A receita do velho rabugento

Deceção vinda da Suécia, Um Homem Chamado Ove, chega agora a Portugal depois de ter tido duas nomeações aos Óscares.

Os estudos de marketing dizem que não é de bom senso o cinema apostar em histórias com protagonistas da terceira idade. Felizmente, a falta de bom senso tem andado em alta. Este conto sueco com um velhote rabugento mostra que cada vez mais as exceções compensam - o filme foi nomeado a dois Óscares (melhor caracterização e melhor filme em língua estrangeira), um sucesso nos EUA e em muitos territórios europeus, além de ter vencido nos prémios da Academia europeia o galardão de melhor comédia. Diga-se de passagem, Um Homem Chamado Ove tenta ser uma comédia rezingona disfarçada de drama emocional. Na verdade, é apenas pieguinhas.

Baseado num bestseller de Fredrik Backman que pegou de mansinho, conta-nos os dias de viuvez de um senhor idoso chamado Ove, um homem que nunca recuperou da morte da sua bela mulher. Ao longo de quase duas horas vemos as várias tentativas de suicídio deste engenheiro depois de ser dispensado da fábrica onde trabalhou e compreendemos através de flashbacks os motivos pelos quais ficou carrancudo e sem amigos. Mas graças a uma nova família que se instala no seu bairro, Ove vai ficando aos poucos mais perto da vida, seja ao ajudar as filhas desse casal ou a dar lições de condução à mãe de origem iraniana. Às duas por três chega mesmo a ter uma aura de santo na sua comunidade, sobretudo depois de ajudar o seu amigo-rival, um vizinho que está numa cadeira de rodas após um AVC e ao instalar em sua casa um jovem gay que é expulso de casa depois de assumir a sua preferência sexual.

Hannes Holm usa e abusa daquela simpatia pré-fabricada do conto com efeito Scrooge. As piadas aparecem com aviso e o retrato social com personagens com causa (o emigrante gay, a senhora iraniana) é mais do que enjoativo. Poderia salvar-se uma hipótese de meditação sobre o humor sueco ou nórdico mas as areias movediças do melodrama engolem tudo (a propósito, Ruben Ostlund já teorizou isso tudo...). De alguma forma, Um Homem Chamado Ove é um exemplo forte de uma certa deriva europeia quanto ao ideal de se fazer um cinema para grande público que mantenha dignidade artística. Se descontarmos a segurança de estilo (presente em grande parte do cinema sueco exportável), tudo aqui é meramente industrial e com receita. O "truque" é atirar-se de pés e cabeça à ideia de espremer as benesses de uma personagem "amável". Cerca de vinte minutos depois de o filme começar já percebemos tudo, já percebemos que Ove tem um coração de ouro e só é mal humorado na terceira idade porque tudo o que é trágico veio em sua direção. A lágrima ao canto do olho abafa a hipótese do sorriso dos mandamentos do resultado de uma "amizade improvável".

Em última análise, estamos perante um filme cujo tom de humor é atraiçoado pelas suas boas intenções. De boas intenções está o inferno do cinema europeu comercialóide cheio...

Classificação: ** (com interesse)

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