António Lobo Antunes: "Estou na reta final"

António Lobo Antunes não quer dar entrevistas mas o novo romance fê-lo abrir uma exceção. Até porque queria responder a quem "lhe anda a morder as canelas".

João Céu e Silva
António Lobo Antunes tem um novo romance: Da Natureza dos Deuses© Leonardo Negrão / Global Imagens

'Da Natureza dos Deuses' é o mais recente romance do escritor. Que falou mal de Fernando Pessoa e logo foi "avacalhado" por muita gente. Que gosta de ouvir Putin a falar russo. Que detesta a classe política portuguesa, caracterizada como "medíocre", tal como François Hollande, salvando-se a Senhor Merkel. Que não vê nos novos escritores ninguém que se destaque...

Quanto ao novo livro, diga-se que é uma espécie de "romance policial", daqueles que se lê sempre curioso do que vem no próximo capítulo. Um dos pontos mais altos da sua narrativa.

Este não é um livro habitual.

O que é que uma pessoa pode dizer de um livro? O que podia dizer está escrito no livro. Esperava que nenhum romance fosse habitual, gostava que fosse uma surpresa para mim e para os leitores.

Enquanto o lia lembrei-me do seu pai reclamar sobre os seus livros e achar que só tinha feito um aquando do Fado Alexandrino.

Antes de escrever o Fado Alexandrino ele dizia isso... Este é mais ou menos um livro do mesmo tamanho, que no plano inicial tinha 40 capítulos e acabou com 37. Tirei três da última parte. Tenho sempre um plano muito vago e depois não sei o que vou escrever. Não faço a menor ideia do que vai acontecer neste que estou a escrever agora.

Memória de Elefante era um livro de principiante?

É, na medida em que foi o primeiro livro que publiquei. Nunca li um livro meu e há uns anos saiu uma edição de bolso e, como tinha que almoçar sozinho, levei-a e pus-me a folhear aquilo. E fiquei pasmado! Claro que já não escrevo assim, nem deveria ter escrito assim, mas fiquei espantado com a força que aquilo tinha.

Não se sente um pouco abandonado e só na sua geração?

Ainda há muitos. A Lídia Jorge, João de Melo, Mário de Carvalho, a Teolinda Gersão... O problema é que um bom escritor é uma coisa muito rara e agora não os há. Três ou quatro no máximo no mundo inteiro. Não estava a pensar em Portugal, onde nas gerações mais recentes não há nenhum que entusiasme especialmente. Até porque estão muito abandonados e os editores não fazem o seu trabalho.

Aceita opiniões da sua editora?

Isso nunca se passou. Aceito as opiniões todas, mas depois faço o que me apetece. Muitas vezes até pode ser que as pessoas tenham razão.

Era capaz de pôr de lado um livro depois de estar pronto?

Claro. O problema é sempre o reescrever e corrigir. É como dizia aquele meu amigo, de quem tenho muitas saudades, o Eugénio de Andrade. Tem um livro que se chama Ofício de Paciência... Ele era muito lento a escrever e a poesia dele era muito trabalhada. Não interessa se era bom ou mau, o homem suava sangue para fazer uma linha. Nem o imagino de outra maneira. Basta ver os manuscritos de Tolstói, onde não há uma página sem ter correções. Estive com um manuscrito do Cortázar na mão e está cheio de correções. Depois aquilo parece que é feito como quem mija.

Neste livro usa novas técnicas. Há palavras cortadas a meio...

Isso já havia nos outros...

Mas neste é mais intenso.

Sim, há uns Cogitus Interruptus... Estava a tentar experimentar uma nova técnica, a ver se dava ou não, porque juntei a isto das palavras cortadas a outras coisas. A técnica da escrita interessa-me cada vez mais. Na altura, quando entreguei o livro, pareceu-me que estava bem, mas como nunca o li não sei. Nunca leio um livro meu da primeira à última linha, tenho medo, mesmo que agora comece a sentir curiosidade. Porque, é claro, que estou na reta final e é neste momento que temos de dar tudo.

Na reta final porquê. Não tem mais livros para escrever?

Não faço a menor ideia. Talvez porque nestes últimos dois anos a minha família tenha sido muito fustigada e morreram-me muitas pessoas.

Não força a sua solidão?

