"Não vamos ter uma música como a do Salvador todos os anos"

Há 17 anos que a final do festival não saía de Lisboa. Cidade-Berço divide-se entre entusiasmo e segurança para o grande evento.

Ana Bela FerreiraLina Santos
Os cubos publicitários são um dos poucos sinais a denunciar a realização da final do Festival da Canção em Guimarães | foto Orlando Almeida
 | foto Orlando Almeida / Global Imagens

Da conversa de café até ao presidente da câmara, a segurança nas palavras é a mesma: Guimarães está mais do que habituada e preparada para receber grandes espetáculos. Amanhã à noite não será exceção. O Multiusos é o palco escolhido para acolher a competição que escolhe o sucessor de Salvador Sobral. Um vencedor inédito da Eurovisão e que, nas palavras do presidente da Câmara de Guimarães, Domingos Bragança, "trouxe a juventude para o Festival da Canção". Tal como é visível pelo entusiasmo dos alunos do 8.º ano do Conservatório da Sociedade Musical de Guimarães.

"Gosto da Cláudia Pascoal" ou "gostava do Diogo Piçarra", são alguns dos comentários dos estudantes de 13 e 14 anos. Todos vão tentar acompanhar o programa pela televisão - "os bilhetes já estão esgotados" -, mas só até determinada hora, porque no dia seguinte há escola. "Depois vemos o resto na segunda-feira, já no ano passado fiz assim", justifica Mónica Camelo. A aluna conta ainda que tentou aprender a tocar a música Amar pelos Dois no ano passado, inspirada pelo irmão que também toca piano, mas "estava a meio do período e tinha as músicas do programa [escolar] para aprender, acabei por desistir". "Até porque a música é difícil."

Longe de um olhar como músico, José Rodrigues Oliveira é mais um treinador de café das cantigas. Aos 75 anos, o vimaranense deixa logo claro que viu desde a primeira hora que íamos ganhar a Eurovisão. Neste ano não está tão confiante.

E pode ter razões para isso. O próprio diretor pedagógico do Conservatório, Domingos Castro, alerta: "Não vamos ter uma música como a do Salvador todos os anos." Até porque, defende o professor e clarinetista, "o festival também tem de ser popular e a música do ano passado era claramente anticoncurso, o que aproximou os músicos do festival".

A 48 horas do espetáculo, a cidade de Guimarães está discretamente a preparar-se. Se não fosse um outdoor numa das entradas da cidade e alguns cubos publicitários a anunciar o evento, ninguém diria que o Festival da Canção veio até à Cidade-Berço. Mesmo junto ao Multiusos, a denúncia de que aqui se passa alguma coisa só é feita pela presença de camiões, carrinhas e carros da estação pública. Entre jornalistas, repórteres fotográficos e de imagem, 82 pessoas vão cobrir o festival. Lá fora a chuva cai, e dentro do pavilhão, ouve-se a sequência das canções. Lili e Armando Teixeira deixam o edifício cerca das 17.00, após o ensaio de sexta-feira. Ouve-se Catarina Miranda, depois Joana Barra Vaz... Hoje há ensaio geral e amanhã também.

A discrição na decoração da cidade e do próprio exterior do Multiusos contrasta com o entusiasmo de quem aqui vive. "Somos uma terra simpática, acolhedora. Um evento destes só vem dar prestígio à cidade", defende José Rodrigues Oliveira, com a concordância dos amigos do café Milenário.

Dia de bola e de festival

Para os vimaranenses, domingo vai ser um dia em cheio. Joga o clube da terra - o Vitória de Guimarães -, 45 minutos antes de a final do Festival da Canção começar. "Para mim foi mal escolhida a data [do jogo]", afirma José Rodrigues Oliveira. O que vale é que "nem toda a gente gosta de futebol", acrescenta José Almeida, de 67 anos, outro dos elementos deste grupo de amigos que todos os dias se reúne no café da Praça do Toural, no centro da cidade.

Apesar desta opinião, todos vão estar, primeiro, atentos ao jogo - que "marca a estreia do José Peseiro como treinador" - e só depois vão voltar os ouvidos para as melodias do Multiusos.

José Oliveira, reformado e ex-emigrante em França, até nem vai precisar de se esforçar muito: "O pavilhão é à minha beira, até ouço as músicas da varanda."

Fora do jogo e totalmente focado no Multiusos vai estar André Fernandes. Só ainda não sabe em que funções: "Posso ser bombeiro ou dar apoio de sala. Onde houver uma maneira honesta de ganhar dinheiro estou lá", refere o funcionário da empresa municipal Vitrus, que fiscaliza o estacionamento na cidade.

Sem opinião ainda sobre as músicas deste ano, não deixa de comentar o vencedor do ano passado. "Neste ano vai ser diferente devido ao que aconteceu no ano passado. Notava-se que a música fazia um clique", diz.

