Amadeo vai voltar a correr o mundo. Parte de Paris

A exposição "insólita" de Souza-Cardoso, que assinala os 50 anos da Fundação Calouste Gulbenkian em França, inaugura em abril de 2016 no Grand Palais

Se passearmos hoje pelas galerias do Grand Palais, nos Champs Elysées, Paris, encontramos muitas das obras maiores de Pablo Picasso. Compõem a exposição Picasso.mania. Até julho último, foram as do mestre Velázquez. A partir de 20 de abril e até 18 de julho de 2016, se passearmos por essas galerias havemos de nos deparar com Amadeo de Souza-Cardoso. "Quem?", perguntar-se-á, dentro e fora da capital francesa. É raríssimo que no cartaz às portas do Grand Palais não figure um nome sonante, que universal e imediatamente não devolva àqueles que com ele se deparam alguns dos seus icónicos trabalhos. Mas Amadeo de Souza-Cardoso já foi, mundo fora, um nome assim. Do homem que nasceu em Manhufe, Amarante, a 14 de novembro de 1887 e que chegou à capital francesa no próprio dia em que completou 19 anos, conta-se que ao entrar em casa dos artistas - e futuros amigos - Sonia e Robert Delaunay se apresentou dizendo: "Amadeo de Souza-Cardoso, pintor português."

Existem, pelo menos, duas pessoas que hoje trabalham para que a história da arte seja reescrita com o nome do modernista Amadeo. Um deles é o de Helena de Freitas, comissária da exposição retrospetiva Amadeo de Souza-Cardoso, no Grand Palais, inserida nas comemorações dos 50 anos da Fundação Calouste Gulbenkian em Paris. Outro nome é o de Cristophe ou Cristóvão Fonseca, cineasta luso-francês que prepara o filme a exibir por entre as 300 peças de Amadeo, ou com ele relacionadas, que povoarão aquelas galerias no próximo ano. Dali parte para as televisões de cerca de 180 países - Portugal incluído - como se espera que aconteça com o nome de Amadeo.

Retrato do pintor

O quadro que retorna cem anos depois

Há uma obra pela qual Cristóvão, de 38 anos, quarta geração da família em França, diz ter começado o filme sobre Amadeo. Avant la Corrida pode ser uma espécie de símbolo da trajetória do pintor e do que está em causa na exposição. "Peguei logo nessa história porque vi que a obra já tinha sido exposta no Grand Palais. Agora vai voltar, cem anos depois." Há ainda mais em torno dessa pintura que esteve desaparecida durante 80 anos e foi encontrada por Helena de Freitas e a sua equipa aquando da exposição Amadeo - Diálogo de Vanguardas, em 2006, na Fundação Gulbenkian, em Lisboa, a que hoje pertence. Avant la Corrida fez parte do histórico Armory Show na Nova Iorque de 1913, primeira grande mostra de arte moderna nos EUA. Se olharmos para o cartaz da mostra, entre Cézanne, Gauguin, Renoir ou Van Gogh lê-se: "Souza-Cardoso."

O que inaugurará em Paris, diz o realizador, será "um evento enorme. Expor ali o Amadeo vai ser... Não sei. Não tenho exemplos deste tipo. É insólito". Fazer o documentário foi uma luta. "Ninguém o conhece, é simples. Demorei quase um ano a convencer a televisão. Foi a única vez em que insisti tanto." Esta história pode ser contada por justaposição e é assim que dela vai falando Cristóvão, que viu o filme maioritariamente financiado pela France Télévisions e produzido pela Les Films de L"Odyssée, produtora que criou, e a Imagina, de que é sócio a par de Ruben Alves, autor do filme A Gaiola Dourada.

Fala ao telefone de Paris, onde vive, e onde ainda está a filmar. Já passou por Lisboa, Amarante, Nova Iorque e Chicago. Diz que, por um lado, Amadeo "tinha uma fama maior do que Modigliani [seu amigo próximo] na altura"; por outro, "hoje em dia, tirando Portugal, que só o reconheceu 40 ou 50 anos depois da morte dele, a nível internacional ninguém o conhece". Por um lado, "alguns críticos vão dizer que ele é a mais bela síntese de todos os movimentos da altura", ele, cuja "narrativa da vida é digna de um filme de cinema"; por outro, esse "filme" não voltou a sair de Portugal depois de Amadeo aqui morrer em 1918, aos 30 anos.

Peça em falta no puzzle da história

"Veio em 1914 para se casar [e casou, com Lúcia], mas não era para ficar. Aliás, na correspondência lê-se permanentemente o seu desejo: "Eu volto para Paris"." Helena de Freitas está de volta à Fundação Gulbenkian, em Lisboa. Acabara de regressar de Paris, onde vive temporariamente enquanto prepara a exposição Amadeo de Souza-Cardoso. "É insólito nos dias de hoje. Há um abismo entre o reconhecimento do Amadeo enquanto foi vivo, enquanto protagonista e ator no palco internacional, e o reconhecimento que a obra dele hoje tem."

Nos últimos anos da breve vida do pintor, conta a comissária da exposição, o seu "percurso é fulgurante". Mas ninguém o viu, porque ele estava em Amarante, onde o mundo não entrava. E mesmo a sua viúva só mostrou aqueles quadros alguns anos depois. "Passou tempo suficiente para a história da arte internacional ter sido escrita sem ele. Ele é uma peça que falta nesse puzzle da história." Esta pode ser reescrita a partir do próximo ano, quando estiverem expostas 300 peças, das quais 205 são obras de Amadeo, dez de artistas que lhe foram próximos, como Brancusi, Modigliani, Robert ou Sonia Delaunay, e a que acrescem ainda cartas e fotografias daquele homem "com uns olhos intensos e muito fortes que nos interpelam".

No final da conversa, Cristóvão, comentando o tom entusiasta com que até ali falou, lança: "A Helena de Freitas já me avisou: O problema é que quando pegas no Amadeo ele volta sempre à tua vida, de um lado ou de outro." Deve ser verdade, uma vez que, horas depois, a curadora que trabalha com Amadeo desde 87, quando era "uma jovem historiadora", conta que, para esta exposição, descobriram "alguns materiais inéditos, inclusivamente uma pequena obra que penso que será importante para olhar o trabalho de Amadeo". O pintor sabia o que tinha a fazer e quão bom era a fazê-lo. Como recorda Cristóvão, o próprio dizia: "Tenho destinos a cumprir." Na falta do artista, há pelo menos duas pessoas que o cumprem.

Pelas mãos da Gulbenkian, Portugal estará em marcha por Paris em 2016. A par de Amadeo, a exposição Les Universalistes. Architecture Portugaise 1965-2015, comissariada por Nuno Grande, mostra, de Siza Vieira a Pancho Guedes, a arquitetura nacional contemporânea na Cité de l"Architecture et du patrimoine, entre abril e agosto.

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