À Procura de Dory: "Sabemos que as pessoas saem felizes da sala de cinema!"

Realizador e produtora de À Procura de Dory falaram com o DN na antestreia ibérica do filme.

Rui Pedro Tendinha

Como é que festejaram no fim de semana passado o anúncio de que o filme bateu nos EUA todos os recordes de bilheteira de uma animação na sua estreia?

Andrew Stanton (A.S.) - De alguma forma já sabíamos devido ao cálculo das previsões, mas a verdade é que sentimos o desejo do povo americano, todos queriam mesmo ver a Dory! Ninguém pensou que seriam estes números, é de doidos!

Lindsey Collins (L.C.) - Atualmente, nas previsões dos analistas de bilheteiras, já ficamos a saber as projeções do fim de semana na quinta ou na sexta-feira e logo aí começámos a receber telefonemas. Mesmo estando na Europa a promover o filme estávamos sempre a acompanhar todo este processo de estreia nos EUA. Na verdade, não esperávamos nada disto.

A.S. - O que nos deixa mesmo felizes é sabermos que as pessoas saem felizes da sala de cinema.

Fazer as pessoas felizes, esse é o vosso objetivo?

A.S. - Fizemos este filme mesmo para isso. Mas queremos que as pessoas continuem a querer ir ver o filme após o primeiro fim de semana.

Durante os quatro anos que demorou este filme a estar concluído chegaram a pensar que as pessoas talvez não quisessem voltar a debaixo de água para conviver com peixes que, se calhar, já se tinham esquecido?

L.C. - Nunca pensámos nisso, a nossa preocupação era encontrar a história certa.

A.S. - Quando estávamos a trabalhar não nos passava pela cabeça se o filme seria popular ou não. Repare, todos os outros filmes que fizemos foram sucessos por serem histórias que nós queríamos contar e nunca pensámos no público. Tem que ver com os nossos desejos privados de contar história para nós próprios, um pouco como acontece com os músicos que não querem fazer o próximo grande disco mas que sentem motivação acima de tudo para tocar a sua música! Às vezes chegam-nos ideias originais, noutras vezes ideias que são continuação de outras. Passei quatro anos afastado de tudo e todos e às vezes a sofrer! É preciso amar muito isto para aguentar. Por muito que o filme seja gigante nada nem ninguém compensa esses anos...

São as regras do cinema de animação.

A.S. - Mais vale estares a trabalhar em material pelo qual estejas apaixonado...Tem de ser uma história pela qual queiras mesmo estar envolvido pessoalmente.

E o que é incrível na Pixar é que até hoje nunca foi lançado um filme "defeituoso"...

A.S. - Sabe, em quatro anos temos tempo de sobra para detetar os problemas e estamos rodeados de colegas muito espertos.

Ou seja, quando um filme está com problemas há sempre alguém para ajudar a "endireitá-lo"...

L.C. - É o que esperamos!

A.S. - Na verdade, está sempre a acontecer.

Antes deste filme o Andrew tinha feito a sua estreia no cinema de imagem real com John Carter [2012]. Foi algo surreal voltar logo de seguida à animação digital?

A.S. - Sim e não. Explico: havia em John Carter mais planos animados do que em qualquer filme de animação, ou seja, sinto que nunca deixei a animação. Esse filme foram as minhas férias de seis meses em que pude ir brincar para o exterior com alguns atores. Seja como for, aprendemos sempre qualquer coisa com cada filme.

Também é interessante perceber que em relação a À Procura de Nemo (2003) não quiseram fazer uma revolução técnica, mesmo quando notamos a evolução qualitativa dos efeitos...

A.S. - Na Pixar nunca fazemos filmes a pensar nas inovações técnicas. A evolução técnica é apenas um benefício. As ideias sempre guiaram a tecnologia. Nunca quisemos inventar nova tecnologia para espantar o espectador.

L.C. - Os avanços técnicos permitem muito maior liberdade para um cineasta de animação.

Memento, de Christopher Nolan, já deve ter sido uma influência no primeiro filme, mas aqui sente-se ainda mais essa angústia.

L.C. - Sim, é um grande filme!

A.S. - Memento era também sobre o valor da nossa memória.

L.C. - Mas este nosso filme era muito complicado de construir ao nível da narrativa, por todas as razões, quanto mais não seja pelo drama da perda de memória deste peixe.