A Sala do Veado nasceu das cinzas há 25 anos. Esta é a última exposição

Era uma morte anunciada a do espaço por onde passaram 297 artistas. Adriana Molder fecha a porta com a exposição Quarto Escuro

No Museu Nacional de História Natural e da Ciência (MNHNC), em Lisboa, depois de passarmos pelos dinossauros chegamos a uma sala cujas paredes e teto são de betão. Há andaimes, tintas e uma mochila no chão. As telas de Adriana Molder estão já penduradas. É a Sala do Veado. O seu nome vem do esqueleto de um cervídeo gigante, o Megaloceros giganteus, espécie extinta há 12 mil anos, que ali estava naquela sala antes do incêndio que deflagrou no museu em 1978. O nome ficou.

A Sala do Veado antes do incêndio de 18 de março de 1978

Em julho de 1990, uma jovem chamada Fernanda Fragateiro foi ter com o então diretor do museu, A. M. Galopim de Carvalho, para lhe perguntar se podia expor naquela sala. Ele acedeu. Foi a primeira exposição daquela artista.

Passaram-se 25 anos. Ela é hoje uma artista conceituada com um vasto histórico internacional. A sala recebeu desde então outros 296 artistas, dos quais Adriana Molder é a última.

Ana Vidigal ou Joana Vasconcelos

Com Quarto Escuro principia hoje o início do fim daquela sala que fechará as suas portas em janeiro, quando as grandes telas de Molder descerem das paredes por onde também já o pai desta, Jorge Molder, passou, a par de outros artistas como Ana Vidigal, Alexandre Estrela, Carlos Nogueira, Fernando Calhau, Joana Vasconcelos, Miguel Branco ou Vasco Araújo.

O fecho da sala foi uma decisão da atual direção do MNHNC. Num comunicado divulgado em fevereiro deste ano, o diretor dos museus da Universidade de Lisboa, José Pedro Sousa Dias, explica que aquela sala, que "tem funcionado como uma galeria de arte, alugada mensalmente a artistas, sob a responsabilidade de um técnico interno", levanta por isso "questões de natureza ética e técnica" e "não encontra nenhuma justificação cabal no âmbito da missão" do museu.

Quarto de crianças ou de castigo

Quarto Escuro significa "muitas coisas", explica Adriana Molder, nascida em 1975, filha do também artista Jorge e da professora de Filosofia, hoje jubilada, Maria Filomena Molder. "É um jogo da infância, é um quarto de castigo, pode ser um quarto para encontros sexuais, tem uma série de definições. Eu gosto que os meus trabalhos estejam um bocado na escuridão para o espetador. Nem tem que ver com a iluminação, tem que ver com esse encontro. Se tu tiveres tempo para olhares para os meus retratos, vais encontrar imensas coisas", diz. Todavia, a par do tempo que neles nos demoramos, também a parca iluminação daquela sala, de si mesma escura, ajuda.

É como se já conhecêssemos aqueles rostos em grandes telas - pelas quais há três anos trocou o papel esquisso habitual na sua obra. Têm a mão e o traço de Adriana. Vêm de duas séries diferentes, Aventura Invisível (2014/2015) e Banho de Sangue (2013/2014), "uma série um bocadinho agressiva e violenta que tem como base um livro do Jorge de Sena, que é o Físico Prodigioso, e muitas coisas do cinema", como é costume da artista que vive entre Lisboa e Berlim.

Há, naqueles rostos que Adriana pinta no chão para depois pendurar na vertical, tons vermelhos cálidos entrosados num teatral preto e branco e, noutras telas, azuis gelados entrecortados por bocas enrubescidas.

A "luta" de trabalhar nesta sala

Adriana Molder e Sofia Marçal na Sala do Veado, onde está patente a exposição da primeira

"Acho que é uma luta trabalhar num espaço destes, porque é um espaço que fica bem sem nada. E é um espaço que conheço há tantos anos, já vi tantas coisas aqui...", nota Adriana que - filha de fotógrafo - ao posar comentava a luz e as sombras da fotografia. Foi enquanto nos afastávamos para encontrar Sofia Marçal, responsável, desde 2008, pela sala que já chegou a contar uma lista de espera de três anos para exposições.

"São os artistas que montam as próprias exposições. Sobem aos andaimes, pregam os pregos, fazem o que tem de ser feito", diz Sofia, museóloga que, a par da direção da sala, está a fazer um doutoramento em Belas Artes, curadoria, justamente sobre a Sala do Veado. "Acho que a arte contemporânea pode ajudar imenso os museus de história natural a compreender as suas coleções e a questioná-las. Não foi tanto o papel desta sala, embora haja sempre diálogo dos artistas com o museu", nota.

Exposição de Miguel Branco na Sala do Veado entre maio e junho de 2015

Sofia continua a trabalhar. Aliás, à saída cruzamo-nos com Vasco Araújo, que tem frequentado o MNHNC como preparação para um trabalho que, em 2017, estará ao longo de muitas das alas do museu, num diálogo do artista com este.

"Fecha a sala, mas a ideia fica", lança Sofia, que diz sempre ter pensado na Sala do Veado como algo que "nasceu das cinzas" daquele incêndio de 18 de março de 1978.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Daniel Deusdado

Começar pelas portagens no centro nas cidades

É fácil falar a favor dos "pobres", difícil é mudar os nossos hábitos. Os cidadãos das grandes cidades têm na mão ferramentas simples para mudar este sistema, mas não as usam. Vejamos a seguinte conta: cada euro que um português coloca num transporte público vale por dois. Esse euro diminui o astronómico défice das empresas de transporte público. Esse mesmo euro fica em Portugal e não vai direto para a Arábia Saudita, Rússia ou outro produtor de petróleo - quase todos eles cleptodemocracias.