"É a minha matriz. Não dá para deixar de ser fadista"

Marco Rodrigues lança o seu quinto álbum na sexta-feira, e vai cantá-lo no sábado, no palco principal do festival Caixa Alfama, em Lisboa.

Mariana Pereira
Marco Rodrigues© Direitos reservados

Dedica o álbum ao filho, Bernardo, de um ano e meio. Diz que é por sua causa que Copo Meio Cheio é o que é: um disco feliz. Marco Rodrigues lança o seu quinto álbum na sexta-feira, e vai cantá-lo no sábado, no palco principal do festival Caixa Alfama, em Lisboa. Mesmo que este não seja um disco de fado. Mas esse também subirá ao palco na sua voz. Depois da entrevista, conta que é um festival imperdível, e que para eles, gente do fado, é como estar em casa, que é como quem diz numa grande casa de fados.

Por que puxa a canção Copo Meio Cheio para título do álbum? É uma expressão que atribuímos aos otimistas.

O título foi escolhido depois de o álbum estar todo gravado e fechado. Dá a intenção de uma coisa otimista, e acho que este disco é exatamente isso. Ao contrário dos outros que eram assumidamente fado, este não é um disco de fado, tem três fados tradicionais. Quis desafiar-me a mim mesmo, e acho que estou na altura ideal da minha vida para fazer uma coisa desse género.

Porquê?

Porque sim, porque fui pai, o maior desejo da minha vida foi concretizado. Estou numa fase muito boa, muito positiva, e esse disco transmite isso.

É um fadista quem canta estes temas?

Exatamente. Achei interessante arriscar, mas ao mesmo tempo perceber sonoridades diferentes. Nota-se na abordagem, por exemplo, dos instrumentos de fado nos temas mais pop: muitas vezes nem parece a guitarra portuguesa. É uma música um mais pop, diferente e sem tantas regras como tem o fado.

Só se pode esquecer regras quando se as domina muito bem?

Sem dúvida. É curioso que eu pedi ao Carlão, à Luísa Sobral e à Capicua para escreverem para os três fados tradicionais, porque ia obrigá-los a ter uma série de regras e a cumprir uma série de características que a própria música tem. Por exemplo, recordo-me de quando falei com o Carlão ele ter dito: "Tu és maluco, meu, eu nunca escrevi fado. E que fado é que é?" E eu disse: "O que tenho na cabeça é o Fado Pena." Disse-lhe todas as características literárias, o tipo de rima, a métrica, e cantei-lhe a melodia do fado. Disse-lhe que tinha um arranjo assim mais gingão. E ele arranjou uma história fantástica de um senhor de bairro à antiga que está a tentar ajustar-se aos tempos modernos. Com a Capicua foi interessantíssimo também porque eu não a conhecia, e ela disse que gostava muito de escrever para mim, mas só escrevia se me conhecesse. Então foi ter comigo à Adega Machado [onde canto].

Que margem de manobra tem quem canta um tema que não é seu?

Sabes qual é a grande vantagem? É que eu sou fadista, e um fadista como intérprete tem muitos argumentos a nível técnico. Existem [no fado] muito mais dinâmicas, paragens, tentar que o vibrato seja na altura certa, a dicção é muito mais aprofundada... Será muito mais fácil um fadista querer interpretar outro tipo de música do que outro tipo de músico querer ser um fadista.

Como é que vê o fenómeno de os fadistas da fila da frente estarem a fazer outras coisas fora do fado tradicional ou mesmo do fado?

Sinto que continua a haver o público só para o fado, e também o público que continua a gostar dos artistas mas também os quer ouvir noutro tipo de ambiente musical. E hoje os músicos gostam de interagir uns com os outros, antes não se misturavam tanto. Acho que não faz sentido eu ir fazer um concerto de fado puro e duro num arraial em Cinfães, quando as pessoas querem é divertir-se, bater palmas, extravasar. Como neste disco há temas que não faz sentido nenhum cantar na casa de fados. Este disco vai ser apresentado no Caixa Alfama e eu não podia apresentar só os temas compostos por pessoas que não têm anda que ver com o fado, tinha de fazer um concerto também de fado. Começo com fado puro, depois a meio apresento o novo disco, e depois no final vou acabar com fado outra vez, porque as pessoas estão ali no maior festival de fado. Tenho perfeita noção de onde o fado vive, quais são as regras dele, e faço-o há metade dos anos que tenho de vida, há 17.

É fácil mudar o chip?

Quando se é intérprete de fado é-se sempre intérprete de fado. Quando fiz o dueto com a Maria Gadú, estava a cantar uma valsa composta por uma brasileira. Aquilo não é fado, mas continuo a ser um fadista a cantá-lo. Vai sempre haver fado na minha interpretação, é a minha matriz. Não dá para deixar de ser fadista, mesmo cantando temas que não são fado.

Como a Amália fez...

Ouvir Camané a cantar Humanos soa a fado, não é? Ninguém é capaz de dizer que a Amália não foi fadista, ninguém, mas também ninguém é capaz de dizer que a Amália só cantou fado. Foi das maiores cantoras de música napolitana e de flamenco, assim considerada por eles, cantou jazz, folclore, e nunca deixou de ser fadista. Não tentei ser cantor pop, porque há cantores de pop incríveis, e isso não era o que queria mas um disco que me desafiasse.

Que outra linha condutora existe neste álbum, além de ser um álbum feliz? É um disco muito realista, há amores que não resultam...

Mas o amor é aquele tipo de coisa que é quase incontornável. Não me lembro de um disco que não cante o amor pelo menos numa música, seja de forma caricata ou sentida. Sinto o ambiente musical deste disco, a forma como foi composto. Lembro-me que cheguei a beira do Pedro da Silva Martins num jantar e disse: "Agora vou dar-te o mote. Vais fazer um tema que fale sobre o facto de ter sido pai, mas não quero que fales do amor incondicional, porque isso está muito cantado. Quero que me fales das partes caricatas, da mudança na tua vida. De antes dormires a noite toda e depois levantares-te e teres uma cena no chão e pisares aquilo, e ele a berrar, e a fralda, a baba, o ranho." E ele fez uma letra genial.