"American Pastoral" não convence em Toronto

Talvez seja o primeiro grande falhanço de Toronto 2016. A estreia de Ewan McGregor nesta grande adaptação literária saiu ao lado

O lado menos efusivo do Festival de Toronto são os tiros em falso, os tais filmes para encher o mercado. Nos últimos dias têm chegado as primeiras desilusões: obras que chegam aqui com algum marketing e o chamado hype pré-Óscar e depois desiludem, como é o caso maior de Arrival - O Primeiro Encontro, de Denis Villeneuve, cuja estreia mundial aconteceu no Festival de Veneza. Mesmo sem consensualidade, esta espécie de Encontros Imediatos do Terceiro Grau com "benevolência" à Terrence Malick está a gerar o Oscar buzz para o prémio de melhor atriz, uma Amy Adams que, na verdade, é em Animais Noturnos (Leão de Prata em Veneza), de Tom Ford, que tem a interpretação mais subtil.

Seja como for, a primeira grande desilusão é a estreia de Ewan McGregor em American Pastoral, a sua adaptação do romance celebrado de Philip Roth. Para muitos será a prova de que a literatura de Roth não dá bom cinema - curiosamente, em Berlim foi vista uma adaptação mais feliz, a de Indignation, por parte também de um estreante, não um ator mas um produtor e argumentista, James Schamus.

Rodado com uma opulência que deixa adivinhar um orçamento grande, McGregor desperdiça a atmosfera cerrada do texto de Roth e refugia-se na cinematografia estilizada e na música exclamativa de Alexandre Desplat. Às vezes, até parece que está mais interessado em recriar a época, a América do final dos anos 1950 e 60, atrapalhando-se quando tem de encenar o confronto de uma sociedade em que a revolução poderia ser uma plástica ao rosto ou um atentado no posto dos correios. A história é contada a um escritor de sucesso, o relato de um desmantelar de uma família perfeita: um fabricante de luvas de pele de senhora que vê a filha problemática envolver-se nos protestos radicais contra a Guerra do Vietname.

McGregor interpreta o pai destroçado com uma puerilidade que parece fora do tom. Aliás, estruturalmente o filme está com os tons e registos dramáticos demasiado acentuados e quase a rondar o histerismo. O grande tema do fim da inocência americana é filmado com um simplismo que não é o de Roth. Ficamos a pensar que o ator de Trainspotting terá tido mais olhos do que barriga e falha precisamente na direção de atores. Sinceramente, não acreditamos na dor de Jennifer Connely e Dakota Fanning.

American Pastoral estará já fora da corrida dos prémios, sobretudo se avaliarmos pela reação fria na sessão de imprensa aqui no festival. Em Portugal tem já estreia assegurada pela Cinemundo.

Outra das desilusões chama-se Trespass Against Us, de Adam Smith, pequeno filme irlandês que só chegou a uma gala de Toronto pelo nome do seu protagonista, Michael Fassbender. Uma primeira obra sobre uma família de criminosos onde há tensão entre um dos patriarcas e um dos seus filhos. Material já muito batido e com uma realização que não ajuda. Smith vem dos videoclips e utiliza a partitura musical dos Chemical Brothers para ilustrar velozes perseguições de automóveis. Salva-se a boa cinegenia de Fassbender. Infelizmente, também já está adquirido para Portugal, tal como Carrie Pilby, de uma outra estreante, Susan Johnson. É cinema indie americano adocicado e com ganas de chegar ao grande público. Um conto sobre uma adolescente misantropa com QI monstruoso mas profundamente infeliz. Tem aquela fórmula de matiné teen perfeitamente dispensável. Nem Bel Powley, a protagonista que já conhecíamos do filme de Marielle Heller, O Diário de Uma Rapariga Adolescente, salva a coisa.

Apesar de nesta cidade a secção das curtas ter uma invisibilidade frustrante, Portugal está representado com A Brief History of Princess X, de Gabriel Abrantes, e Um Campo de Aviação, de Joana Pimenta. Ambas as curtas estiveram também em Locarno.

Em Toronto

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