Graça Morais: "A pintura não pode ficar indiferente às situações dramáticas. A grande arte não é decorativa"

A Fundação Champalimaud acolhe uma grande exposição de Graça Morais, intitulada Ressonâncias: da voz e dos ecos. Uma centena de obras de várias fases da vida da artista transmontana, algumas recentíssimas, marcadas pela situação dos refugiados e até pela eleição de Donald Trump

Ana Sousa Dias
© Orlando Almeida/Global Imagens

A pintora Graça Morais nasceu em 1948 no Vieiro, aldeia perto de Freixiel, concelho de Vila Flor, em Trás-os-Montes. É uma mulher de Trás os Montes que gosta de ser de Trás os Montes e do universo em que cresceu. O pretexto para esta conversa é a exposição Ressonâncias: da voz e dos ecos, que fica até ao dia 25 de abril na Fundação Champalimaud, uma instituição onde não é habitual haver exposições desta dimensão. São 100 quadros, alguns inéditos e pintados muito recentemente, outros já mostrados no ano passado na Galeria Ratton, mas o núcleo mais numeroso é a coleção de José Pedro Paço d"Arcos. A pintora mostra-se preocupada com a situação social e política e diz isso através da sua arte. Que, no fim de contas, é o que fica para a história.

Tem passado por diferentes fases, diferentes temas. Desta vez, o que traz?

Esta exposição foi uma iniciativa do José Pedro Paço d"Arcos, o meu maior colecionador. Ele desafiou a presidência da Fundação Champalimaud a receber estas obras que foram expostas no Centro de Arte Contemporânea Graça Morais, em Bragança. Ele achou que era interessante expor em Lisboa estas obras, em vez de voltarem para as paredes dos ministérios onde costuma emprestá-las. Teve a abertura total da presidência da Fundação. A exposição começou a crescer porque eu achei que era importante acrescentar outras que foram expostas na Galeria Ratton em 2016. Tinha pena de não serem vistas por um público mais alargado. E ainda trouxe outras que estava a pintar e que tive imensa dificuldade em acabar porque são grandes e estava pressionada, mas queria mostrá-las. A exposição tem à volta de 100 obras.

As inéditas têm um tema específico?

Não escolho o tema, os assuntos vêm ter comigo. Desde 2011 comecei a olhar não só para assuntos ligados à minha vida pessoal e à vida do meu país, mas também ao que está a passar-se no mundo. Desde 2008 temos vivido em grandes desassossegos e grandes dramas das pessoas.

E continuamos.

E continuamos assustados. Temos de ter coragem e fazer o melhor que pudermos para vivermos em paz connosco. É uma série de obras a que chamei A Caminhada do Medo. Essas obras foram expostas na Cooperativa Árvore do Porto e depois na Fundação Vieira da Silva. Continuei a agarrar cenas cada vez mais dramáticas, sobretudo as imagens dos refugiados que queriam desesperadamente encontrar um lugar digno para viver, ou para sobreviver, e a pintar Os Rostos do Medo, expostos na Galeria Ratton. São pinturas grandes, difíceis de concretizar, mas há nelas uma dimensão do sofrimento humano muito forte.

A Fundação Champalimaud é ao mesmo tempo um hospital e um centro de investigação muito em torno do cancro. O facto de as pessoas que ali vão serem estarem eventualmente em sofrimento não alterou a sua maneira de pensar a exposição?

Não, e acho que as pessoas se vão reconhecer e identificar com a minha pintura. O sofrimento não tem só a ver com a doença mas também com outros aspetos da vida. A minha pintura, e penso que da maior parte dos que se consideram artistas, não pode olhar para o lado, indiferente às situações dramáticas. O cancro é uma das situações mais assustadoras porque está a aumentar. Fiquei admirada - passei lá tardes inteiras a trabalhar - com a quantidade das pessoas que ali entram, e se for ao Hospital da Luz ou em Santa Maria é o mesmo. A parte destinada aos doentes oncológicos tem aumentado. Mas a minha pintura tem a ver com uma doença com uma dimensão social, psicológica. Tenho de estar atenta. Nunca fiz uma pintura decorativa e a grande arte não é decorativa. Neste momento é uma pintura com uma dimensão política.

