Filme de e com Louis C.K. foca a taradice sexual de Hollywood

O cómico foi acusado de assédio sexual. "I Love You, Daddy" passa no LEFFEST, apesar de ter tido a sua estreia cancelada nos EUA.

Rui Pedro Tendinha
Louis C.K. em "I Love You, Daddy"© Direitos reservados

Foi um dos filmes mais falados e aplaudidos do Festival de Toronto. I Love You, Daddy, de e com Louis C.K, uma crónica em tom de comédia sobre o comportamento masculino e o ego dos artistas. Um filme onde vemos homens a falar de mulheres com linguagem explícita e onde se assume uma taradice sexual muito consentida entre a indústria do entretenimento. À luz deste escândalo em torno da conduta sexual do autor, conhecida esta semana, apetece dizer que agora o filme terá de ser visto com outros olhos. Como se o conteúdo da perversão destas personagens, em especial a do amigo predador sexual interpretado por Charlie Day, ganhasse um novo significado.

O projeto foi rodado em segredo e auto financiado e conta a história de um argumentista (Louis CK) de sucesso que se vê numa estranha posição quando a sua filha menor começa uma relação com o seu ídolo (John Malkovich), um sexagenário realizador e argumentista que funciona como um espelho de Woody Allen. I Love You, Daddy é uma comédia de choque com o humor na primeira pessoa de Louis C.K.. Sem ser nenhuma obra-prima, apresenta uma acidez muito rara no cinema americano, homenageando declaradamente um certo estilo do próprio Woody Allen. Pensemos na série do próprio Louis, Louie, mas com um grau de verniz muito estalado.

Outro dos temas do filme passa por escavar fundo no cliché das relações entre as atrizes e os realizadores. Há um romance entre a personagem algo autobiográfica de Louis e uma estrela de cinema de Hollywood (uma fabulosa Rose Byrne) que toca em toda a problemática machista do "engate" através do poder da posição profissional.

O que é relevante nesta comédia contorcida é a recusa da galhofa pela galhofa. Há uma profundidade temerosa do humor de Louis, embora agora seja impossível rir disto tudo sem um certo pé atrás. O filme, para já, tem não tem estreia marcada no mercado americano, sendo inclusive mais provável poder estrear primeiro em Portugal, onde é distribuído pela Leopardo Filmes. A presença do realizador em talkshows também já foi cancelada, bem como a premiere em Nova Iorque. Ainda anteontem, a imprensa televisiva americana já se referia a ele como "masturbador". Aconteça o que acontecer, a reputação deste comediante está manchada - ontem assumiu que "todas as histórias são verdadeiras". Por cá, ontem ainda estava confirmado pela direção do LEFFEST (Lisbon & Sintra Film Festival) na sua programação, com a primeira passagem no próximo dia 23.

Tal como Louis C.K., outros dos artistas que viu a sua carreira ser profundamente afetada pelo furacão Weinstein foi Kevin Spacey, que está neste preciso momento a ser cortado de All The Money in The World, de Sir Ridley Scott. Contudo, os portugueses vão vê-lo já na quinta-feira quando estrear A História de um Génio, de Danny Strong, onde interpreta o primeiro editor de J.D. Sallinger. Uma interpretação de destaque num filme fraquíssimo, praticamente ignorado neste verão nos EUA.

Segundo o DN apurou, a distribuidora NOS Audiovisuais não ponderou o cancelamento da estreia nem teve ordens da produtora para retirar o seu nome dos cartazes. O escândalo sexual mexeu em All The Money in The World, mas não neste pequeno filme sem grande estúdio de Hollywood. Coincidência ou não, temos um Kevin Spacey longe dos seus grandes momentos, mas com uma frase que não vai deixar ninguém indiferente: "vão lá para casa masturbarem-se!"