A voz livre de Maria João abre o Música em Leiria

Começa hoje uma série de espetáculos que até 20 de abril inclui um concerto de Ute Lemper ou uma antestreia de Olga Roriz

Nuno Côrte-Real telefonou a Maria João e disse-lhe que já tinha os poemas de José Luís Peixoto que queria musicar para a sua voz, inspirada nela. "E perguntou-me se eu aceitava. Eu disse logo que sim. Gostei logo dele", recorda, ao telefone, Maria João, que hoje às 21.30 sobe ao palco do Teatro José Lúcio da Silva, em Leiria, com os versos de Peixoto na voz e Côrte-Real a dirigir os doze músicos do Ensemble Darcos à sua frente. É assim, com o ciclo de canções Agora Muda Tudo, que começará a 36.ª edição do Festival Música em Leiria, que se estende até 20 de abril neste ano em que, ao contrário dos anteriores, não acontece em junho.

Para Côrte-Real a premissa para Agora Muda Tudo - espetáculo que se estreou em 2017 para assinalar uma década de Temporada Darcos, entre Lisboa e Torres Vedras, de que é diretor artístico - era "de liberdade, algo selvagem: não estar preso, ser livre. E depois como elemento unificador estava a Maria João, a voz, e a maneira de ela ser artisticamente, uma espécie de musa", diz o maestro e compositor que trabalhou esses poemas vindos de Peixoto, habituado à escrita de canções pelo trabalho com os Moonspell, A Naifa, ou com o próprio Côrte-Real no intermezzo O Velório de Cláudio.

"Esses textos têm características especiais, e têm de seguir certas regras de métrica, de rima, certos constrangimentos para serem mais cantáveis, digamos assim. Neste caso eu ignorei todos esses constrangimentos e escrevi textos que às vezes têm ritmos que não são os mais óbvios, o que fez com que, quando levaram o trabalho do Nuno e da Maria João por cima, ganhassem novas dimensões e novas formas", explica o escritor. O concerto de hoje será a quarta vez que Agora Muda Tudo sobe a palco antes de vir a ser um disco.

O nome da obra vem de um dos poemas. "Pode-se puxar isto para todos os lados: artístico, humano, político. Há ali uma fusão de muitos estilos e de muitas coisas. Há passagens que são de música contemporânea, dissonante, há outras que têm a ver mais com o jazz, há umas melodias que têm um certo tom popular", explica o compositor. Maria João prefere dizer pouco sobre a peça. "Não gosto de explicar tudo às pessoas, porque elas depois tornam-se preguiçosas e são influenciadas. Cada pessoa entende a música à sua maneira." Então ficámos assim: "É música contemporânea cantada por uma cantora de jazz e de música improvisadas com poesia maravilhosa de um autor absolutamente inspirado. O resultado é sempre uma surpresa, até para nós."

O dia 14 de abril será de Olga Roriz, que leva a Leiria a antestreia de A meio da noite, peça em homenagem ao realizador Ingmar Bergman, de cujo nascimento este ano se comemoram cem anos.

António Vassalo Lourenço, o diretor artístico do festival que, no dia 24 de março, dirige o Requiem de Verdi pela Orquestra Filarmonia da Beiras e o Coro do Departamento de Comunicação e Arte da Universidade de Aveiro, explica que nos últimos anos o festival, "mantendo a linha de um festival de música clássica, erudita, abriu-se a cruzamentos com outras linguagens". E dá exemplos nesta edição: de Furum Fum Fum, no dia 4 de abril, que traz o choro brasileiro ao clarinete de Nuno Pinto, ao Sousafone de Sérgio Carolino, e à Percussão de Jorge Queijo, à cantata Ketevan, composição de Vasco Negreiros que se estreia na igreja de São Francisco, misturando instrumentos indianos e ocidentais e a voz de Rupesh Gawas, cantor hindustânico, às do coro do Orfeão de Leiria.

A voz da alemã Uti Lemper fecha, a 20 de abril, o festival.

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