A verdadeira festa do cinema francês com Tavernier

"Uma Viagem ao Cinema Francês" com Bertrand Tavernier chega quinta aos cinemas e é um dos acontecimentos deste verão.

Não importa se Bertrand Tavernier foi ou ainda é um cineasta que fez história no cinema francês. Há quem o acuse de partidário do "cinema de papa", mas também é impossível não ir ao céu com o seu A Filha de D"Artagnan (1994), hora mágica dos prazeres da matiné de aventuras. Uma coisa é certa com este seu documentário: o homem é um excelente contador de histórias de cinema. Fá-lo com paixão, com um olhar nada psicologizante e, ainda para mais, narra o seu olhar pessoal com uma ternura que contagia.

O que nos diz sobre os seus heróis, de Becker a Claude Sautet, passando por Renoir a Carné, não cabe na máxima "os gostos não se discutem". Não, nas palavras e nas teses deste cineasta os gostos cinéfilos discutem-se e mudam. Não é por acaso que o impacto deste ato (qual carta!) de amor ao cinema francês antes da Nouvelle Vague tenha ajudado a valorizar mais a arte e estatuto de nomes como precisamente Becker ou Julien Duvivier.

Ao mesmo tempo, é um filme também sobre o próprio Tavernier e a sua formação como cinéfilo, crítico e, depois, cineasta. Percebe-se o seu encanto como aprendiz, sobretudo na evocação a Melville. Tudo isto numa montagem subsume de uma voracidade de encantos com as imagens. Como se a história de amor dele com o cinema se fundisse com a própria história do cinema francês. A máxima da nossa cinefilia acabar por nos deixar nus perante a nossa essência aplica-se aqui de forma afetuosa, terna até. E já que se menciona afeições, o retrato que faz do ator Jean Gabin é de uma emoção transbordante... Que lindo seria alguém um dia fizesse o mesmo nos EUA com Robert Mitchum...

Para além de tudo isso, há histórias do seu cofre pessoal. Tavernier viveu perto dos plateaux, privou também com alguns dos seus mestres. E é encantador esse lado de partilha, na maior parte das vezes para além da mera curiosidade, como é o caso da revelação de como os colaboradores de Carné não o respeitavam...

Se entrarmos nesta boleia é bem certo que estamos também a entrar numa dimensão sagrada da experiência cinéfila. O território é marcadamente da homenagem, mas não uma homenagem em bicos de pés. O filme é suficientemente caloroso para evitar armadilhas de museu de cera - tudo aqui está vivo e bem vivo. A paixão tem destas coisas... Tavernier evoca apenas com prazer de paixão, quase sempre sem sombra de pecado de fórmula de série documental televisiva. Na essência, isto não é um documentário, é outra coisa, algo mais próximo de uma masterclasse gentil. Tavernier é, temos de repetir, um grande, um imenso contador de histórias de cinema!

Quem aderir a esta "festa" terá (e vai sentir-se tentado) a olhar para os heróis de Tavernier de outra forma. Por exemplo, descobrir onde Claude Sautet esteve à frente do seu tempo (para Tavernier nunca foi um cineasta burguês...). E que enternecedor é o modo como prova a modernidade do autor de Um Coração no Inverno (1992)...

O impacto deste documentário acessível a um público não necessariamente cinéfilo (qualquer relato de filiação tem sempre uma abertura por ordem da prática da curiosidade...) é ter feito muita gente descobrir esse cinema francês que estava coberto de poeira, o cinema feito nos anos 1940 e 50 e que foi patinho feio dos críticos franceses que mais tarde se tornaram nos cineastas estrelas da Nouvelle Vague. O próprio Quentin Tarantino dissecou esta viagem de três horas e dez minutos, ele também cineasta-enciclopédia cinéfila. Mas Tavernier não tem uma linguagem de cinema enciclopédico. Fala dos filmes, dos seus autores e atores com amor, com paixão extremada. Talvez seja justo dizer-se que finta as básicas descrições de voz-off por cima dos excertos das obras com pontuações exclamativas, silêncios reveladores e desvios deliciosos sobre os bastidores e as condutas dos artistas. Tudo o que Martin Scorsese não fez em 1999, no documentário pouco íntimo Martin Scorsese -A Minha Viagem a Itália, onde era mais sublimado o "conhecimento" cinéfilo, neste caso sobre os mestres italianos.

Em Cannes, na edição do ano passado, Tavernier e esta sua masterclasse de reposição de justiça cinéfila, passou tudo menos despercebida. O filme ganhou uma admiração improvável e em França tornou-se acontecimento, sendo depois coqueluche em festivais por todo o mundo (por cá passou na Festa do Cinema Francês numa sessão concorrida na Cinemateca). Segredo de tanto "ai Jesus"? Estas imagens tocam-nos, enchem-nos de felicidade e deixam-nos comovidos. É um cinema do passado que não está com bafio e que apetece redescobrir ou ver pela primeira vez.

Em outubro que vem, as pesquisas do senhor Tavernier continuam, mas a Viagem só vai parar à televisão. Bertrand Tavernier tem uma série pronta com outros heróis do cinema francês que não pode ser esquecido.

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