Gisela João, a fadista que só quer cantar e nada mais

Na sexta-feira, a fadista lançou de surpresa o novo álbum, "Nua", e hoje apresenta-o em concerto no Lux, em Lisboa. Um disco em que quis cantar músicas de que gosta.

João Moço
Gisela João apresenta hoje o seu novo álbum, "Nua", lançado de surpresa na sexta-feira© Estelle Valente

"Olha, estou com uma carga de nervos, como sempre. Pus-me a fazer marmelada para ver se desanuviava enquanto ensaiava", diz Gisela João, do outro lado do telefone, a dois dias do concerto de hoje, no Lux (às 23.00), onde vai apresentar o novo disco, Nua, lançado de surpresa na última sexta-feira. Uma resposta bastante crua e honesta, como tem sido o percurso até agora da fadista.

Apesar do nervosismo, o Lux é uma casa que conhece bem. Ainda antes de ter lançado o muito aplaudido álbum homónimo de estreia, em 2013, já a fadista tinha pisado aquele palco, a convite do produtor Nicolas Jaar, arriscando uma versão de Os Vampiros, de José Afonso.

Há quase três anos foi também ali que se lançou sobre o público durante o concerto dos Linda Martini. Agora o Lux será só seu. "Nunca escondi a minha paixão pela música eletrónica e pelo Lux, desde adolescente, então, para mim, faz todo o sentido [fazer este concerto na discoteca lisboeta]. Adoro o espaço e ali sinto-me em casa. Como isto vai ser para mostrar um bocadinho o outro lado da Gisela João e já que é para estar Nua, que seja no Lux", diz.

Nua, o novo álbum, foi editado de surpresa, sem grandes avisos de que estava para chegar. Mas foi sendo preparado e gravado ao longo dos últimos anos, enquanto não parava a percorrer o país e o mundo. "Graças a Deus que quando saiu o meu primeiro disco comecei a ter tanto trabalho e a andar tanto de um lado para o outro que não podia parar uns meses para ir gravar. Então fui gravando músicas aos poucos. Até por isso o disco surge de repente, porque chegou uma altura em que vi que tinha um disco pronto com as músicas que tinha gravado e tinha mesmo de pô-lo cá para fora", explica.

Ele já está cá fora e surge depois de um primeiro álbum muito celebrado pela crítica e pelo público. Quando a cantora recebeu o Prémio José Afonso por esse disco, o júri emitiu um comunicado referindo: "Talvez não seja exagero considerar Gisela João a melhor voz que já apareceu depois de Amália."

A própria fadista sentiu essa pressão sempre que lhe perguntavam pelo segundo disco. "A dada altura o difícil foi eu sentir que as pessoas tinham tantas expectativas e perceber que muitas pessoas pensavam que ia dar uma volta de 180 graus precisamente por nunca ter escondido o meu interesse por música eletrónica e outros géneros. Senti-me um bocado assustada sempre que diziam: "O segundo disco tem de ser melhor do que o primeiro." Como se carregasse numa tecla e saísse um segundo disco. É uma frase horrenda. Será que as pessoas sabem o que estão a dizer? Não tem lógica. O melhor é sempre relativo e isso até me fez afastar por medo. Não tenho de fazer uma música de x minutos para passar na rádio, não tenho de fazer um vídeo de certa forma para passar na televisão ou na internet, não tenho de cantar uma música virada para a eletrónica para agradar àquelas pessoas. Do que gosto é de cantar e disso nunca tive dúvidas. E o que quis fazer no disco foi cantar as músicas de que gosto com os poemas que me fazem sentir livre e isso basta."

Em Nua recupera fados dos repertórios de Amália Rodrigues ou Beatriz da Conceição, mas também se apropria de duas canções do sambista Cartola (1908-1980) e transforma-as em fados à sua medida, em especial no tema As Rosas não Falam. Quando lhe perguntamos como viu ali um fado, Gisela João ri-se de imediato. "Se eu te mostrar a lista que tenho de músicas que não são fados mas que eu acho que são até te deitas para o chão a morrer sem acreditar."

Desde que ouviu Cartola pela primeira vez, através de um grupo de estudantes de Erasmus que a foram ver cantar o fado quando ainda vivia no Porto, percebeu o seu potencial fadista. "Percebi logo porque é que eles diziam que o que eu cantava era muito parecido [com Cartola]. Vem do mesmo sítio, vem das lembranças, das memórias, das tristezas, dos amores, dos desamores, que é também de onde vem o fado."

Amália, a grande referência

Amália é outra das referências basilares de Gisela João e a própria não tem pudores em evidenciá-lo. Tal como muitos outros fadistas antes de si, também Gisela recorre ao repertório de Amália e neste Nua recupera O Senhor Extraterrestre, composto por Carlos Paião, mas também Lá na Minha Aldeia, Naufrágio, Quando os Outros Te Batem, Beijo-Te Eu e Há Palavras Que nos Beijam.

"A Amália é uma das pessoas, para além da minha família, que involuntariamente trabalhou a minha personalidade e a pessoa que sou hoje e que muitos conhecem. A forma como ela cantava, os poemas que ela escolhia, tudo isso foi-me moldando, ensinou-me como viver a minha vida, a minha influência vem toda daí, para além, obviamente, do que trago de casa e daquilo que aprendemos no dia-a-dia com amigos", refere.

O disco inclui dois inéditos, Sombras do Passado (de Ana Sofia Paiva e Frederico Pereira, também produtor do álbum) e Noite de São JoãoI (letra da rapper Capicua na melodia tradicional do Fado Triplicado, de José Marques), e Gisela João não sente que tenha de ter mais.

"Outra das coisas que me diziam era: "Tens de começar a criar a tua personalidade no fado, tens de criar os teus próprios fados." Por amor de Deus, conheço tantos fadistas cujos primeiros discos são de versões e uma das belezas do fado é existirem os standards e depois as pessoas vão trocando os poemas. Por isso, nunca senti pressão neste sentido. Desde que eu acredite no que estou a fazer, a minha equipa também acredita", afirma.

Será com essa equipa (Ricardo Parreira, na guitarra portuguesa, Nélson Aleixo, na viola de fado, e Francisco Gaspar, na viola baixo) que hoje Gisela João apresentará Nua, no Lux, a partir das 23.00.