"É o fim de uma era", diz o ator Nuno Lopes

Os atores Nuno Lopes e Rita Durão falam do Teatro da Cornucópia como a sua casa.

Maria João Caetano
Nuno Lopes em "A Tespestade", de Shakespeare, no Teatro da Cornucópia© Arquivo Global Imagens

Uma tristeza enorme. É isto que o ator Nuno Lopes sente no dia em que se confirma que o Teatro da Cornucópia vai terminar a sua atividade. "É uma pena que a companhia não consiga continuar", diz, "para mim é o fim de uma era. Com o dinheiro que existe neste momento para a cultura já não há condições para continuar a fazer este tipo de espetáculo, um teatro de repertório, atual e com qualidade. Só os Artistas Unidos é que ainda tentam fazê-lo. Mais ninguém."

Foi com a Cornucópia que Nuno Lopes se estreou em 1997, como Gustiuz Gonçalves de Os Sete Infantes. Tinha 19 anos. "Foi ali que me formei como ator e como homem. Com a Cornucópia aprendi uma ética e uma maneira de estar na profissão que me tem guiado até hoje." Nuno Lopes, que entretanto se tornou conhecido também pela sua presença na televisão (por exemplo em Os Contemporâneos) e no cinema (está a dar que falar nos festivais, neste momento, o filme São Jorge, de Marco Martins, com estreia prevista nos ecrãs nacionais em março), foi um dos atores que nestes últimos vinte anos marcou presença regular no palco do Teatro do Bairro Alto, em Lisboa. "Para mim, é como se fosse uma família. E é também o ponto de referência do que deve ser um grupo de teatro. Ali se formaram muitos atores e muitos espectadores."

No entanto, Nuno Lopes afirma que tem "muito orgulho por eles acabarem assim, nos seus moldes, no momento em que acham que devem fazê-lo, para não terem de mudar para um tipo de representação que não é seu".

O ator vai estar amanhã, certamente, na última sessão do Teatro da Cornucópia. E provavelmente vai lá encontrar Rita Durão, uma das atrizes que também pertence à geração de 90 da companhia. "A primeira vez que lá trabalhei ainda estava na escola, fui com o grupo 4º Período - o do Prazer fazer uma peça do Edward Bond." Voltou depois para O Triunfo do Inferno, de Gil Vicente (1994) e muitas outras vezes. "Foi a partir dali que começaram a acontecer muitas outras coisas e que eu comecei a perceber que este poderia ser um caminho", lembra.

"Foi um sítio onde cresci como atriz e como pessoa", diz Rita Durão, fazendo das palavras de Nuno Lopes. "As coisas estão misturadas, o trabalho e esta proximidade de quase família." "Para mim aquele espaço é uma casa. E mesmo que acabe vai continuar a ser uma casa minha", diz a atriz, sublinhando "o percurso tão sério que este grupo de pessoas fez": "Cada vez dou mais valor à maneira como conseguiram marcar presença acreditando naquilo que fazerem, sem se deixarem influenciar pelas pressões exteriores ou pelas modas. Mantiveram a coerência."

Rita Durão recorda que na Cornucópia cada projeto começava sempre com "uma vontade de franca de fazer um espetáculo". "Isso era o mais importante", diz. Nada era feito com leviandade. Querer fazer algo de que se gosta e como se acredita que deve ser feito, "e admitindo que só conseguimos fazer assim". "É uma posição face ao mundo que admiro imenso", conclui.