A vida dava um filme e os bilhetes deram uma maravilha

Apontamentos, diário, cartas e bilhetes, desenhos, fragmentos dos dias de prisão (Luanda e Tarrafal, 1962-1972). Emocionantes pequenas notas, servidas em cálices luminosos

Luandino Vieira (nome real: José Mateus da Graça) vivia em Luanda numa casa que partilhava com Adolfo Maria, na Rua dos Enganos, travessa que ia dar a um largo com a estátua duma guerreira. O monumento celebrava os combates da I Guerra Mundial que tinham garantido, contra os alemães, a fronteira sul de Angola. Os luandenses chamavam Maria da Fonte ao largo e os mais velhos sabiam que houve ali uma lagoa de kiandas, sereias. Num dia de 1959, os tempos modernos entraram pelo n.º 1 da Rua dos Enganos: o inspetor da PIDE Francisco Lontrão prendeu os jovens, tinham ambos 24 anos, meteu-os no Processo dos 50, miríade de grupinhos que faziam panfletos nacionalistas. Exemplo de ação: uma folha datilografada enviada a Eleanora Roosevelt, viúva do presidente americano. Depois, em fevereiro de 1961, veio a luta armada e os dois brancos nacionalistas foram com o seu destino. Adolfo Maria partiu para Argel, juntar-se ao MPLA, e o companheiro foi outra vez preso. É disto, a vida do preso Luandino Vieira, que aqui se vai falar.

Em novembro de 1961, Luandino estava em Lisboa, pedira um passaporte para uma ida profissional a Londres (ou talvez não). Deixou a mulher, Linda, e o filho de 4 meses no café Rialva, na Duque d'Ávila, foi à sede da PIDE, perto do Chiado, mas demoraram a atendê-lo. Ele até esteve para ir embora, mas esperou, atenderam-no e prenderam-no. Voltou detido para Luanda, ficaria preso em várias cadeias da cidade e, a partir de 1964, no Campo de Trabalho do Tarrafal, em Cabo Verde. Em 1972 foi colocado com residência fixa em Lisboa. O livro que foi nesta semana lançado é volumoso, tem 1086 páginas, intitula-se o que é, Papéis da Prisão, são apontamentos, diário, correspondência e desenhos dos tempos de prisão do maior escritor angolano. E também isto: é grande.

É um documento, um testemunho, a ilustração de um tempo extraordinário e dramático contado por um artista maior. E contado pela forma perfeita. Luandino estava a aprimorar o escritor que era e precisava - é doloroso o que se vai dizer, mas foi assim - de passar pela escola de vida condensada que são as prisões. Por causa das gentes com que durante três anos se cruzou no Pavilhão Prisional da PIDE e na cadeia da PSP, em Luanda, escreveu, aí, as histórias do Luuanda, e, no Tarrafal, quatro obras, dos contos de No Antigamente, na Vida ao romance Nós, os do Makulusu. Mas isso são as consequências. Ora o Papéis da Prisão é o processo como o escritor se constrói. E nos oferece - connosco indecentemente maravilhados, a debicá-los, como se fossem pitangas maduras - cada um dos papéis, pequenos fragmentos, estrelinhas luminosas.

O livro começa a 10 de outubro de 1962, quase um ano depois da detenção em Lisboa, na cadeia da polícia política, o Pavilhão da PIDE, em São Paulo. Luandino já deixara de ser interrogado, pôde dedicar-se ao seu destino de não esquecer. Olhar, para contar. Sabendo nós que ele o faz de forma clandestina, na escrita, no processo de esconder na cela e encontrar forma de os textos saírem da prisão. No início, ele não encontrou logo o registo certo, é o militante, deitando para o papel as denúncias que ouve do povo preso. Alinha-as e dá pistas. Sobre os abusos feitos por uma companhia de açúcar aos camponeses: "Em Catumbela, há um indivíduo chamado Nápoles que conhece os pormenores..." Denuncia os interrogatórios, sobretudo os do Lontrão, antigo falangista na Guerra Civil espanhola, que chegam à morte de homem. Morre-se de testículos rebentados e cala-se a dor com canções. E há presos que endoidaram e fazem relatos pelos corredores e recreio como se fossem locutores da Emissora Oficial.

