Shakira, o regresso aos palcos depois da doença nas cordas vocais

É já amanhã que Shakira regressa a Lisboa. Cantora esteve em França, antes na Suíça e só termina em novembro na Colômbia.

Ana Carreira
A cantora colombiana no anterior espetáculo em Lisboa© João Girão/Globalimagens

Shakira sai do concerto em êxtase e abraça toda a equipa. Músicos, técnicos, produção. Agarra o intercomunicador e espalha a mensagem nos bastidores da Barclay Arena, em Hamburgo, onde acaba de dar o pontapé de saída da El Dorado World Tour, no início de junho, o primeiro de 55 concertos pela Europa, América e Ásia. O último acontece em novembro na capital do seu país, Bogotá.

Shakira irradia felicidade e sentimento de missão cumprida, nos minutos após ter saído do palco, num frenesim de emoções. "Estava com medo de ter o cabelo no ar no ecrã", pode ouvir-se no vídeo do concerto disponibilizado na sua página de Facebook. Os fãs ainda a chamam à boca do palco, ela responde aos pulos e sorrisos, já de casaco vestido, para não arrefecer. Ainda está afogueada quando entra na carrinha e abraça familiares.

Naquela noite, talvez a primeira da sua vida, Shakira regressa ao pedestal de maior artista latina do planeta, já curada de uma hemorragia nas cordas vocais que a obrigou ao adiamento da digressão. As imagens retiradas da atuação em Hamburgo provam que ali não falhou nada: os êxitos de sempre, o menear de anca mais famoso do mundo e o animal de palco em que se tornou a vedeta colombiana de 41 anos, mãe de dois filhos, casada com a (também) estrela de futebol Gerard Piqué, que por essa hora estava em preparação na Rússia para alinhar pela seleção espanhola.

Ainda que este ano, Shakira não tenha entoado nenhum hino oficial do evento - como aconteceu com Waka Waka, em 2010, no Mundial da África do Sul -, a colombiana volta à vitória na sua própria ribalta, a que lhe serve 60 milhões de álbuns vendidos, uma infinidade de prémios, entre os quais dois Grammys, dez Grammys latinos e World Music Awards, só para nomear alguns. Mantém-se como a única artista da América Latina a ter uma canção número um nos EUA e é dona de vinte singles topo de tabela na última década, dados oficiais da Sony Music Portugal, revelados ao DN.

Amanhã, será a vez de Lisboa matar saudades dela, num regresso muito aguardado a Portugal, depois do último concerto no mesmo local há oito anos. Na bagagem, traz o novo El Dorado, o 11.º álbum da sua carreira, com 13 temas em espanhol, inglês e francês, e com participações de Maluma, Nicky Jam, entre outros. No dia de lançamento, em maio do ano passado, o disco foi número um no iTunes em mais de 30 países. Em parceria com o também cantor colombiano Maluma, Shakira fez história com Chantage, arrecadando mais de dois mil milhões de visualizações no YouTube e primeiro lugar na tabela Billboard Hot Songs da música latina. No alinhamento do concerto, também são esperados os temas icónicos que a catapultaram para o sucesso como Whenever, Wherever, La Tortura, ou recuando mais, Estoy aqui. Canções que, segundo a promotora Ritmos e Blues, serão cantadas por mais de 18 mil pessoas que já têm bilhete para a ver na Altice Arena.

O colosso das redes sociais

São mais de cem milhões a segui-la no Facebook. Só o português Cristiano Ronaldo vai à frente na lista de celebridades com maior número de fãs nas redes sociais. Shakira surge com 105 milhões, segundo os dados oficiais da Popular Jump, empresa portuguesa de social media que acompanha em tempo real os números das estrelas.

Momentos importantes da vida artística e pessoal de Shakira são postados diariamente quer no Facebook quer no Instagram, como as fotografias de Milan e Sasha com a camisola da seleção da Colômbia ou o término do pré-escolar de um deles, onde se vê a cantora e compositora na festa de finalista do filho, ao lado dos pais e sogros, para onde correria, há poucas semanas, antes de atuar em Munique. À mesma hora, o marido, Piqué, digladiava-se contra Portugal, no campeonato do mundo. Também foi na sua página de Facebook que comunicou à comunidade digital planetária, a 27 de dezembro de 2017, que um problema de saúde a faria adiar a El Dorado Tour, a sexta digressão da carreira. Os fãs não arredaram pé enquanto Shakira não recuperou.

"Borboletas na barriga"

Shakira ou Shack, como é também conhecida entre os seus, faz o soundcheck horas antes da atuação na Alemanha. Calças largas e cabelo apanhado, treina passos de dança, enquanto confessa a um dos músicos estar a sentir "borboletas na barriga". Voltar à estrada depois de a voz estar em risco, será, para um cantor, a prova de fogo.

