Maquinetas revelam presépios que parecem pinturas em 3D

A partir de hoje o Museu tem mais uma sala em que mostra a história dos presépios portugueses desde o séc. XVI ao XIX

Marina Marques
Presépio do Palácio das Necessidades© Leonardo Negrão/Global Imagens

"Quando fomos à quinta [da Carnota, perto de Alenquer] estavam lá bocados numa vitrina! Nem queríamos acreditar que ainda havia pedaços do presépio da Infanta D. Maria. Uma coisa extraordinária!" O discurso entusiasmado é de Anísio Franco ao contar a recente descoberta do mais antigo presépio português conhecido, que a partir de hoje poderá ser visto na nova sala do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA).

"Por documentos, sabíamos que tinha sido encomendado pela infanta D. Maria, filha de D. Manuel I, em 1569, na altura em que sai de Lisboa para fugir à grande peste e vai para Alenquer. Aí faz uma romaria juntamente com a rainha D. Catarina ao convento franciscano de Santa Catarina da Carnota, perto de Alenquer. Mas não sabíamos que ainda existia", contextualiza Maria João Vilhena, também ela conservadora do museu.

É precisamente com esses fragmentos do único presépio quinhentista conhecido, e agora pela primeira vez mostrado ao público, que se inicia a viagem pela história da escultura presepista em Portugal, desde o século XVI até aos grandiosos conjuntos barrocos encomendados para conventos ou palácios. Uma história contada de forma cronológica, seguindo-se duas figuras de anjos cantantes, que pertenciam ao presépio entretanto desmembrado do Mosteiro de Alcobaça (final do século XVII).

Surgem depois algumas figuras isoladas, começando por umas cavalgadas de António Ferreira, que ficou conhecido como o Ferreirinha de Chelas, "bem pequeninas, porque deveriam estar lá em cima no presépio", assinala Anísio Franco, indicando ali ao lado o enorme Presépio das Necessidades no qual surgem essas mesmas cavalgadas, no topo da estrutura.

Estrutura em montão

Aliás, esta é uma das características específicas dos presépios portugueses: "Muito diferente do presépio napolitano - cujas figuras são vestidas com roupa mesmo e não são moldadas inteiras, estendendo-se numa área imensa - o nosso presépio é formado por figuras inteiras, de barro policromado, e montado em torrão, ou seja uma estrutura feita em madeira e cortiça a que se juntam elementos vegetais para dar um maior realismo", explica Anísio Franco. "E", prosseguem, "como é montado em torrão, é feito num morro, vai crescendo - para que isto seja feito, as figuras acompanham a perspetiva: as primeiras são as maiores, as segundas um pouco mais pequenas e por aí fora: como se fosse uma pintura em 3D". Tudo isto dentro de armários, ou maquinetas como são chamados no século XVIII, remetendo para a revelação de um mundo maravilhoso que só era mostrado na época natalícia.

E é isso que se pode ver no Presépio das Necessidades, que dentro do seu armário (hoje no Convento de Mafra), sobreviveu ao terramoto de 1755. "Onde se veem as luzes eram colocadas lamparinas ou velas", refere Anísio, conclusão a que chegaram quando foi feito o restauro e encontrados vestígios de cera. A cena central deste presépio vai ser uma constante nos presépios nacionais, com a natividade e os anjos cantores ladeados por pastores com ovelhas e pastores foliões. Mas também surgem outros episódios: uma cena de taberna com jogadores de cartas, uma extensa comitiva dos Reis Magos com os batedores à frente, as mulheres e os filhos dos Reis Magos ao centro e eles a encerrarem o cortejo.

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