3,4 milhões para não esquecer Peniche, o "maior símbolo do sistema prisional fascista"

22 gabinetes de arquitetura concorrem ao projeto do Museu Nacional da Resistência e da Liberdade a instalar na antiga prisão política do Forte de Peniche

João Céu e Silva
Pelo Forte de Peniche passaram centenas de presos políticos no anterior regime © Rui Miguel Pedrosa/Globalimagens

Um ano é quanto falta para inaugurar o Museu Nacional da Resistência e da Liberdade na Fortaleza de Peniche. Foi esse o tempo anunciado pelo ministro da Cultura na cerimónia em que recebeu a sugestão de conteúdos elaborada por uma comissão de antigos presos e historiadores. 3,4 milhões é o custo da musealização do espaço da fortaleza, que será aberta ao público 45 anos depois do seu fecho enquanto prisão política, na madrugada do dia 27 de abril de 1974. Um local que as "novas gerações não devem esquecer".

O ministro Luís Filipe Castro Mendes considerou que o forte de Peniche trará um "turismo cultural muito importante" e que os números das visitas a este tipo de monumentos mostram que "existe um turismo especializado e que a visita a um Museu da Resistência e da Liberdade terá como é a visita a museus idênticos que há por esse mundo e lugares de memória, desde Auschwitz a outros. É também um ponto de atração para um turismo interessado na História e na memória, mas sobretudo tem um papel muito importante na educação e formação dos cidadãos."

Também Domingos Abrantes, ex-preso político e dirigente do Partido Comunista, considerou que o Forte de Peniche "não é uma cadeia qualquer, antes o maior símbolo do sistema prisional fascista". Recorde-se que desta fortaleza realizaram-se fugas impossíveis e que deixaram muito mal vista a PIDE e o governo de Salazar, como foi o caso de fugas individuais como a de Dias Lourenço ou a coletiva em que participou Álvaro Cunhal

O ministro explicou que a verba de três milhões faz parte do Orçamento de Estado e o restante virá de outros fundos. Este total destina-se às obras, já que a aquisição do espólio não está inscrita neste montante pois espera-se que seja oferecido pelos antigos presos e outras pessoas e entidades interessadas na preservação da memória da luta contra o anterior regime.

O anúncio foi feito no dia em que passam exatamente 44 anos sobre a libertação dos presos políticos que estavam no Forte de Peniche no dia 25 de Abril de 1974. Entre esses detidos encontrava-se Pedro Soares, que faz parte da comissão, que assistiu à declaração oficial de que o futuro Museu estava, finalmente, em marcha e com data para se inaugurado. As obras não ficarão concluídas na sua totalidade dentro de um ano, devendo a requalificação do edifício levar dois anos.

Existem 22 gabinetes de arquitetura candidatos ao processo, seguindo-se agora a apresentação do projeto final de musealização daquele espaço, onde irá surgir também uma parte dedicada à exploração turística. Uma convivência que o ministro espera ser pacífica e interessada. "Existe um turismo interessado na história de lugares como este e curiosos em conhecer o seu passado", justificou.

Entre os membros da comissão estavam também o ex-preso político Domingos Abrantes e Manuela Bernardino, mulher de José Bernardino, outro preso entretanto falecido. Questionados sobre a demora de 44 anos, ambos consideraram desnecessária pois desde 1976 que existia a intenção de transformar a fortaleza num espaço da memória da luta contra a repressão.

O ministro recordou que este anúncio decorre do Conselho de Ministros que se reuniu na Fortaleza de Peniche há um ano e que "tomou a importantíssima decisão de criar um Museu Nacional da Resistência e da Liberdade, no local simbólico onde antes existiu a tortura e a prisão". Perante os membros da comissão responsável pelo guião dos conteúdos a serem observados na instalação do museu, Castro Mendes frisou que existe "a ilusão de que as conquistas da civilização são perenes e que não haverá nunca passos atrás ou que o futuro será sempre melhor do que o passado; nada mais humano e nada mais errado porque a liberdade que conquistámos em Abril de 1974 necessita ser cuidada e para tal é preciso conhecer o passado e garantir que no futuro não se repete a opressão, nem mais cidadãos terão de resistir, por vezes com o sacrifício da sua própria vida, para que todos possamos viver numa sociedade tolerante, livre e culta". Pretende este guião que se conheçam, disse, os "mecanismos da ditadura e a luta que permitiu Abril".

Segundo o projeto, este museu irá ter ter onze espaços, dizendo o primeiro respeito à reprodução do Parlatório, que recorda as condições em que decorriam as visitas aos presos políticos, bem como a solidariedade da população de Peniche para com os presos - e as suas famílias. Os espaços seguintes serão um memorial da história da Fortaleza e dos que se sacrificaram pela liberdade. O espaço 6 trata do colonialismo e da guerra colonial, seguindo-se a história da resistência antifascista e anticolonialista. O 8 faz a história das fugas de presos políticos do sistema de repressão policial. Os três últimos evocam o 25 de Abril, a libertação dos presos políticos e como era a cadeia. Não faltará a Cela A. Cunhal, com testemunho do trabalho intelectual e artístico que o antigo dirigente do Partido Comunista realizou nesse cubículo.