África é um poderoso coro a chamar o futuro

Terminou ontem a décima edição do Kriol Jazz, na Cidade da Praia, onde atuaram os históricos grupos Bulimundo e Tubarões: oportuna ocasião para pensar o futuro da música no poderoso continente africano

Imagine-se um lugar onde um músico enche um estádio com 70 mil bilhetes comprados por pessoas que dificilmente os conseguem comprar e onde "tropa, a polícia, e médicos" têm de estar prontos a intervir a qualquer momento. Um lugar onde o edifício de uma rádio é praticamente invadido devido à presença de uma só pessoa; ou, ainda, onde um artista é responsável por um cortejo que "leva seis horas a percorrer dois ou três quilómetros", a cada metro rodeado de uma multidão que o celebra a ele, no topo de um jipe. "Qual é o político que tem isto?" pergunta José da Silva, conhecido por Djô da Silva, que foi o produtor de Cesária Évora. Não falávamos de presidentes nem de reis. Falávamos, sim, de como o continente africano reage à presença de jovens artistas como Soul Bang, com origem na Guiné Conacri, ou Davido, nigeriano. Artistas que Djô, que dirige a Sony Music da Costa do Marfim, representa.
Mas não é por acaso que a conversa surge em plena Cidade da Praia naquele que seria o último dia do Kriol Jazz, festival organizado por Djô da Silva, que terminou ontem a sua décima edição, e onde nem um bilhete sobrou, na sexta-feira, para ouvir Seu Jorge. Dias antes, ainda durante o Atlantic Music Expo (AME), evento que junta na Cidade da Praia produtores, músicos, e diretores de festivais de todo o mundo, José da Silva discutia numa conferência a distribuição musical em África.

"Por enquanto o YouTube é a plataforma mais importante, é muito visto em África. O problema é que não está monitorizado. Nós acreditamos mais nas plataformas locais neste momento. Um ponto importante é que as plataformas cheguem a acordo com as empresas de telecomunicações locais, que são um entrave, porque o custo do tráfego é super elevado. África pode voltar a ser um dos mercados mais importantes do mundo. Estamos a falar de milhões de smartphones, e de um povo que ama a música", afirmou Djô ao DN. Dia 5 de maio, a Muska, uma dessas plataformas, será lançada nos Cabo Verde Music Awards, neste país que entra nas contas apresentadas recentemente pela Deloitte, que prevê que em 2020 o continente africano tenho 660 milhões de utilizadores, mais do dobro dos 336 milhões que tinha em 2016.

Porque é que ouvimos, então, Binetou Sylla, que tomou conta da mítica editora do pai, Ibrahima Sory Sylla, que lançou músicos como Salif Keita ou Oumou Sangaré, dizer naquela conferência que pôs todo o seu catálogo disponível no YouTube, a plataforma mais acessível naquele continente. Veja-se que o Spotify só recentemente chegou a África, e apenas à África do Sul, a "Hollywood africana", dizia Djo Moupondo, do Congo, que dirige a editora Clique Musique. "É a diáspora que me permite viver. O meu catálogo é muito consumido, mas não ganho dinheiro com isso", afirmava, contundente, a presidente da Syllart Records.

Mas nem sempre os músicos e produtores africanos viveram das vendas na Europa e nos Estados Unidos e das digressões. "No tempo do vinil e da cassete, África dava muito dinheiro aos artistas. Eu conheci ainda artistas que vendiam centenas de milhares de discos de vinil em África, e sem se preocuparem com a Europa. A mudança do EP para o CD mudou completamente a economia, porque o CD pedia tecnologia diferente, que não havia em África, e tinha de ser importado da Europa. A fábrica de cassetes e de vinil continuaram a insistir mas o mercado caiu completamente", recorda Djô da Silva, que fará do acesso digital ao seu primeiro mercado, África, onde se continua a ouvir muita música em Cds pirateados, e onde a venda dos oficiais ainda representa cerca de 50% das receitas dos artistas, a sua batalha dos próximos tempos.

