas calam-se. Há quem se queixe de que há mais turistas a ir ao fado do que portugueses, e é verdade. Eles vêm a Lisboa exatamente para fazer turismo cultural também e são muitos. Os portugueses...

...não podem sair todas as noites...

...têm a vida deles. Não é por ser tão caro, porque hoje as casas não são tão caras como eram, e se as pessoas não quiserem jantar podem ir só beber um copo, como se fosse um bar. Ir ao fado todos os dias não é como ir ao café todos os dias antes ou depois da novela. Mesmo assim, existem alguns clientes assíduos que vão quase todos os dias beber um copo. Em vez de irem beber um copo a um bar, onde há música ao vivo ou nem isso, vão à casa de fados do bairro, porque têm lá os amigos.

O Helder tem uma casa de fados, a Maria da Mouraria.

E tenho uma média de 70 por cento de turistas e 30 por cento de portugueses. Os turistas quando lá vão sentem-se portugueses, aquilo não está formatado para o turismo. Eu nem sequer falo com eles em inglês. Não é aquela coisa And now I"m gonna sing the fado. It"s about saudade, não sei quê, portuguese guitar. Não faço nada disso.

Fala em português?

Nem sequer falo. Faço aquilo que se faz numa casa de fados. Sento-me ao pé dos músicos, outras vezes estou encostado na parede e digo - agora canta isto ou canta aquilo. É disso que eles gostam. É a mesma coisa que eu ir para Sevilha e levarem-me a um sítio mais turístico de flamenco e depois a seguir ir para aqueles bairros dos ciganos onde entramos num sítio que ninguém sabe o que é e, quando damos por nós, estamos a ouvir do melhor que há. É o que tem acontecido na minha casa. No outro dia estávamos todos depois de jantar a confraternizar, estava eu, os meus irmãos, o Carlos do Carmo, a Gisela, a Ana Sofia Varela, uma série de fadistas que nem sequer lá cantam. Foram lá. De repente eu saí e quando entrei tinham apagado a luz. O que foi? O teu irmão disse que queria cantar dois fados.

Qual deles?

O Camané. E começou a cantar. A seguir o Carlos do Carmo cantou cinco fados tradicionais, assim de repente. Depois cantou a Gisela, cantou a Ana Sofia, uma série de gente, eu também cantei. Estava lá um grupo de cinco americanos, putos novos, jovens, olharam para mim e disseram: "passou-se aqui qualquer coisa de especial, não foi?" E eu: "Mais ou menos".

Mais ou menos, diz ele, e eu estou de queixo caído.

São aquelas coisas que a gente não sabe. Podemos ir aos fados e isto não acontece. Se calhar num restaurante mais turístico não acontece tanto. Mas eu comecei a cantar numa casa de fados onde isso acontecia quase todas as noites.

O Nonó?

Depois das duas e meia da manhã iam lá parar os fadistas de todo o lado, ou porque estavam nas outras casas que fechavam mais cedo, ou vinham de espetáculos e queriam ir comer qualquer coisa. A malta saía às três e meia ou quatro da manhã. E apareciam clientes que diziam: "Os músicos não se vão embora, vão ficar aqui, se for preciso nós pagamos aos músicos, pagamos aos fadistas". E aconteciam coisas geniais. Cantava um, vamos imaginar que o que era normal era cantar quatro fados, mas em vez de cantar quatro cantava cinco. Mas cantava muito bem, era uma coisa genial, picava o outro. O outro cantava seis. Picava o outro. E eu era o mais novinho, o caloiro, e o Nonó dizia-me - "agora vais tu". Eu? Agora, depois disto? "Tens que ir".

E ia?

Ia. Mas naquela altura o que eu queria mais era estar a ouvir.

Disse uma vez que o Tom Waits é um grande fadista.

Completamente.

Já o conheceu?

Quem me dera conhecer o Tom Waits.

Por que acha que ele é um fadista?

Porque eu acho que um fadista é uma pessoa que consegue envolver as pessoas na sua própria história no momento em que a está a contar, de forma a que as pessoas ficam enternecidas com aquilo, e tem uma série de faculdades para o fazer. Pode ser por causa do timbre, da dicção, da forma como interpreta. Até pode ter essas coisas todas. Mas é o que os espanhóis chamam duende, tem uma magia qualquer que capta as pessoas, mesmo que nem entendam a letra toda, faz-nos viajar. Lá fora, nós cantamos para pessoas que não conhecem uma palavra de português.

E não cantam o fado em inglês.

Exatamente, não fazemos isso. Já vi pessoas à minha frente a chorar. Porque se calhar pegaram naquilo e foram buscar uma emoção delas, porque me viram a cantar e perceberam a minha emoção, ou então eu contei-lhes uma coisa qualquer. Por exemplo: "Vou cantar sobre a saudade, a saudade não tem tradução mas basicamente é um sentimento que reflete a falta de alguma coisa, que nos faz pensar em relação a um tempo, quando nós perdemos uma pessoa, etc. Mas também nos faz lembrar de um momento que tivemos. Vamos imaginar que já estiveram em Lisboa, não têm saudades de Lisboa?" Só digo isto e canto. E depois vejo umas pessoas a chorar e outras a sorrir. No final, quando vou fazer autógrafos para os discos, as pessoas pedem-me para escrever sobre a saudade. Eu estranho e dizem-me: "Tenho uma saudade enorme de Lisboa e sinto-me tão bem com isso". A saudade não tem de ser só uma coisa triste. Pode-se ter saudades de umas férias numa cidade qualquer com a pessoa de que se gosta. Pode ser um sentimento feliz e não triste. Isso é uma aprendizagem.

Estávamos a falar disso a propósito do Tom Waits.

Ele tem a capacidade de contar histórias e mesmo sem entendermos o que ele está a dizer. Há um tema fantástico dele, que eu às vezes canto na brincadeira, o Waltzing Matilda, que é uma coisa genial. Há uma gravação dele no Youtube, com 27 anos a tocar piano. É genial. O que interessa ali não é a voz, e aliás ele tem uma voz fantástica - como é que um homem com uma voz tão rouca consegue dar aquelas notas todas e parece tão fácil? É essa capacidade de interpretação que ele tem. E agora com 70 e tal anos, de repente sai-se com este último teledisco, uma autêntica lição aos rappers. Aquilo é um rap, está ali a contar uma história, não está a cantar, está a falar. Aquilo é muito giro, a forma como ele diz as coisas.

Temos de promover a vinda do Tom Waits a Lisboa em geral e em particular à sua casa de fados.

O mais perto que ele esteve foi em Barcelona, Agora temos cá um mas eu não posso ir ver porque é no mesmo dia em que eu estou a cantar: o Bob Dylan. Também gosto, também é um fadista.

Há muitos fadistas pelo mundo fora?

Neste sentido, sim.