"Em Portugal fazem-nos sentir como se fôssemos os U2"

Depois do regresso aos discos com "Freedom Child", lançado no final de 2017 após três anos de ausência, os The Script estão também de volta à estrada e têm paragem marcada em Lisboa hoje, naquele que será o oitavo concerto do trio irlandês em Portugal.

Miguel Judas
Os The Script regressam a Lisboa esta sexta-feira, 23 de março© Pilar Olivares/Reuters

Em entrevista ao DN, por telefone, o vocalista Danny O"Donoghue elogia o público nacional, que os faz sempre "sentir como uns U2", e fala de como é difícil para uma banda, hoje em dia, manter-se no topo durante mais de uma década.

Estiveram afastados e praticamente em silêncio durante três anos. Não é muito tempo para uma banda com mais de 20 milhões de discos vendidos?

Sim é, mas esse interregno foi uma necessidade que a dada altura sentimos, enquanto banda. Tivemos um enorme sucesso durante sete anos, mas era tempo de fazermos um reset e começar de novo. Também tive uma cirurgia complicada, às cordas vocais, da qual já recuperei e agora é tempo de voltarmos ao ringue e continuar a luta.

E que tal está a correr o combate, após o regresso?

Bastante bem. Já vencemos uns quantos assaltos, mas ainda faltam muitos para voltarmos a ser campeões [risos].

O novo disco, Freedom Child, é um trabalho muito mais eletrónico e dançável, que acaba por marcar uma grande viragem na sonoridade dos The Script. Concorda?

Sim, concordo. É resultado desse nosso recomeço. Sabemos que se continuarmos sempre a fazer as mesmas músicas, um dia o público vai cansar-se. E a verdade é que a música, hoje, está muito mais comercial e dançável do que quando começámos. Isso foi o grande desafio deste disco, o modo como iríamos casar esse lado mais eletrónico com a nossa música, sem a descaracterizar.

É aí que entram as letras? Neste disco até há algumas com mensagens mais políticas do que o habitual nos The Script...

Sim, era importante, nesta fase, continuarmos a ser uma banda com uma mensagem. Vejo este disco como uma conversa entre amigos, num pub, que passa pela vida de cada um, pelas relações, sobre política e, no final, depois de bebidas algumas cervejas, acabam todos num clube, a dançar.

Como é que se conseguem manter durante tanto tempo no topo, numa altura em que já não basta fazer discos e tocar, em que parece ser mais preciso estar sempre a aparecer?

Na verdade, é um bocado irritante, este tempo em que vivemos, porque se deixamos de aparecer somos esquecidos. Temos de entrar no jogo, mas sem esquecer o mais importante, que é a música. Por isso é que as bandas já não duram muito, com acontecia antigamente. O mercado hoje só quer saber da música eletrónica, do hip-hop e do R&B e se não pertencermos a esses géneros não se interessam por nós, o que nos obriga a trabalhar muito mais para chegar onde estamos. Às vezes parece que a indústria se esqueceu de que ainda há muita gente a gostar de pop-rock.

O talento ainda é o mais necessário para se ser uma estrela pop?

Hoje qualquer um pode ser uma estrela pop. Basta ter voz, cantar a canção certa e fazer uns bons movimentos. O que é difícil é aguentarmos dez ou 20 anos sempre lá em cima. E para isso é necessário algum talento e capacidade de sofrimento.

Chegou a ser júri e mentor num programa televisivo de talentos, o The Voice. Como foi essa experiência?

Foi uma experiência num bom programa de entretenimento, perfeito para ver em família ou com os amigos num sábado à noite, mas que tem muito pouco que ver com música. Nunca saiu dali nenhuma verdadeira estrela e também foi um pouco por isso que saí. Julgo que seria mais importante dar voz aos artistas que querem mostrar o seu próprio material e não apenas a quem saiba cantar bem êxitos de outros.

E para o Danny, qual é o objetivo enquanto artista?

Conseguir chegar às minhas zonas mais escuras e tristes e poder continuar a escrever sobre isso e mostrá-lo às pessoas sob a forma de canções.

A música é para si uma espécie de terapia, é isso?

Sim, fazer música é para mim algo de muito terapêutico, porque os problemas deixam de ser meus. Aliás, deixam de ser problemas e passam a ser canções, que na maior parte das vezes deixam felizes as pessoas que as ouvem.

E o que mais lhe deu a música, para além desse alívio?

Deu-me tudo. Através da música até já conheci a rainha de Inglaterra [risos], já toquei com pessoas que cresci a admirar, como os U2 ou o Paul McCartney, já atuámos para milhares de pessoas. E consegui tudo isso porque um dia decidi ir para o meu quarto, escrever canções sobre o que sentia, não foi por ter aparecido na televisão num qualquer sábado à noite.

E acha que a indústria da música ainda valoriza isso?

Claro que sim, até porque sem canções não há indústria. Porque é que os U2 ou o Michael Jackson são famosos? Pelas canções. É isso que esta indústria tem de mágico: toda ela está nas mãos de um qualquer miúdo de 10 anos que neste momento está no seu quarto a tentar escrever uma canção.

Diga-me uma boa canção que tenha ouvido nos últimos tempos.

O tema Doing the Right Thing, dos Daughter, foi um dos que mais me emocionaram. Percebe-se que ela [Elena Tonra] sofreu muito para conseguir chegar àquela canção, é arrepiante.

O que podemos esperar deste regresso a Portugal?

Pode parecer um lugar-comum, mas sempre que aí vamos somos surpreendidos pela forma como somos recebidos. É quase como se fosse sempre a primeira vez. Em Portugal fazem-nos sentir como se fôssemos os U2, é impressionante. E depois, pelo modo como reagem nos espetáculos, percebe-se que o público português entende realmente o significado das nossas letras e isso é muito importante para nós.