Aaron Sorkin vai adaptar 'Mataram a Cotovia' para a Broadway

O clássico de Harper Lee, que lhe valeu um prémio Pulitzer, já tinha sido adaptado ao cinema, dando a Gregory Peck um Óscar. Agora, a estreia do musical está prevista para a temporada de 2017-18

To Kill A Mocking Bird (Mataram a Cotovia) é o clássico publicado em 1960 que valeu à escritora americana Harper Lee o Prémio Pulitzer. Desde então, 40 milhões de cópias foram vendidas em todo o mundo.

Lee, de quem no ano passado foi publicado a sequela da Cotovia, Go Set A Watchman (Vai e Põe Uma Sentinela), figura esquiva, praticamente desaparecida dos holofotes da História, viu, em 1962, o seu livro adaptado ao cinema por Robert Mulligan.

Gregory Peck, que representava Atticus - o pai de Scout, a rapariga que conta a história - venceu o Óscar naquele papel que lhe ficaria para sempre associado.

Agora, Mataram a Cotovia será um musical da Broadway. Previsto para a temporada de 2017-18, os direitos para adaptação do livro já foram comprados pelo produtor Scott Rudin. A adaptação do texto será feita por Aaron Sorkin, que colaborou com Rodin em filmes como The Social Network (A Rede Social), Moneyball ou Steve Jobs.

Apontando a obra de Harper Lee como "uma das mais veneradas obras da literatura americana do século XX", Sorkin, o guionista, produtor e dramaturgo que conta com séries como The West Wing ou The Newsroom no currículo, afirmou ao New York Times : "Não sou equivalente a Harper Lee. Ninguém é."

Aaron Sorkin

Barlett Sher, que será o encenador do musical da Broadway, sediada em Nova Iorque, considera que "O diálogo entre Harper Lee e Aaron Sorkin será interessante". O encenador, vencedor de um prémio Tony - a mais alta distinção no mundo dos musicais -, referia "as questões culturais, políticas e sociais" do livro e a afinidade que Sorkin tem com estas.

A adaptação de Sorkin tomará liberdades

A produção de palco levada a cabo por Rudin não será, todavia, a primeira. A adaptação ao teatro assinada por Christopher Sergel há muito que corre os palcos de escolas e teatros dos EUA. A encenação é quase obrigatória em Monroeville, Alabama, terra natal de Lee.

Ela que, hoje com 89 anos, criou a pequena produtora Mockingbird Company, sem fins lucrativos, para produzir todos os anos a peça naquela pequena cidade americana.

Fê-lo com a sua advogada Tonja B. Carter, responsável pelo espólio de Lee desde que a sua irmã morreu, e que no ano passado trouxe a público a obra que Nelle (como é tratada pelos que lhe são próximos) escreveu antes da Cotovia, Vai e Põe Uma Sentinela. Surgiu então uma polémica em torno da livre vontade, ou não, de Lee, que está praticamente cega e surda, depois de ter sofrido em 2007 um AVC, em publicar a obra.

O agente literário da escritora, Andrew Nurnberg, dá conta da relutância de Lee na venda dos direitos de adaptação ao palco, e de que esta "finalmente decidiu que Scott [Rudin] seria a pessoa ideal para agarrar isto".

Sorkin: É blasfemo, mas terei de assumir o controlo

Após meses de negociação, o projeto vai para a frente e está autorizado a subir ao palco da Broadway assim como de teatros profissionais pelos EUA, Reino Unido e mundo fora.

Ao contrário da adaptação de Christopher Sergel, bastante fidedigna ao livro, a de Sorkin tomará outras liberdades, e incluirá novos diálogos e o desenvolvimento de cenas passageiras no livro. "Não se pode embrulhar o original em plástico de bolhas [Bubble Wrap no original] e movê-lo de forma tão delicada quanto possível para o palco. É blasfemo dizê-lo, mas terei de assumir o controlo."

O regresso das questões raciais

Aquele que será o mais recente regresso a Mataram a Cotovia poderá ser relevante na atual conjuntura do regresso das tensões raciais aos EUA, que estão no centro da obra de Lee, onde um homem negro é injustamente condenado à morte. O assassinato dos afro-americanos Eric Garner, em Nova Iorque, e de Michael Brown, em Ferguson, pela polícia, em julho e agosto de 2014, foram seguidos por fortes protestos e confrontos por todo o país.

O mesmo aconteceu em Baltimore, com Freddie Gray ou Walter Scott, em Charleston, ambas em abril de 2015. Black Lives Matter, movimento ativista, foi a hashtag (usada 9 milhões de vezes em 2015) contra a violência policial dirigida à população negra.

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