Aldina Duarte discute e canta o fado com a dona de casa e o informático

Fadista criou a Comunidade Fado para Todos, que às segundas-feiras se reúne no Museu do Fado. Projeto é para continuar

Não sabemos o que se esconde por detrás das portas por que passamos todos os dias. Podemos, todavia, achar fazer uma vaga ideia do que guardam as do Museu do Fado. Mas, ao passarmos pelo Largo do Chafariz de Dentro, Lisboa, às 18.30 de uma segunda-feira chuvosa, não haveria maneira de saber o que, subindo ao primeiro andar, se encontraria. Ouve-se a voz de Beatriz da Conceição cantar Meu Corpo, esse fado com que muitos a têm lembrado desde a sua morte, em novembro de 2015.

Sentados, quase imóveis, a escutar em absoluto silêncio, reúnem-se uma dona de casa, uma economista, um informático, uma professora, um chefe de vendas reformado, duas psicólogas, uma farmacêutica ou uma fadista: Aldina Duarte. Esta é a Comunidade Fado para Todos. Desde janeiro que, todas as segundas-feiras às 18.30, se reúnem naquele auditório.

Discutem fados e discutem gostos: há os partidários de Alfredo Marceneiro (é público o lugar dianteiro de Aldina neles), há os das fileiras da Amália, há de uns e de outros, de Carlos Ramos a Hermínia Silva. Atentam aos poemas, aos versos de Pedro Homem de Mello ou Ary dos Santos; lembram os fados tradicionais; respondem às perguntas sobre o silêncio na música ou a importância do intérprete em cada fado. Há um tema a que a Comunidade está por ora subordinado e que dita o que está em cima da mesa todas as segundas-feiras: o amor e o desamor.

Na primeira sessão, as pessoas entravam na sala e cumprimentavam Aldina. Muitos conheciam já a fadista das Oficinas Fado para Todos, que esta organizara ali mesmo, no museu. Muitos como Estrela, dona de casa que, quando é perguntado a cada um o que os trouxe a esta comunidade, responde: "A Aldina já me conhece um bocadinho, e sabe que para mim é a poesia." Há, depois, Ana Paula, psicóloga que lembra algo dito por Aldina nas oficinas que lhe "ficou": "A ideia de um poema se aguentar sozinho." Há Múcio, guitarrista brasileiro que faz um doutoramento em Fado; Teresa, atriz e cantora; e Ingrid, uma psicóloga colombiana que, numa visita a Portugal, se apaixonou pelo país, pelo fado e pelo homem que ali estava ao seu lado: Paulo, informático bancário.

"Todos temos de pôr lá a pele"

"Já tinha feito dois níveis das oficinas e achava que não era honesto fazer mais do que dois. Porque a partir dali o que têm de aprender será fazendo, e envolvendo-se quase profissionalmente com os fados", explica Aldina ao DN. Mas era preciso fazer alguma coisa.

Pensou numa comunidade, à semelhança das comunidades de leitores que existem. "Primeiro, porque ficávamos todos ao mesmo nível. Aqui, eu sou mais um membro e a única coisa que faço é orientar. Mas todos temos de lá pôr a pele e defender o que acreditamos, e ter capacidade e a convicção de usar aquele espaço e aquela arte como achamos que deve ser utilizada."

Numa das sessões, Múcio levou a guitarra, falou sobre o silêncio na música, e Aldina convocou quem cantava para a frente do auditório. Eram três raparigas: Teresa, Ângela e Liliana. De início, Liliana faz o exercício de mostrar o que significa entrar mal na música, fazendo--o de propósito. "É difícil fazer mal", diz. "É só atirar-se da bicicleta!", lança Aldina, que, a certa altura, lembra que a voz pode entrar "antes ou depois [do suposto] e não estar errada". "Então?!", devolve Graciosa, professora de Matemática no ensino superior.

Ouvimo-las depois cantar fados como Estranha Forma de Vida ou Amor de Mel, Amor de Fel com o máximo de silêncios possível - pedido de Aldina. Ouvimo-las deixar cair, aos poucos, o que está a mais relativamente ao que foi pedido. Os vícios que se ganham a cantar todos os dias numa casa de fados; a vergonha de poucas vezes se cantar em público, transposta para uma atitude de quem quase pede desculpa de cada vez que abre a boca para cantar; ou a preocupação de cantar bem, posta acima de cumprir o que foi pedido.

Tudo isso: fora. Fica a voz de cada uma, e a guitarra de Múcio. Não "acima do que se faz", mas "servindo aquela arte" do fado. Depois, também Aldina canta Estranha Forma de Vida, como quem fala, improvisando para mostrar que silêncio cabe naquele fado.

Numa outra sessão, voltamos a vê-los reunidos numa quase comunhão, ao escutarem o fado Rosa Enjeitada, cantado primeiro por Maria Teresa de Noronha e de seguida por Hermínia Silva. Discutiriam o que ouviram na sessão seguinte. "Uma das coisas lindíssimas para mim na comunidade é que nunca tinha ouvido um fado, do princípio ao fim, num grupo de desconhecidos. Aquilo ganhou para mim uma dimensão bastante sagrada. Lembrei-me de uma missa, de uma celebração... Não sei explicar. É muito bonito", nota Aldina Duarte. A comunidade dura dois meses: a 2 de maio começará outra. A mensalidade é de 50 euros na primeira vez e 20 a partir da terceira.

"Repare: estão ali pessoas que vão a correr do trabalho para ali. Não é brincadeira. E têm filhos e têm família. É lindo. Além de achar admirável, é muito respeitável, no mínimo. E pagam e vão..." Deles, Aldina já aprendeu uma coisa: a não deixar de aprofundar um fado só por não gostar dele primeiramente. "Graças a escolhas deles, de que não gostei muito, estava a perceber naquele momento: caramba, nunca tinha ouvido isto desta maneira. Fados que eu conheço há 20 anos, quase 30. Erro meu. Isso já aprendi. Acho que se só aprender isto já valeu para toda a vida."

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