Álvaro Lapa na sua maior retrospetiva de sempre

Exposição com mais de 290 obras será inaugurada hoje à noite pelo ministro da Cultura e estará patente até 20 de maio. Em paralelo decorre um ciclo de artes performativas

Pintura, mas também desenho e até alguns raros objetos: a partir de hoje e até 20 de maio, Serralves abre portas ao universo de Álvaro Lapa (Évora, 1939- Porto, 2006), naquela que é a mais abrangente retrospetiva alguma vez feita sobre a sua carreira, juntando mais de 290 obras das mais de quatro décadas de produção artística.

"Entre a escrita de um pintor e a pintura de um escritor." João Ribas sintetiza desta forma a linguagem artística influenciadora e enigmática de Lapa, um dos grandes vultos da paisagem artística e intelectual portuguesa na segunda metade do século XX. O novo diretor de Serralves sublinha "a maior e mais completa retrospetiva" do artista, a primeira realizada depois da sua morte, como um grande momento no programa deste ano. Ribas sublinha o objetivo maior de "contar a importância da obra de Álvaro Lapa na arte portuguesa" e no intuito de transformar uma das alas do museu de arte contemporânea (na outra está instalada a exposição da italiana Marisa Merz, inaugurada em janeiro) "num espaço de encontro para as novas gerações de artistas".

Miguel von Hafe Pérez, comissário da exposição, destaca a abrangência desta retrospetiva: "Além das obras mais conhecidas, recuperámos algumas produções do início da carreira de Álvaro Lapa, em particular entre os anos de 1964 e 1968, e resgatámos também para esta exposição obras de colecionadores privados que há mais de 40 anos não estavam no espaço público, juntando quase 300 peças que representam os diferentes períodos da sua carreira ao longo de quase 50 anos."

Álvaro Lapa: No Tempo Todo reúne em Serralves obras de Lapa que estão dispersas por museus e coleções institucionais e privadas, incluindo algumas pertencentes a artistas, arquitetos e escritores. De acordo com o curador, "a obra de Lapa não é de acesso fácil, está longe das convenções. Não é uma obra que se autoexplique, pelo que nesta exposição encontramos uma forma de a entender na sua totalidade com abrangência cronológica", explicou Miguel von Hafe Pérez, ao longo de uma visita guiada em que se patentearam os diferentes períodos da carreira do artista: da influência da beat generation à interpretação artística dos universos de James Joyce, Franz Kafka ou Charles Baudelaire.

A par da exposição, que será inaugurada hoje às 22.00, pelo ministro da Cultura, Luís Filipe Castro Mendes, será realizado um ciclo de artes performativas. Entre 10 de fevereiro e 13 de maio, coincidindo com a exposição no museu, Serralves apresentará diferentes propostas de cinema, teatro, performances e pensamento, desde mesas-redondas a visitas orientadas, em que se perspetiva a associação da obra de Álvaro Lapa como inspiradora de outras artes e a influência que tem sob o ponto de vista estético e conceptual junto de outros pensadores, investigadores e artistas.

"Este ciclo é parte fundamental da exposição e salienta o papel de Lapa como artista extremamente influente, ainda que enigmático", argumenta João Ribas.

Para Ana Pinho, presidente do conselho de administração da Fundação de Serralves, esta exposição, que conta com o mecenato da Fundação EDP, cumpre o papel de "dar a conhecer um extraordinário artista a Portugal e ao mundo". Criativa, insubmissa, irónica até, a linguagem deste artista português, que durante mais de duas décadas, desde 1976, foi professor de Estética na Faculdade de Belas--Artes do Porto, continua viva em diferentes gerações.

Álvaro Lapa: No Tempo Todo

De 8 de fevereiro a 20 de maio

Museu de Serralves, no Porto

De segunda a sexta das 10 às 18.00, fins de semana até às 19.00

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