Academia Sueca apoia Salman Rushdie 27 anos após condenação à morte pelo Irão

A instituição, que escolhe o prémio Nobel da Literatura, denunciou esta quinta-feira o decreto religioso islâmico ('fatwa') que condena à morte o autor dos "Versículos Satânicos"

A Academia Sueca, que escolhe o prémio Nobel da Literatura, denunciou hoje o decreto religioso islâmico (fatwa) que há mais de 27 anos condenou o escritor britânico Salman Rushdie, autor dos "Versículos Satânicos", à morte.

Num artigo publicado pelo diário Dagens Nyheter, o secretário da Academia, Tomas Riad, criticou "uma condenação à morte pronunciada para castigar uma criação literária".

"A independência da literatura relativamente ao controlo político é imperioso para a civilização e deve ser preservada dos ataques de partidários da vingança e da censura", escreveu.

A Academia decidiu tomar uma posição depois de a soma oferecida pelo homicídio de Rushdie ter sido aumentada no final de fevereiro último por cerca de 40 'media' iranianos, explicou Tomas Riad.

O linguista, de origem egípcia, condenou "um crime contra o direito internacional (...) incompatível com o processo de normalização" iniciado por Teerão e as potências ocidentais.

O autor, de origem indiana, tornou-se no inimigo dos muçulmanos fundamentalistas ao dar voz, nos Versículos Satânicos, a prostitutas que sonhavam ser as mulheres do profeta Maomé.

O ayatollah Ruhollah Khomeini, guia supremo da revolução islâmica iraniana, decretou a 14 de fevereiro de 1989 a fatwa que condenou à morte Rushdie.

A Academia não tem sido poupada pelas polémicas e muitos a acusam de esquecer o testamento de Alfred Nobel, criador dos prémios, que pretendia recompensar "o idealismo".

O francês Louis-Ferdinand Céline, sancionado pelos escritos antissemitas, e o argentino Jorge Luis Borges, criticado pelas relações ambíguas com as ditaduras sul-americanas, encontram-se entre os grandes nomes esquecidos pelo Nobel.

As últimas controvérsias datam de 2012 com a atribuição do prémio ao chinês Mo Yan, que os críticos acusam de ser muito benevolente com Pequim, e no ano passado com a escolha da bielorrussa Svetlana Alexievitch, que não deixou de denunciar o "belicismo e nacionalismo" da Rússia.

"Os académicos suecos afirmaram frequentemente não prestar atenção à política, à religião, à idade ou ao sexo dos laureados", afirmou o jornalista Antoine Jacob, autor de "História do prémio Nobel".

"Mas, quer queiram, quer não, desde o primeiro prémio em 1901, certas decisões obedecem também a outros critérios além da literatura: correntes ideológicas, convicções pessoais e, até mesmo, relações de amizade", disse à agência noticiosa France Presse (AFP).

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