Desse universo concentracionário - tolhido de espaço e com todo o tempo do mundo - começa a surgir o escritor. De um valente, "há cinco meses a levar porrada e nem uma palavra", um kikongo, homem do Norte, que foi autorizado a ter, enfim, a visita da mulher, nova, baixa e forte: "Fazia impressão aquelas visitas em que ambos se olhavam durante meia hora sem dizer uma palavra." Fragmento. Papel. Centelha. Em Papéis da Prisão há por vezes três assim, por página.

Luandino tenta melhorar o seu quimbundo, a língua de Luanda e da região que a circunda até Malanje, de que sabia só o trivial de miúdo vizinho dos musseques. Mas aprende também a linguagem localíssima dos presos. "Já fui na justiça", é ir ao interrogatório. "Só falta receber a pena", é, sem tribunais, saber a cadeia a que vai destinado. Chegam velhos camponeses de Beça Monteiro, terras cafeeiras do Norte, e que dão a resposta errada. Profissão? "Trabalhar com catana." Não é dizer que é trabalhador agrícola, é confessar-se terrorista...

O jovem branco militante convive com tocoístas (religiosos), pescadores da Samba, um denunciado pelo patrão ("ele pôs-me um falso"), brancos traficantes, um camponês da Kibala que inventa canções em que tenta enganar uma rapariga sem pagar o dote ao pai, um guarda negro, o 121, que apesar de ser funcionário da PSP é usado como criado até por presos, e líderes como o poeta António Jacinto, também branco e um dos pais do nacionalismo angolano (irá para o Tarrafal com Luandino e vai ser o primeiro ministro angolano da Cultura)... E Pedro, um dos presos que distribuem comida. Uma manhã, este, lembrando a família, diz-lhe: "Todas as noites quando durmo estou a chorar." Luandino, que recebe a visita da mulher Linda e do filho, diz-lhe: "É o mesmo comigo." E Pedro: "Eu vi ontem, e gostei muito."

Chegam novas levas de presos. Um grupo de estudantes do secundário, apanhados quando iam para o Congo a pé. A prisão apura o ouvido para saber quem falou e quem aguenta. No tempo de interrogatórios, os novatos não são misturados. Um dia, por imprevidência do 121 uma porta abriu-se sobre o recreio e lá estavam os miúdos estudantes. Eles olhavam para Luandino, já um mito (o pai de um deles, já tinha morrido na prisão, em 1959), e o escritor olhava-os. Em silêncio. Se isto não é um filme...

Um dia entrou um casal jovem, que o diz-que-disse entre os presos descobre que não sabem, ele dela e ela dele, que o outro está preso. Ela está numa cela isolada e Luandino aconselha o homem a cantar, para ela lhe reconhecer a voz. O homem, durante a noite, canta a Brave Margot, uma canção de Georges Brassens, marota, sobre uma camponesa que dá o seu leite a um cordeiro e aldeia espreita - janeiro de 1963, na prisão da Pide, Luanda. A jovem presa é atriz de cinema, fizera o filme D. Roberto, com Raul Solnado e chama-se Clara. No pavilhão, um grupo de quatro tunisinos mercenários apanhados a entrar pelo Leste de Angola, vindos do Katanga. Raul, um dos pides, com ar de quem sabe, informa os outros presos que se trata de "marceneiros tuninos." Outro pide, o Caxias, cultiva um craveiro e oferece ao inspetor Alves, para ele levar à mulher, "a dona Luisinha", um ramo de cravos. Em 1963, 11 anos antes do gesto ser uma ironia. De outra vez, chega um preso novo para a cela C, um alferes. Este manda-lhe um bilhete: "Eu também escrevo. O meu nome é Alegre." Manuel Alegre, sete dias depois de interrogatórios.

E sempre a espera das visitas de K. ou L., as iniciais com que Luandino trata Linda, o seu amor. Um dia ela diz-lhe que preencheu um talão do Totobola. Ele escreve: "Fiquei triste por não comparticipar nesse ato da K." Entretanto, ele obriga-se a fazer um conto por mês e o incentivo é a cara da Linda quando o esconder para o levar para fora da prisão. Um dia, 25 de janeiro de 1963, ele apontou: "Vou pôr a história da galinha e do ovo." E acrescentou: "Mais nada." Tinha começado Luuanda, o livro maior da literatura angolana.

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