Nem sempre foi esse o foco do seu trabalho. Houve uma fase em que estava a olhar para a sua infância, para o universo familiar, para a sua terra. Retratou a sua mãe em momentos muito íntimos. Como vai de um lado para outro?

Cheguei aqui porque vivi essa fase e porque tive uma infância com pessoas de uma grande dimensão humana, sobretudo a minha mãe que era uma mulher extraordinária. Ela morreu há três anos. A minha mãe foi a minha musa durante muitos anos. Nessa altura, quando regressei à aldeia - aquilo a que se chama hoje residências artísticas - eu só sabia que tinha de estar naquele lugar. Aquilo que fiz, ao olhar sobretudo as mulheres, era um olhar político. Sempre admirei aquelas mulheres e continuo a admirar. Na maior parte, neste momento não estão vivas, porque em 1982 teriam entre 50 e 60 anos. Observei-as com muita atenção, porque eram as resistentes de anos de muita dificuldade por causa da emigração. A emigração para a África e para o Brasil já não é da minha experiência como pessoa, mas sim para França e Alemanha. Todos os dias assistimos a notícias trágicas de mulheres assassinadas no nosso país, mas nunca ouvi notícias dessas sobre elas. Eram maltratadas mas não assassinadas, porque eram muito resignadas, assumiam o sofrimento como uma cruz. Eram muito católicas e, ao mesmo tempo, não tinham outra hipótese de sair: sair para onde?

Sofriam em silêncio?

Sofriam em silêncio. Por isso eu as admirava tanto e fiz delas as minhas heroínas. Tudo o que fiz à volta desses seres humanos foi uma homenagem.

No entanto, a Graça Morais não é uma mulher que se cale, nem resignada.

Felizmente nunca sofri desses problemas, tenho tido essa sorte. Vivo com um marido que é uma pessoa excecional e um grande artista.

O Pedro Caldeira Cabral.

Sou uma mulher privilegiada, mas isso não quer dizer que seja egoísta e não olhe para as outras. Preocupa-me muito e acho que alguma coisa tem de ser feita pelo Estado. As mulheres não podem queixar-se e ficarem com um possível criminoso ao lado delas. Alguma coisa tem de ser feita, não sei o quê porque isso ultrapassa-me. Isto tem a ver com a nossa independência. Sempre fui muito independente e autónoma. A minha pintura é a grande luta que tenho neste mundo, como pessoa também, como cidadã. Estas mulheres muitas vezes não têm voz nem têm quem as proteja. Não podemos fechá-las em residências fora do seu ambiente, dos seus filhos. Sabe o que é que me faz espécie? Aqueles homens, a maior parte deles, matam as mulheres e suicidam-se. Isso quer dizer que são atos de grande desespero, também eles estão em grande sofrimento. Não são só uns criminosos. Esse casal foi abandonado pela sociedade. Cada vez mais vivemos isolados, e essas pessoas estão isoladas e são abandonadas pela sociedade.

Lembra-se da sua infância em Moçambique?

Muito, porque fui para lá com sete anos e regressei com nove. Dizem que atingimos o máximo da inteligência aos nove anos, não sei se é verdade. Se não atingi o máximo da inteligência, pelo menos atingi o máximo da capacidade de olhar, observar e guardar na minha memória intensamente uma região muito especial, mágica. Gostei imenso de estar em Moçambique e espero ainda voltar lá.

Fez o liceu em Bragança e foi para a Escola Superior de Belas Artes do Porto. Pelo meio, fez uma viagem pela Europa das artes, Paris, Amesterdão...

...Londres.

Era um tempo em que se viajava pouco. Em 1970 deve ter sido um abrir de olhos, de coração.

Foi uma viagem de fim de curso e para mim foi empolgante poder ver ao vivo a pintura nos museus. Quando em Amesterdão vi as pinturas do Van Gogh fiquei muito emocionada, porque tinham matéria e nos livros não aparecia essa matéria. A maior parte dos livros era a preto e branco na biblioteca da escola. É muito interessante quando vemos grandes pintores que nos levam à nossa vida, à nossa história. Lembro-me de Os Comedores de Batatas do Van Gogh. Olhei para o quadro e pensei: é a casa do meu avô.

