Ian McEwan bem servido por Emma Thompson

Dose dupla do escritor Ian McEwan no Festival Internacional de Cinema de Toronto (TIFF). Adaptações de The Children Act e On Chesil Beach dão que falar num festival com alguns percalços.

Rui Pedro Tendinha
A atriz Emma Thompson© DR

Biopics, histórias verdadeiras e documentários com figuras pop. No Festival Internacional de Cinema de Toronto (TIFF) essas são as marcas mais fortes neste ano, mas muito curioso é perceber que as adaptações literárias têm também muita saída, que o diga Ian McEwan. O escritor inglês teve adaptados dois dos seus romances para o cinema e ambos estão em Toronto. On Chesil Beach/Na Praia, é dirigido por Dominic Cooke e The Children Act/A Balada de Adam Henry, por Richard Eyre.

O primeiro é uma adaptação bem-comportada que não está a criar entusiasmos fervorosos nos corredores dos lóbis dos prémios, enquanto o segundo é um triunfo instantâneo. The Children Act é mais uma prova de que a prosa de McEwan proporciona geralmente bom cinema. O filme é alavancado por uma interpretação sóbria e poderosa de Emma Thompson, uma juíza que enfrenta um dilema moral quando tem de decidir sobre um caso em que uma família de Testemunhas de Jeová recusa que o seu filho seja tratado através de transfusão de sangue. Um caso mediático que surge num momento da sua vida muito delicada, precisamente na altura em que o seu casamento se está a desmoronar.

Richard Eyre, o realizador, habituado à escrita de McEwan (realizou A Verdade dos Factos, em 1983, um dos primeiros argumentos do escritor), apanha-nos emocionalmente de surpresa. Ficamos muito próximos dos dilemas desta juíza, algures perdida entre os rigores da lei e as batidas do seu coração. Eyre, amigo pessoal de McEwan, consegue ainda outra proeza: deixa que a especialidade do escritor, o sentimento de descrição dos locais e a forma como os mesmos afetam as personagens, tome conta de tudo. Aquela sala de tribunal e o cerimonial da tradição jurídica britânica são elementos trabalhados com minúcia. Nada naquele teatro de muitos protocolos parece estar a mais e joga muitíssimo bem com a forma como somos convidados a espreitar a intimidade da infelicidade de uma mulher.

Não fosse um último terço algo piegas, teríamos um filme de outra ambição, mas The Children Act é uma pujante interrogação ética sobre o bem e o mal. É sempre ótimo quando o cinema tenta ser um espetáculo sobre as nossas noções de âmbito religioso. A essência de McEwan está intacta! E a boa notícia é que já está comprado para Portugal.

Na azáfama das galas e das festas, o festival tem sido marcado por atrasos desconcertantes. Se antes Toronto era um festival conhecido pela sua organização meticulosa, neste ano parece predominar uma certa balbúrdia. Ontem, Mary Shelley, o filme de Haifaa Al-Mansour, começou com algum atraso, e a sessão de imprensa de A Montanha entre Nós, de Hany-Abu Assad, com a atriz Kate Winslet, foi anulada.

Já agora, de referir que a vida da escritora de Frankenstein deu origem a uma das piores xaropadas vistas em muitos anos no TIFF. A realizadora Haifaa Al-Mansour fez um biopic previsível e infantil sobre uma escritora que lutou pelo direito à emancipação feminina no século XIX. A única luz do filme é uma buliçosa Elle Fanning, que dá alguma dignidade à coisa. Cinema televisivo do pior...