Almada já saiu da Terra, mas volta sempre vivo

Nasceu em São Tomé e morreu em Lisboa. Entre uma coisa e outra, correu quase todas as artes, e em todas foi moderno

O que Almada Negreiros (1893-1970) diz ao Diário de Notícias quando, em 1969, o homem chega pela primeira vez à lua é já um retrato de quem foi esse pintor, poeta, romancista, desenhista, vitralista, e outros tantos "istas". "Este espectáculo inédito tem o sabor da liberdade. Não é só a cosmonáutica que está de parabéns é também a poesia. Primeiro foi o sonho e agora já se pode sair daqui da Terra e voltar vivo. Bem sonhado e bem realizado o sonho de Ícaro e de Julio Verne."

Nascido na roça Saudade, em São Tomé, Almada cedo perde a mãe e, já em Portugal, passa toda a sua infância e começo da adolescência num colégio de jesuítas, ao lado do seu irmão António. Nesse colégio, em que o ele tinha livre trânsito para a biblioteca e um espaço para si, alguém, a propósito da peculiar fisionomia do seu rosto, perguntou-lhe: "Porque é que todos os rapazes têm olhos na cara e tu tens a cara nos olhos?!" O episódio foi contado à Notícias Magazine pelas suas netas Rita e Catarina, de um dos dois filhos de Almada com a pintora Sarah Affonso, com quem casou aos 40 anos.

Mas antes de ser pai e avô - consta que não tinha qualquer problema em trabalhar no meio da algazarra das crianças - Almada, que depois do liceu deixou de estudar, viveu em Paris entre 1919 e 1920 e, para seu sustento, trabalhou como bailarino de cabaré e como empregada numa fábrica que produzia velas. Passaria ainda por Madrid, entre 1927 e 1932. Mas é em Portugal que o "legítimo descobridor da novidade" - expressão com que o próprio definiu, numa conferência, o significado de ser moderno - deixa a sua marca profunda. Marca essa gravada ao longo das suas colaborações com a revista Orpheu, "casa" maior do modernismo português, a Futurista ou a Athena, gravada ao longo de cada palavra do seu Manifesto Anti-Dantas (1915), dos painéis do antigo edifício do DN, na Avenida da Liberdade, de vitrais como os da Igreja de Nossa Senhora de Fátima, em Lisboa, dos bailados que concebeu, dos pórticos da Universidade de Lisboa, das gares marítimas de Alcântara e da Rocha do Conde de Óbidos, das conferências que deu (a que mostra a fotografia em baixo era sobre Homero, no DN), do seu romance Nome de Guerra (1925), dos happenings que fez ou, claro, dos seus quadros, representem estes um saltimbanco ou uma mãe e uma criança.

Apesar de, durante o Estado Novo, ter exposto em mostras organizadas pelo Secretariado de Propaganda Nacional, de António Ferro, e trabalhado em várias obras públicas, Almada não foi um artista do regime. Participa, aliás, na Exposição dos Artistas Independentes, espécie de resposta ao Estado Novo, em 1936.

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