"É a minha terra"?

É a minha terra. O meu avô era um lavrador muito generoso que dava trabalho a muita gente e lembro-me de eles comerem num grande prato. Eu gostava imenso de me sentar a comer com eles. Aqueles comedores de batata eram os comedores da minha aldeia. A grande arte cria sempre em nós uma grande identificação, vem ao encontro do que está dentro de nós. Em Paris vi outros artistas mas do que me lembro mais é do [Francis] Bacon em Londres. Foi um choque, uma emoção.

Em Portugal havia pouca informação sobre ele?

Quase nada. As outras raparigas andavam loucas pelas boutiques em Londres, era uma tentação. Usava-se a maxi-saia e eu também comprei uma, linda, mas passei o tempo nos museus. Eu queria ver arte. Hoje continuo uma esfomeada quando saio, tenho de ver muita arte, preciso.

Foi bolseira da Gulbenkian em Paris em 1976. Já tinha havido o 25 de Abril, a vida tinha mudado.

Estive em Paris até 1979 como bolseira da Gulbenkian.

Essas bolsas foram importantes?

Eram poucas, mas acho que todos os artistas tiveram bolsa. Ou se era rico, e eu não era, não pertencia a uma família que me pudesse pagar uma estadia em Paris, ou então só a Gulbenkian nos podia ajudar. E como eu tinha altas classificações e tinha currículo, com o grupo Puzzle que ajudei a formar, essa bolsa foi muito importante. Foram anos em que não frequentava nenhuma escola, limitava-me a conviver com outros artistas e a ver muita arte. Ver arte é a grande escola.

Tem hoje um olhar muito diferente?

Às vezes sinto-me com 18 anos quando estou a ver certos artistas. Estou sempre a ver de novo, a encantar-me, a descobrir coisas novas. Conforme as minhas necessidades vou descobrindo artistas de cada vez que visito os museus. Nem sempre são os mesmos.

Não se pode ir só uma vez a um museu?

Não, tem que ir mais, tem que ver mais. E os museus são importantíssimos porque são lugares de encontro, de reflexão, de estudo. Eu continuo a estudar. São lugares de aprendizagem. Por isso tenho tanto orgulho, tanta vaidade e sinto-me muito feliz porque em Bragança há esse Centro de Arte Contemporânea.

O Centro de Arte Contemporânea Graça Morais que neste momento tem duas exposições. Uma sua - Diários sem Ordem, As Imagens e as Palavras, até 4 de junho - e outra de arquitetura de Eduardo Souto de Moura.

Que se chama Proporção e Desígnio. Tem esquissos e fotografias enormes de alguns dos edifícios mais emblemáticos do Eduardo Souto de Moura.

Por que é que uma pessoa que vive em qualquer ponto do país há de ir a Bragança ao seu Centro? O que vai lá ver?

Neste momento aproxima-se a primavera, começa por ver o campo que está a ficar maravilhoso. Vim de lá agora e tive imensa pena porque me apetecia ficar. Está tudo a começar a rebentar e é uma alegria ver o campo. É a grande força da natureza a cumprimentar-nos. Vale a pena ir a Bragança por várias razões. A cidade tem vários museus e está muito organizada, muito bonita, com jovens que gostam de lá viver. Começa a ser repovoada, o que é bom porque houve a fase em que os centros da cidade foram esvaziados porque as pessoas deixaram de restaurar as suas casas e afastaram-se para outro tipo de vida. Neste momento, o centro da cidade começa a ser ocupado e o Centro é a grande sala de visitas de Bragança, não só para cumprimentar mas também para estudar. Encontrei uma vez uma senhora que estava a ver a exposição Encontro com Sophia, em que expus os dois livros que fiz com a Sophia, com pinturas e manuscritos dela. A senhora disse-me: "já vim cá muitas vezes porque é como se visitasse um templo". Aquilo já tem uma dimensão que ultrapassa a realidade. E vão lá muitas crianças, muitos jovens.

