"A reputação do Batman vai conseguir resistir ao ébola"

Joe Staton, 66 anos, é ilustrador. Desenhou nos anos 80 e 90 o Batman. Mas não só. Também o Super Homem, o Surfista Prateado e o Scooby Doo, entre outros. Hoje e amanhã dá autógrafos (às 15 e às 16.00, respetivamente) na Amadora BD. Em poucos minutos fez um Batman e ofereceu-o ao DN.

O Batman é um herói inspirado nos morcegos. No mundo atual, em que a epidemia de ébola domina a atualidade e assusta [os morcegos são o reservatório natural do vírus], teme pela fama deste super-herói?

[risos] Certo... Temos que acreditar em todas as possibilidades da ciência e nos seus caminhos mas, sim, eu acho que ele vai conseguir dar conta do recado e resistir. [risos]

Será uma inspiração para novas aventuras?

Tenho a certeza de que alguém está a pensar nisso, tentar trazer tudo para a Banda Desenhada (BD) de uma maneira ou de outra.

Continua a desenhar o Batman?

Não, já não faço livros de BD. Estou a fazer tiras de Dick Tracy para os jornais há três anos.

Quando desenhou o Batman?

Nos anos 80 e 90.

E acha que ele está diferente?

Sim, ele está diferente agora mas o Batman está sempre a mudar. Há tantas versões diferentes do Batman, conseguimos sempre encontrar alguma de que gostamos. Numa ocasião fiz uma exposição dos meus desenhos e descobrimos pelo menos seis versões diferentes do Batman feitas por mim. Completamente diferentes mas continuava a ser o Batman.

Ainda assim é um desafio para um criativo? Tem margem para inovar?

A minha margem para o Batman foi grande. Fiz livros que eram baseados no Batman animado, muito divertido, outros sobre uma campanha para banir minas terrestres na Croácia creio [Death of Innocents, the horror of landmines, 1996 ], e foi dark e assustador.

O Joe criou a Helena Wayne [filha do Batman e da Catwoman]...

... sou co-criador sim...

...como é criar uma nova personagem no mundo da BD?

É muito divertido porque geralmente encontras algum ponto da história em que podes usar uma nova personagem. Com Helena Wayne, a Caçadora, estávamos a fazer Sociedade de Justiça [Justice Society no original, grupo de heróis da editora DC] e tínhamos a Power Girl. Achámos que ela precisava de outra mulher para falar. Houve então um processo em que todos contribuíram e decidimos que a Caçadora ia ser a filha de Batman e da Catwoman.

Não há na BD muitas super heroínas. É um mundo de homens...

A BD é um clube de rapazes. Mesmo nos criadores só recentemente chegaram as mulheres. Uma personagem da Marvel é a Capitã Marvel, cujo primeiro nome é Carol, que tem uma enorme legião de fãs. Por alguma razão de repente ela tornou-se muito popular. A Marvel tem também a Rapariga Esquilo [Squirrel Girl] que tem todos os poderes de um esquilo.

Mas a DC Comics não...

A DC tem a Supermulher e nos Teen Titans, um grupo de teenagers, a equipa desenvolveu várias personagens femininas, como a Starfire e a Raven.

Há uma "guerra" entre as duas grandes editoras, a Marvel e a DC?

[risos] Bem isso não me afeta agora porque não estou a trabalhar para nenhuma delas, estou com o Chicago Tribune. Mas sim, trabalhei para ambas. É comum os criadores saltarem entre as duas e lá fora há sempre a tentação de ver qual é a série mais bem sucedida, a personagem mais popular, o filme que vende mais. Batman é sempre um dos mais populares.

Como é estar com o Dick Tracy no jornal depois de anos com os livros de super-heróis? Acompanha a atualidade?

Sai uma tira por dia todos os dias e está sindicated em vários jornais internacionais, não sei se em Portugal... O meu guionista Mike Curtis está muitos meses à frente na história mas há coisas das notícias que acabam por entrar, fazemos ajustes nas personagens. Eu desenho várias tiras por dia, elas vão saindo e no fim há uma história... se tivermos sorte!

Os humanos influenciam os super- -heróis? Está sempre à procura de novos super-heróis na rua?

Claro! Sim, tem que haver muita caricatura, muito retrato. Temos que ver como é que as pessoas agem para os super-heróis estarem relacionados com as pessoas normais. Caso contrário não há ninguém para salvar...

E os políticos?

Temos bons políticos, por vezes políticos corruptos, homens de negócios por detrás desses políticos corruptos. Bruce Wayne [alter ego de Batman] foi senador, teve o seu quê de político. O Dick Tracy tem relações com políticos e juízes.

Os super-heróis estão sempre à frente do tempo?

Os super-heróis refletem o seu tempo mas há alguns mecanismos de narrativa. O Batman e o Dick Tracy tentam sempre estar à frente do tempo, de facto. Estamos a celebrar os 75 anos do Batman e nunca sabemos o que vai sair dali.

Quando desenhava o Batman alguma vez desejou que ele tivesse super poderes em vez de ideias e esquemas?

[risos] A atração do Batman é ele não ser superpoderoso, ele é um tipo bem treinado e focado, treinou o corpo, treinou a mente. Acho que qualquer pessoa que se concentre e esteja em boa forma física pode fazer o que o Batman faz. Não podemos aspirar a ser o Super Homem, não podemos aspirar a ser o Homem Aranha mas podemos aspirar a ser o Batman.

Foi também um dos desenhadores de outros heróis como o Super Homem, do Surfista Prateado...

... sim faço isto há mais de 40 anos...

É fácil mudar de heróis no caderno?

É muito complicado porque fazemos aproximações diferentes. Fiz muitos livros de grupo, como a Sociedade de Justiça, é uma legião de super-heróis todos juntos. É divertido tentar descobrir como fazer quando eles são muito diferentes. Chamo-lhe changing brain [mudar o cérebro].

Como chegou ao mundo da BD?

Bem vistas as coisas, sempre fiz isto. Estudei mas tudo começou quando era muito pequeno e descobri o [Dick] Tracy nas tiras dos jornais. Aprendi a ler com a revista Superboy Comics. Seguia os comics e ao lê-los ainda não pensava nas pessoas que faziam os desenhos. Quando percebi isso foquei-me e comecei a trabalhar nesse sentido.

Quando nasceu o Batman, o Joe já tinha nove anos...

Tinha? Deixe-me fazer as contas. Sim o Batman apareceu em 39, eu nasci em 1948, exato, nove anos. Claro que o Dick Tracy já andava por aí há pelo menos 20... [risos]

Cresceu com eles e agora está de volta ao início, o Dick Tracy. Entretanto fez o Scooby Doo...

Ele foi criado nos anos 60 por Hanna-Barbera mas cheguei ao Scooby nos anos 90 e fiz dez anos de Scobby. Também podemos sempre aspirar a ser o Scooby. Ele sabe que as coisas importantes da vida são estar com os amigos e comer snacks Scooby [risos].

E se tivesse que escolher só um?

Isso é difícil. Adoro o Tracy, adoro o Batman mas acho que se tivesse de escolher, seria Helena Wayne, a Caçadora, tenho uma ligação muito forte a ela. Sim, ela é a minha favorita.

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