Em Cabo Verde, a diferença entre a taxa de utilização de smartphones na Cidade da Praia para, por exemplo, Pedra Badejo, a cerca de 35 km, é grande. Quando ali passamos, as crianças saem da escola, misturando-se com os comerciantes e com quem está apenas a passar e carrega no "r" para nos chamar "Turistas!". Um pouco mais abaixo está o pavilhão Bulimundo, onde o funaná nunca mais foi o mesmo. Foi ali que nasceu o mítico grupo de Katchás, que há uns anos regressou ao palco, e que na quinta-feira foi, com os Tubarões, homenageado no Kriol Jazz. Ebrantino Costa, um dos vocalistas dos Bulimundo, que integrou nos anos 90, conta como recentemente se arrepiou ao ouvir Silva recordar o momento em que o baixo daria o primeiro sinal daquele funaná elétrico nunca antes escutado. Katchás (1051-1988) terá dito então que se devia abrir uma garrafa de champanhe.

Quem nunca o vira antes haveria de se espantar com aquele afinadíssimo coro crioulo a cantar a sua própria história no concerto de quinta-feira: grupos de jovens de 20 anos e aqueles que tinham idade para ser seus avós cantavam sem nunca hesitar Tó Martins, ao lado da voz inconfundível de Zeca Di Nha Reinalda.

Só a polícia foi capaz de interromper aquele concerto que extravasava já a hora permitida legalmente e que nem o Presidente da República, Jorge Carlos Fonseca, na primeira fila, pôde prolongar. Dos Tubarões não chegámos a ouvir clássicos como Labanta Braço ou Djonsinho Cabral, canção em que o rapper Hélio Batalha, figura maior do rap crioulo atual, já atuou com o histórico grupo, que deu voz à luta pela liberdade e independência do país. "Nunca mais ninguém fez música como eles", afirma, sem hesitar, com a mesma convicção que um rapaz, à porta do Campo de Concentração do Tarrafal, nas casas habitadas por várias famílias, nos gritava: "Ronaldo é melhor que Messi, estás a ouvir? Ronaldo é melhor que Messi."

José, de 44 anos, taxista, ouviu o que dizia Hélio (cujo nome não fora preciso anunciar), e avisava que se ia meter na conversa: "Eles enchem o polivalente da Assomada [também na ilha de Santiago]. Até agora eu adoro aquela música. Ela belisca", diz numa expressão crioula. Hélio Batalha é também vice-presidente da associação cabo-verdiana de hip hop, que já promoveu ações para apresentar às crianças a música de intervenção e a luta política em Cabo Verde nos anos que antecederam o 25 de abril. E também o primeiro rap que ele fez seria de intervenção, marcando o passo até ao seu disco Karta d'Alforia (2016): "Denunciava as condições de saúde em Cabo Verde." O rapper, que em breve partirá para uma tournée pela Europa, cresceu com o hip hop de Valete ou dos NiggaPoison a sair do MP3, e Bulimundo, Tubarões, Lura, ou Mayra Andrade na rádio. No outro dia, recebeu uma mensagem de alguém que não conhecia a dizer: "Vou entrar agora na sala de operações e a última coisa que vou fazer e ouvir a tua música." Tê-lo-á feito no YouTube? No iTunes? Em CD? Depois acordou.

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Henrique Burnay

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O euro, o Erasmus, a paz. De cada vez que alguém quer defender a importância da Europa, aparece esta trilogia. Poder atravessar a fronteira sem trocar de moeda, ter a oportunidade de passar seis meses a estudar no estrangeiro (há muito que já não é só na União Europeia) e - para os que ainda se lembram de que houve guerras - a memória de que vivemos o mais longo período sem conflitos no continente europeu. Normalmente dizem isto e esperam que seja suficiente para que a plateia reconheça a maravilha da construção europeia e, caso não esteja já convertida, se renda ao projeto europeu. Se estes argumentos não chegam, conforme o país, invocam os fundos europeus e as autoestradas, a expansão do mercado interno ou a democracia. E pronto, já está.