Quando estou a escrever não tenho tempo. Isto come tudo. A sensação que sempre tive é que me tinham dado uma coisa que não me pertencia, esta coisa de escrever, e tinha a obrigação de a devolver em forma de livros. Era emprestada e a qualquer momento podiam tirá-la. Tenho de forçar quando não aparece nada e esperar que as coisas venham. Acabam sempre por vir. Ao mesmo tempo tive muita sorte porque quando toda a gente me atacava aqui em Portugal - o que não me interessa nada - os livros eram um sucesso. Logo que o primeiro livro saiu, um senhor que não conheço chamado Vasco Pulido Valente escreveu assim: "Um livro de um desconhecido publicado por uma editora desconhecida." ou "O herói romântico dos anos 70". Contra o Memória de Elefante foi logo pancadaria e bofetada de meia noite. Era só uma história e essa animosidade levou vários livros. Percebo porquê: inveja. Ninguém sofre tanto como um invejoso com os sucessos do objeto da inveja. Eu era mais bonito, tinha mais talento, as mulheres andavam atrás de mim em quantidade que não acabava - sempre as tive, para que é que havemos de esconder isto? -, e três meses depois daquele sucesso louco sai Os Cus de Judas e aumentou ainda mais. Por mais que tentemos esconder no mais fundo de nós, a sensação de derrota dos outros é a nossa vitória.

Também sentiu isso em relação aos seus colegas escritores?

Não senti, porque sabia desde o princípio que era o melhor. Isto era evidente: eu era o melhor. E se não o era então, iria ser se me dessem mais livros e espaço. Não tinha motivo para ter ciúmes de ninguém, pois se escrevesse faria melhor. Isto dito assim parece um exercício de vaidade mas não é, até porque vou morrer. Não sei quando, mesmo que já tivesse tido a morte muito perto e continuasse a querer escrever. A seguir à primeira operação, garanto, a vaidade foi-se toda. Depois, há dois anos e tal, tive um cancro em cada pulmão e um tinha um prognóstico fodido, mas estou aqui e bem. Tive muita sorte. A quimio é um coice enorme, mas as pessoas com quem me encontrava lá ainda ficavam mais bonitas quando tiravam a cabeleira postiça.

As mulheres sofrem muito neste livro. Qual é a razão?

Elas sofrem muito em todos os livros. Sobretudo, na vida. Porque as coisas mais pesadas caem sobre elas. O tempo tem-me ajudado a respeitar as mulheres, mesmo que nenhum homem as conheça bem.

É um livro que tem uma particularidade literária: os decotes das mulheres. Mais ou menos abertos conforme são as personagens!

Os decotes" Não reparei nisso.

Há um broche que fecha a vista...

Não tenho nada contra os decotes. Falo muito em decotes?... Elas podem ter muitas toiletes, mas isso não lhes compensa a solidão..

Tem mais personagens do que é habitual e dá-lhes nome. É para se orientar?

Não é nada premeditado, eram muitos e as pessoas podiam confundi-los. Quanto à escolha dos nomes, é de grande dificuldade. Nas classes mais altas é assim: o Senhor ou a Senhora. Os empregados é que têm nome. Neste livro que estou a escrever agora, nenhuma tem nome. É sobre gente muito pobre. Este, é da burguesia.

A palavra mais repetida neste livro é "puta". Porquê?

Puta? Tem a certeza? E não é sempre a mesma pessoa a dizer isso? Terá a ver com os habitantes do livro e da maneira como olham para as mulheres. É uma determinada classe social que as vê como coisas que se utilizam e deitam fora. Encontrei pessoas assim, todas da mesma classe social. E as mulheres são objetos, com ambição, que de certa maneira se comportam como eles. É um livro sobre uma certa camada social, onde as relações homem/mulher não são como as entendemos, mas muito diferentes.

É uma relação de poder?

O poder que elas têm só existe se forem provocantes numa forma primitiva, através dos brincos, dos anéis e das roupas. Esses homens só pensam em cobri-las de joias e não percebem que o empregado é mais amado do que eles. Este é um livro sobre os senhores do mundo em Portugal. Eles não obrigam só as mulheres a obedecer, também os homens que estão abaixo deles, até quando entram para a família são humilhados. É o poder que vem com o dinheiro. Não é em vão que tem havido tanto escândalo financeiro em Portugal. Eles dão dinheiro aos partidos antes das eleições mas desprezam as pessoas. Continua a haver uma oligarquia na sombra que é quem realmente manda. Havia determinadas pessoas que nos últimos governos tinham lá três/quatro ministros que lhes pertenciam. Podia ser ministro mas era apenas um empregado. O poder deles é quase ilimitado e não é exercido frontalmente, chega por trás até quem de direito. Era empurrado, dava três cambalhotas e caía num ministério. Só lendo o livro é que se percebe do que estamos a falar. E não vale a pena estar a empurrar-me para essa questão porque não quero ir mais longe.

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