Têm muitas atividades pedagógicas, é possível encontrar isso no site. É um edifício histórico remodelado.

Foi remodelado e acrescentado com novas galerias pelo Souto de Moura. É um espaço muito humano porque não é demasiado grande e é muito acolhedor. E a programação tem sido muito boa. O diretor, Jorge Costa, é muito ativo. Ainda há bocadinho lhe telefonei - telefono-lhe a saber como correm as coisas - e disse-me ainda agora que acabava de fazer uma visita a muitos alunos do Instituto Politécnico. Em Bragança existem centenas de alunos de vários países do mundo e visitam o centro. É uma sorte, porque quando estudei em Bragança tinha 15 anos só havia o Museu Abade de Baçal, eu já tinha o bichinho de querer ver, mas chegava lá e via sobretudo arqueologia, arte sacra, e pouca pintura.

Nesse sentido, Portugal mudou...

Mudou muito. Esse é o lado mais positivo. As autarquias têm tido um papel muito importante. Só falta um Ministério da Cultura mais forte, com mais dinheiro, porque os ministros mesmo que queiram fazer obra muitas vezes não conseguem.

Como é isto de pintar, como começa um quadro? Para mim é um mistério.

Também para mim. Sempre. Quando tenho uma tela em branco fico às vezes horas a olhar para ela sem conseguir enfrentá-la. Não sei se os escritores com a folha em branco sentem o mesmo. É mais fácil desenhar - eu tenho sempre muitos blocos onde vou fazendo desenhos, porque desenhar é quase escrever comigo mesma e são quase segredos, são apontamentos, é o pensamento que se vai fazendo à medida que a mão se vai mexendo. É uma relação mais direta, não é mais sensível, é mais íntima.

Desenha com lápis?

Com lápis, caneta, pastel, o que tenho à mão. Tenho sempre a mesa com muitas coisas e muito desorganizadas. Quando começo a pintar, há sempre uma ideia. Pode nascer num filme que vejo, numa situação que vivo em qualquer lado. Ultimamente até a eleição do Donald Trump, desse homem terrível, me influenciou muito nestas pinturas. Estava a fazer uma pintura mais pacificada, apesar de ligada a certas figuras e preocupações de ordem social, e aquele homem entrou como um diabo na minha pintura, porque realmente é uma figura assustadora. A minha arte não é...

...assética?

... nem assética nem desviada da realidade... Um dos quadros chama-se 20 de janeiro de 2017 e o outro 27 de janeiro de 2017, o dia do grande desassossego.

Como decide o formato, as dimensões do quadro?

Decido antes. Tenho sempre muitas telas à disposição porque sou muito impaciente quando pinto, quero ver o resultado e trabalho com uma grande velocidade. Muitas vezes fico extenuada e nem consigo conduzir quando saio do ateliê, fico um bocadinho perturbada. É uma situação especial. Escolho a tela. E depois é enfrentar aquela tela. A pintura é-me muito difícil porque me pede soluções que nem sempre estou preparada para fazer. Vem-me à memória tudo o que eu vi da arte, e ao mesmo tempo as grandes angústias de querer fazer qualquer coisa de novo e sentir que não estou a fazer nada de novo. É muito difícil fazer alguma coisa de novo e muito bom na pintura. É mais fácil com outros media, com vídeo, com fotografia, com tudo o que ainda não se fez. Na pintura é muito difícil porque os grandes mestres já mostraram quase tudo.

Continua a ir ver os outros, a ir a museus.

Mas o meu mundo é diferente, eu sou outra pessoa, falo de outra maneira, penso de outra maneira, sou mulher. Eu digo o que os outros não podem dizer.

É sempre diferente, não se copia?

Exato, mas a pintura não é só a ideia, é também a técnica, é acrescentar alguma coisa na forma como se pinta. Por isso vejo muitos artistas. Agora temos grandes pintores. Na feira de arte em Madrid com a Argentina como país convidado e estava em força com pintura. Havia artistas que tinham feito desenhos na parede. E pensei "que bom, estou atualizadíssima" porque no Centro de Bragança estive a desenhar diretamente na parede. De facto, estamos a viver o regresso à pintura.