Por essa altura, o nervosismo de Shakira alinha com a fila de milhares de pessoas cá fora, vindos de todo o lado para lhe dar as boas- -vindas. Itália, Polónia, Venezuela, Peru, Argentina, foram alguns dos países gritados para a câmara num coro de vozes e bandeiras que a cantora e compositora colombiana trata de cimentar sempre que se move no globo.

A miúda de Barranquilla percorre continentes com o planeta aos pés. "Obrigada a todos os que estão comigo, isto é incrível e está a acontecer, isto não é apenas para mim, é também para vocês, espero que desfrutem", diz a quem a cerca no caminho até ao palco. O número é grande: cerca de 90 pessoas, 16 camiões e sete autocarros que a acompanham na estrada, de acordo com a promotora. "Parece que é o meu primeiro espetáculo na vida", suspira, enquanto chega à arena alemã. O tremor de casa cheia já se faz ouvir e é, depois, em plena atuação que confessa ao público ter tido medo de não voltar a cantar. Agradece o apoio: "Obrigada por serem meus amigos nos bons e maus momentos, os obstáculos fazem de nós pessoas melhores, e vocês estiveram ao meu lado!", revela ao microfone, torneada por ecrãs gigantescos, luzes e toda a parafernália de cena.

Naquele momento, parece mais pequena e frágil, para, logo depois, tomar as rédeas à performance explosiva habitual, na fusão de sensualidade ao rubro e aquele timbre invulgar que a faz arrecadar prémios, milhões e lugar na lista das mais poderosas do mundo pelas revistas Forbes e Fortune nos últimos anos. No final do espectáculo, munida de seguranças, cumprimenta os que lhe gritam em histeria e lhe tentam tocar. As medidas de segurança têm de ser máximas para evitar tragédias como a de 1996, em Barranquila, quando fãs fanáticos e lotação excessiva do concerto conduziram à morte de três pessoas e muitos feridos.

A menina que gostava de dançar

Foi na cidade colombiana de Barranquilla que Shakira Isabel Mebarak Ripoll nasceu a 2 de fevereiro de 1977. Filha única, o seu nome é árabe e significa "grata". Da mãe, herda a ascendência espanhola e italiana, o pai da cantora já nasceu em Nova Iorque, depois de os pais emigrarem a partir do Líbano.

Desde cedo interessou-se pela música e dança, aos 4 anos apenas escreve o seu primeiro poema Rosa de Cristal. Foi numa viagem ao Médio Oriente que creditou o fascínio pela dança do ventre, ainda muito pequena, algo que viria a ser a sua imagem de marca.

A criança hiperativa já tinha alcunha na escola como a "dama da barriga" devido às performances que fazia para colegas e professores. Não tardou que fosse convidada para eventos locais, e houve quem lhe desse a mão para desbravar o caminho na música.

Ciro Vargas, na altura, presidente da Sony Colombia, gostou do que ouviu quando uma produtora de teatro o convenceu a fazer uma audição à colombiana no lobby de um hotel. Caminho livre para Shakira, não sem antes ter desiludido um diretor de artistas que não gostou do seu timbre de voz. O contrato para gravar três álbuns viria por arrasto, ainda que o sucesso não lhe batesse logo à porta. Com apenas 13 anos, grava Magia, o álbum de estreia que viria também a abrir portas na televisão. Em 1993, ganha o terceiro lugar com uma balada num festival internacional juvenil de música no Chile, onde fazia parte do júri Ricky Martin.

O passaporte para a fama alcançou com Piez Descalzos, que chegaria ao topo das tabelas Billboard em alguns países, vislumbrando um futuro auspicioso para a menina bailarina, conquistando os mercados da América Latina e Estados Unidos. Estavam lançados os dados para o estrelato mundial, onde passou a gravar músicas em inglês com o álbum Laundry Service, em 2001. Segura a entrada no Guinness Book com o single La Tortura, em parceria com Alejandro Sanz, como a música latina mais vendida da história.

Não só de música vive Shakira. Aos 18 anos, fundou a Pés Descalços, a organização que fornece alimentação e educação a cerca de seis mil crianças na Colômbia, recentemente com novos projetos no Haiti e África do Sul. A escola com o mesmo nome foi considerada o melhor colégio público do país. A artista acredita que a educação é o veículo para colmatar as fortes desigualdades e são muitas as campanhas que faz em prol das crianças carentes. As causas que agarra deram-lhe, em 2011, a nomeação de Barack Obama para a Comissão Consultiva sobre Excelência Educacional para Hispânicos. É atualmente embaixadora da Boa Vontade da UNICEF desde 2003.