A mesma opinião têm os frequentadores do café Milenário. "Daquilo que ouvi acho que neste ano não temos capacidade para ir lá", aponta José Almeida. "Praticamente nenhuma tem comparação com a do Salvador", acrescenta José Oliveira. Carlos Silva, outro dos amigos à mesa, ainda não ouviu as canções desta final, mas admite que seja difícil igualar a prestação portuguesa de 2017. "Também agora somos mais exigentes", reconhece.

Ainda que com alguns percalços à mistura, como foi a desistência de Diogo Piçarra. Preferida do júri e do público na segunda semifinal, Canção do Fim revelou-se idêntica a um tema dos anos 1970 de Bob Cull, Open Your Eyes. Mesmo para quem não viu o Festival da Canção, este é assunto. Lanchando no Milenário, quatro estudantes do 12.º ano em visita de estudo à cidade lamentam que o músico tenha ficado fora do concurso. "Ainda por cima nós viemos do Algarve e ele é de Faro." "Era bom que isso que não tivesse acontecido, mas os vimaranenses vão estar concentrados no festival e nos finalistas", considera o presidente da câmara. O cantor será substituído na final por Susana Travassos, interpretando o tema Mensageira, de Aline Frazão.

Amanhã, o vencedor será encontrado através do somatório da pontuação do júri regional (um elemento por capital de distrito) e o televoto. As votações já estão a decorrer. Ao contrário das semifinais, em caso de empate a última palavra será do público. Mas nem sempre o favorito do público é a canção que representa Portugal na Eurovisão. Foi o caso, curiosamente, de Salvador Sobral. Amar pelos Dois foi sempre a preferida do júri da RTP, mas foi a terceira preferida do público na semifinal (8 pontos) e a segunda no televoto na final (10 pontos).

A apresentação da final do Festival da Canção está entregue a Filomena Cautela, que também será uma das apresentadoras da Eurovisão (com Daniela Ruah, Catarina Furtado e Sílvia Alberto), e Pedro Fernandes. Inês Lopes Gonçalves estará na green room, a sala onde se reúnem cantores e compositores.

O espetáculo começa às 21.00 e o vencedor só será conhecido à 01.00. Depois das atuações dos 14 concorrentes, a RTP preparou homenagens às Doce, vencedoras em 1982, com arranjos do músico Moullinex, e a Simone de Oliveira, a partir do trabalho de Nuno Feist.

Há 17 anos que o concurso que escolhe a representante da RTP na Eurovisão não saía de Lisboa. Em 54 anos de história, passou pelo Porto (1983), Funchal (1987), Évora (1989), Casino Estoril (1990) e Santa Maria da Feira (2001).

Investimento de 80 mil euros

Foi por Portugal ter ganhado a Eurovisão e, por isso, receber a edição deste ano, que Guimarães acabou palco da final do Festival da Canção. O autarca local foi dos primeiros a chegar-se à frente na intenção de receber o evento europeu. "O Festival da Canção é um grande evento e Guimarães sente-se bem de o receber, mas não deixo de dizer que a Eurovisão também podia ser feita aqui." Ainda assim, Domingos Bragança está confiante nas mais-valias que a final nacional pode trazer para a cidade. Em contrapartida, descentralizar o concurso traz custos à RTP (organizadora) que a autarquia está disposta a ajudar a colmatar. "Damos algum apoio para esta organização. Estamos disponíveis para ajudar na logística e podemos chegar a um investimento da autarquia na ordem dos 70 a 80 mil euros", resume.

Uma aposta com olho no retorno futuro. "Acreditamos que vai trazer notoriedade positiva e isso nunca é de mais", diz, recordando os efeitos da Capital Europeia da Cultura, em 2012, uma memória que se mantém muito viva pela cidade.

É também por essa organização e manifestações culturais anteriores que alguns dos agentes culturais sublinham que esta organização não é uma surpresa ou divorciada de tudo o que a cidade tem feito.

Nuno Faria, diretor do Centro Internacional de Artes José de Guimarães (CIAJG), recebe o DN no hall do museu. Admite que Guimarães fica a ganhar sendo anfitrião deste espetáculo televisivo, mas prefere pôr a questão ao contrário. "Se Guimarães recebe o Festival da Canção é porque tem condições objetivas e subjetivas para isso. É o trabalho aturado de vários anos, tornando-se um dos polos culturais mais importantes, com uma rede de programação consistente e diversificada, que culminou na Capital Europeia da Cultura", explica, recuando a um tempo anterior a 2012 e que, situa, começa com a renovação do arquiteto Fernando Távora no centro histórico da cidade, entre 1985 e 1996. "E depois houve um trabalho dedicado à cultura contemporânea que foi exemplar." Fala do Centro Cultural de Vila Flor, com mais de uma década de vida. "Rapidamente se tornou um equipamento central, com programação própria, levando a que o Estado português lançasse o convite a Guimarães para fazer a candidatura."