Houve alturas em que se pensou que a pintura ia acabar, por causa da fotografia, do filme, do vídeo... Está-se sempre a pensar que o novo vai acabar com o mais antigo. Não é assim?

Às vezes há uma certa arrogância nos que consideram que estão a apresentar caminhos muito novos e tentam afastar os que fazem pintura. Temos de ser resistentes, ter coragem e continuar.

Pinta da mesma maneira que pintava quando tinha 20 anos?

Não, porque não sabia o que sei hoje e a pintura tem a ver com sabedoria. Um artista tem de ser um homem ou uma mulher que se informa do que se passa no mundo e do que se passa no mundo da arte, a arte de um modo geral. Porque a arte é que transforma a sociedade.

Não é só a política?

Nem é. O que fica na história é a arte. Alguém vai às grandes cidades do mundo ver os políticos? Ninguém. Vão ver arte, grandes espetáculos. Por isso é que nós, no nosso país que é pequenino, temos de lutar para que o dinheiro que desaparece para buracos sem fundo seja concentrado cada vez mais para a arte.

Já foi ver a exposição do Almada Negreiros?

Não fui porque tenho andado a preparar três exposições ao mesmo tempo.

Mais outras?

A próxima será em Paris, no dia 30 de maio, uma exposição que estou muito contente por se realizar, na delegação da Fundação Calouste Gulbenkian. As comissárias são a Helena de Freitas, que comissariou o Amadeo de Souza Cardoso no Grand Palais, e a Ana Marques Gastão, comissária para a literatura porque nesta exposição vai fazer-se um encontro entre mim e as grandes escritoras que eu tanto admirei, com quem convivi.

Que são?

A Agustina Bessa-Luís e a Sophia de Melo Breyner. Estão 13 pessoas a estudar a minha pintura, o que me enche de orgulho, e grandes pensadores. A 6 e 7 de junho haverá colóquios. Convido toda a gente a ir a Paris. Não vai haver atos de terrorismo porque a arte vai vencer.

Esteve ocupada nestes meses.

Sim, a pintar e a organizar. O artista tem que ver tudo, sai-me tudo das mãos.

Não é fazer um quadro e agora alguém resolva isto?

Eu meto-me em tudo, gosto de ver a maneira de expor. Na Fundação Champalimaud um arquiteto estudou o espaço, está maravilhoso. Entusiasmo-me. Os quadros, quando são expostos em espaços diferentes, dialogam de uma maneira curiosa. Eles também falam uns com os outros. Ainda agora em Bragança estava a olhar para aqueles quadros, alguns já os tinha exposto lá mas tenho 50 inédito que encontrei nas minhas gavetas. Olhava para aquilo e pensava: estas obras estão diferentes, a falarem umas com as outras. É muito curioso ver esse diálogo que a arte tem em espaços diferentes.

A exposição de Almada Negreiros na Gulbenkian está a ter um êxito enorme, com a do Amadeo foi a mesma coisa. Em alturas de crise e de medo há muita apetência pelas artes. Os teatros têm andado cheios, há muita conversa sobre filmes, a propósito dos óscares e não só.

E os jovens portugueses do cinema que foram premiados. Estamos a atravessar um período muito criativo em todas as artes. Eu considero os artistas heróis, porque depois daqueles tempos da troika e da austeridade sofremos imenso. Todos os artistas sofreram.

Porque um artista não vende quando não há dinheiro a circular?

Porque a classe média é que sustenta a arte. As grandes fortunas não fazem mecenato. Os bancos fizeram muito mecenato e houve instituições que apoiaram muito as artes, e o Ministério da Cultura apoiou sempre pouco porque é o ministério mais pobre, é sempre o primeiro a cortar. Os ministros chegam cheios de boas intenções mas também não podem apoiar. As pessoas têm a ideia de que os artistas têm todos subsídios.

Que são subsídio dependentes?

