A vida de livreiro nestes tempos em que "os gestores da gillette vieram gerir editoras"

Alguns pertencem "àquela geração que acha que o pequeno é bonito", outros não encontraram a livraria para todos e construíram-na. Sete pequenos e médios livreiros na era das grandes escalas.

Se desenhássemos estes livreiros e seus leitores teríamos Lisboa como fundo. Trace-se José Antunes Ribeiro na Avenida do Uruguai, em Benfica, numa cave onde os livros fazem a vez das paredes e do chão. No andar de cima a sua mulher Lúcia a limpar com toalhitas para bebés os novos livros velhos que chegam, como aqueles que uma vez apareceram à porta às cinco da manhã em caixotes - "são benfeitores anónimos" diz José - ou aqueles de "gente que vai emigrar". O gato Salvador a dormir numa cadeira de escritório. Pintem-se 45 anos de história naquele espaço onde tocaram Zeca Afonso e Carlos Parede, Mário Viegas recitou poesia e Natália Correia terá fumado o seu cigarro. E mostrem-se, hoje, os leilões diários que José faz no Facebook e que salvam as contas.

"Nunca é fácil conciliar os sonhos - que são os livros - com a realidade - pagar a renda, água, luz", diz José num tom pausado. Garante que "há mais gente a ler do que se diz, mesmo entre os jovens". Fala de um bibliotecário, 24 anos, do Algarve, cliente habitual dos leilões. Como fala do fenómeno daqueles que andam à procura de um "livro que leram em miúdos e gostaram muito e não sabem sequer o título ou o autor. "É um livro que tratava de não sei quê, e tal"". Imita-os num riso rasgado. José e Lúcia não saem dali antes da uma da manhã. "Só me falta dormir aqui", diz ele. Culpa, sobretudo, dos leilões, que já ultrapassaram uma centena.

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