Se Guimarães recebe o Festival da Canção é porque tem condições objetivas e subjetivas para isso

Seis anos volvidos, os vidros das lojas ainda ostentam o coração azul que foi símbolo deste evento que tocou as artes visuais e performativas, trazendo artistas de toda a Europa à cidade que se chama de berço da nação. Foi por essa época que o antigo mercado municipal se converteu em Plataforma das Artes, um projeto do gabinete Pitágoras, que alberga com discrição mas volume o CIAJG. "É um equipamento bastante distintivo no país, com uma escala até maior do que seria suposto numa cidade média", refere. O concelho tinha pouco mais de 158124 mil habitantes, apuraram os Censos de 2011.

"É muito interessante que estes eventos aconteçam aqui", reconhece Nuno Faria, 46 anos. "Acho este formato de festival muito interessante, dando o primado aos compositores." Seria a resposta de Nuno diferente se o Festival da Canção fosse aquele que vimos nos primeiros dez anos deste século? "Certamente seria." "O que a RTP tem feito, o que Nuno Artur Silva, que entretanto saiu, fez é importante. A minha geração foi vendo uma degradação cada vez maior do Festival da Canção, já nem o víamos. Começou a degradar-se e já era motivo de gozo", reflete. "E, não por acaso, ganhámos com um formato que foi renobilitado."

O centro que dirige recebe entre "15 e 16 mil visitantes" anualmente. "Pensamos que vai dar o salto neste ano", diz. "É relativamente jovem, não faz concessões, apostamos numa programação que possa elevar o nível de exigência, que não vai ao encontro de uma expectativa mais popular. Um equipamento desta natureza tem a obrigação de despertar nas pessoas o interesse de estudar, a curiosidade de ver aquilo que para elas é menos conhecido. Com o serviço educativo, o que estamos a fazer e os anos, vai sendo menos estranho o trabalho que fazemos." Há duas semanas iniciaram um novo ciclo, refrescando a exposição permanente de peças das coleções de José Guimarães (os seus trabalhos, arte africana, arte chinesa e arte pré-colombiana) e inaugurando uma mostra do artista sueco Christian Andersson.

A programação do CIAJG fica nos antípodas da que o municipal Multiusos oferece à população. "Outra âncora cultural", chama-lhe Nuno Faria. "O que só fala da diversidade de oferta cultural", frisa. A sala que nesta semana recebe o festival anuncia na fachada os concertos de Matias Damásio e Rui Veloso.

Diversidade que muitas vezes é aproveitada por quem pisa o maior palco do Norte do país. Foi precisamente isso que aconteceu com a dupla Lili e Armando Teixeira, que o DN encontrou por acaso no CIAJG. A intérprete e o compositor de O Voo das Cegonhas aproveitaram a descentralização do festival para "conhecer o espólio de José de Guimarães".

Pouco antes da hora de almoço de sexta-feira, os dois entraram no museu, como dois turistas anónimos. "Viemos mais cedo e aproveitámos para passear e conhecer a cidade, que é muito agradável", refere a cantora.

Os finalistas estão em Guimarães desde quinta-feira, quando houve o primeiro ensaio no Multiusos. Nos dois primeiros dias houve mais tempo para passear - os ensaios foram só à tarde -, mas Lili e Armando Teixeira chegaram em cima da hora do ensaio, na quinta-feira, e só ontem puderam passear. É também uma forma de descontrair e tirar a cabeça da competição. "Pode andar-se pela cidade que é espetacular e aproveitamos a cultura." E nem o frio e a chuva foram obstáculos ao passeio. A noite de domingo será também molhada, prevê a meteorologia.

Também quem ensina música na cidade da atriz e cantora Sofia Escobar (apenas para citar uma das artistas da terra) acredita que a renovação do festival veio aproximar os mais novos do evento. Mesmo que num espaço onde se aprende música clássica e erudita, não se perca muito tempo a analisar o que acontece no Festival da Canção - "são dois mundos que nem sempre se tocam", clarifica Domingos Castro -, nem quando saímos vencedores na Europa. Para logo acrescentar ele próprio uma reflexão sobre o concurso de 2017 e mesmo deste ano: "Viu-se o regresso aos instrumentos acústicos. Amar pelos Dois tem um quarteto de cordas", lembra. "É uma mudança, claramente." E, olhando mais de perto, Domingos Castro tem a certeza de que "há dois ou três anos não havia ligação [ao festival] e é muito interessante" essa mudança.

"Se conseguirmos ter música como no ano passado vai inspirar de certeza mais gente", diz o também clarinetista. Admite que muitas vezes os seus alunos acabam por levar a aprendizagem mais clássica para outros campos da música dita mais popular.

Na Sociedade Musical de Guimarães cerca de 70 alunos terminam o curso equivalente ao 9.º ano. Dez, "se forem bons", completam o secundário.

Entre Guimarães e as instalações de Vieira do Minho, o conservatório tem "à volta de 500 alunos" dos 3 aos 18 anos, e procura formar "não apenas bons músicos, mas também bons espectadores de cultura".

À altura da cidade que o presidente da câmara define como "cheia de cultura". Domingos Bragança espera ainda que a cidade recolha os frutos de receber um espetáculo televisivo que neste ano "ganhou mais interesse".

[O número de habitantes do município de Guimarães foi corrigido]