Paris está a arder nos ecrãs de Toronto

Bertrand Bonello conquista Toronto com Nocturama, o controverso filme com jovens terroristas a atacar Paris. O cineasta mais amado e odiado de França vingou. E o festival ficou a arder.

Rui Pedro Tendinha

O cinema ainda pode incendiar a sociedade? Não foi com esse pensamento que Bertrand Bonello fez Nocturama (cujo título inicial era Paris is Burning- Paris está a Arder), uma história de um ataque terrorista na Paris dos dias de hoje. O cineasta mais amado e odiado de França começou a imaginar esta história de um grupo de jovens que desencadeia um ataque terrorista em várias partes da capital francesa logo em 2010 e só começou a filmar em 2014, antes dos ataques ao Charlie Hebdo e dos atentados de novembro. Premonitório? Alguém diz no filme "isto tinha que acontecer". Claro que é um objeto provocante, mas também é claro que é cinema. Uma fantasia elegíaca onde cabe todo o cinema.

Bonello, que antes tinha feito uma encomenda para a Europa Corp. chamada Saint Laurent, filma o "fim dos tempos". Os jovens de diversas proveniências que atacam a cidade querem uma renascença e uma nova revolução - são inconscientes, são crianças. Tudo é captado como uma experiência musical e aí a responsabilidade é de Bonello, música eletrónica composta pelo próprio e com uma sedução sensual e sexual a fazer lembrar os Justice. Não fica no ouvido do espetador mas fica na pele. Hipsters terroristas que se vestem de Fendi e Lacoste é o que as más línguas vão dizer. E Nocturama terá muitos "haters": anteontem na estreia internacional, o Winter Garden, mítica sala de espetáculos da Baixa de Toronto, não estava cheio e as palmas foram poucas. Houve quem achasse que era perigoso entrar na sessão. O próprio Bonello estava nervoso na sessão de perguntas e respostas a seguir à sessão. Confessou que é um filme "complicado", mas abriu o peito às balas: "não tem nada a ver com o que se passa na realidade, é outra coisa. Fiz um filme de cinema". Um cinema que evoca diretamente John Carpenter e os filmes de ação.

O realizador falou também em "abstração e realismo", referindo que na primeira parte do filme, quase sem diálogos, queria um efeito de ballet sem pensar em aspetos narrativos. "Os motivos dos atentados estão fora de campo", também disse, reforçando que não quis fazer cinema com declarações políticas. O que se sente é que a atração foi uma atração pela sensualidade - filmar os corpos dos jovens em oposição ao luxo de uma sociedade incorporada num armazém de marcas caras. Filmar esta juventude parisiense. E Bonello, filme o que filme, tem de convocar sensualidade.

Ao mesmo tempo, todo o filme é um enorme ensaio sobre o processo de construção temporal no cinema. O tempo do cinema como precisão provocadora e em sintonia com o ritmo musical, seja Shirley Bassey, seja a agitação tecno da própria música de Bonello, que antes do cinema foi músico (nas longas sequências do metro o ritmo coloca-nos perto das personagens).

Ainda no fim da sessão, era o próprio realizador a falar de Carpenter e também dos filmes de ação. "Interessa-me muito jogar com os géneros. Atualmente há cinema de género mas é feito como publicidade, como anúncio. Não, o que me interessava era ir a fundo do género, voltar às coisas sérias", disse.

A sua noite não é terna nem bate na rima de Glamorama, o clássico romance de 1998 de Bret Easton Ellis. Tem ficção-científica, manequins de cinema de terror e uma sugestão de uma nova raça de thriller. Está aqui mais um dos filmes imensos de um festival com congestionamento de grande cinema.

Em Portugal, Nocturama já tem distribuição garantida. Para já, segue para competição para o festival de San Sebastian. Agora percebe-se que Cannes o recusou porque em França seria uma bomba relógio demasiado incómoda em termos de segurança. Não há volta a dar, Nocturama será sempre sinal de controvérsia. Culpa não tem é de ser um filme tremendo. Abençoado Bonello!

Em Toronto