Espero bem que não pensem isso porque a maior parte dos artistas nunca teve subsídios. Nunca recebi um subsídio do Ministério da Cultura e desde 1990 que não vendo nenhum quadro para o Estado. Gostaria imenso de vender mas têm andado distraídos, o que não tem importância nenhuma. O que é mais importante é que se formou um público mais culto e isso tem a ver até com o ensino nas escolas. Dei aulas de Educação Visual durante muitos anos, desde os 20 e tal, e tenho consciência de que fui uma boa professora. Esses alunos são mais exigentes. Os centros de arte espalhados por todo o país também estão a formar pessoas. E as escolas de música, os teatros que cresceram em todas as cidades. De facto, o país mudou para melhor.

Há uma vida cultural que não havia?

E que não depende do estado, depende das autarquias, das próprias pessoas que criaram as necessidades e querem alimentá-las, porque também viajam. Ao mesmo tempo, a classe média recebeu uma pancada muito forte e não tem dinheiro para adquirir. Mas nós não precisamos de ter obras nossas para as ver. Tem que haver gulbenkians, espaços maravilhosos onde as pessoas podem ver arte. Isso é que é importante. É a primeira grande exposição que a Fundação Champalimaud faz, está a ser de uma generosidade imensa. E eu fico muito feliz por poder mostrar as minhas obras a um público vasto.

Porque a sua exposição está de portas abertas a toda a gente.

A entrada é livre e gratuita, entre as 14:00 e as 19:00, e ao domingo todo o dia. Aquele espaço é de uma beleza... Naquele fim de edifício e começo de rio há uma luz que entra por nós dentro e nos dá imensa felicidade. As pessoas podem ir para lá andar de bicicleta, passear. A cidade de Lisboa está a ficar muito virada para o rio, com o MAAT, com estes museus todos, acho uma maravilha. Mas é preciso que as pessoas vivam melhor.

Na exposição tem 100 quadros. Tudo pintura?

São desenhos e pinturas, o comissário é o Paulo Teixeira Pinto, que o José Pedro Paço d"Arcos desafiou. Ele também pinta e pinta bem, tem obras muito interessantes. E vai ser exibido o filme que a minha filha Joana fez sobre mim, chamado Na cabeça de uma mulher está a história de uma aldeia.

E está mesmo?

Está, é verdade. Na aldeia do mundo. A coleção do José Pedro Paço d"Arcos é muito curiosa. Começou a fazê-la em 1986, comprando quadros em leilões e galerias, e foi guardando, organizou a Fundação Paço d"Arcos. Nunca lhe vendi nenhum quadro. Ele gosta mesmo da minha pintura. É um exemplo para muitos colecionadores. Há grandes colecionadores muito ricos e que são mecenas, apoiam o artista e organizam grandes exposições em museus internacionais. É um prazer um artista sentir-se amado através da sua pintura e receber essas pessoas no seu espaço mais íntimo e importante, o ateliê, alguém que compre ou que simplesmente gosta dela e quer falar dela.

Quando está em Bragança e vai ao seu Centro de Arte Contemporânea fala com os visitantes?

Falo muitas vezes, e percebi que quando vou inaugurar aparece mais gente. Cria-se um ambiente muito forte, humanamente. Eu gosto de pessoas.

E gosta de conhecer as pessoas que estão a ver os seus quadros?

Gosto. Tenho pena de não ter mais tempo, porque tenho compromissos, preciso de vir para Lisboa ou quero fechar-me no meu ateliê, quero trabalhar. As exposições não se fazem sem trabalho.

Fazem-lhe perguntas bizarras?

Não, eu acho que as pessoas ali convivem muito bem comigo e não fazem essas perguntas. Eu faço parte delas, encontro muitas pessoas que andaram comigo no liceu, encontro espanhóis, franceses. Bragança já é visitada por muitos estrangeiros e visitam sempre o Centro.

Noto que a Graça não disse que se come muito bem em Bragança.

Eu gosto imenso de comida boa mas fala-se tanto de comida ultimamente, as televisões estão cheias de comida, só se fala em gastronomia. É como o futebol. Deixe-me agora falar aqui só de pintura. Mas há ótimos restaurantes em Bragança.