Museu de Arte Antiga ganha um Sequeira, comprado por muitos para usufruto de todos

Três dias antes do fim do prazo, o MNAA conseguiu os 600 mil euros necessários para conseguir adquirir o quadro "A Adoração dos Magos" do pintor Domingos Sequeira. Será a estrela do dia dos museus, 21 de maio.

Lina Santos
Ministro da Cultura marcou presença© Gustavo Bom/Global Imagens

Clara de Sousa, dos serviços administrativos do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), foi a primeira a ver que a conta bancária tinha ultrapassado os 600 mil euros - os números que permitem à instituição adquirir o quadro A Adoração dos Magos, de Domingos Sequeira, cumprindo o que se propuseram quando há seis meses lançaram a campanha de angariação de fundos.

"Escola de cidadania", afirmou António Filipe Pimentel, diretor do MNAA sobre este movimento, hoje à tarde no MNAA, em conferência de imprensa para anunciar que o quadro ficará exposto até sábado, dia em que oficialmente terminava a campanha, será agora alvo de uma pequena intervenção de conservação e poderá ser visto de novo no Dia dos Museus, 21 de maio - o dia da festa. "Vamos tirar uma fotografia no Jardim do Museu com todas as pessoas que contribuíram em dinheiro e em espírito para a campanha".

Com a abertura do renovado terceiro piso, nos primeiros dias de julho, o quadro passa a fazer parte da exposição permanente. O Presidente da República estará presente.

Marcelo Rebelo de Sousa visitou o museu a 6 de abril como Chefe de Estado e contribuiu a título privado com 150 euros. "O Presidente da República deu a exemplaridade do seu gesto", notou António Filipe Pimentel. "Deu aquilo que qualquer pessoa pode dar, com a preocupação de não ofender". Na ocasião, Marcelo afirmou ter ponderado sobre a quantia a dar e que "existiam outras maneiras de contribuir". Ontem, logo que a notícia se soube, telefonou ao diretor felicitando-o.
Foram seis meses de campanha (e um ano de preparação), iniciados a 27 de outubro e com mais trabalho a partir do inicio do ano, segundo António Filipe Pimentel. "Esta campanha encostou a consciência das pessoas à parede". O diretor do museu diz que "era ponto de honra que o Estado não entrasse". "Era um espaço de cidadania". "Cinco euros que fossem desautorizaria a campanha", diz o diretor, acrescentando: "Somos todos mecenas".
Os últimos contributos vieram da Fundação Belmiro de Azevedo, com 10 mil euros, e 35 mil da Fundação Casa de Bragança (presidida por Marcelo Rebelo de Sousa até à eleição para o cargo de Presidente da República). Estes últimos perfizeram e ultrapassaram a quantia necessária para a aquisição da tela, um retângulo pintado a óleo com 100 x 140 centímetros, que Domingos Sequeira pintou em Roma.

Esta campanha de crowdfunding é uma parceria do museu, do jornal Público, da Fuel e dos Amigos do MNAA, que são os proprietários legais do quadro e farão uma doação da tela ao museu. A associação fez 104 anos ontem e assinalou-os com a entrega do seu contributo monetário, 5 mil euros.

Ao todo, a conta bancária "Vamos Pôr o Sequeira no Lugar Certo" tem hoje perto de 622 mil euros. Falta contabilizar 30 mil pixéis de reservas que foram feitas, mas que ainda só está no saldo contabilístico. As contas finais serão auditadas e divulgadas.

O remanescente,assegura António Filipe Pimentel, será usado, "como prevê o regulamento, na aquisição de uma obra para o museu que se considere relevante". "Nem que seja um euro", afirma.
O diretor do museu quer replicar o estilo da campanha para a aquisição de novas obras, mas não já. "Temos de esperar pela obra lógica para voltar a esta campanha", sublinhou.

O museu reúne o maior acervo de obras de Domingos Sequeira: 45 pinturas, "nem todas acabadas", segundo o diretor-adjunto do museu, José Alberto Seabra de Carvalho, e cerca de 760 desenhos.

O ministro da Cultura também esteve na conferência de imprensa. "Ganhámos hoje um Sequeira", disse Luís Filipe Castro Mendes, salientando a existência de "uma sociedade muito mais madura". "É preciso dar-lhe os estímulos certos". "Dar corpo a estes movimentos de participação dos cidadãos é uma das linhas de força que este Governo tem procurado", afirmou.