A política de pesadelo no palco dos sonhos

A reação ao governo Trump marcou a noite do cinema. Também os vencedores deixaram uma mensagem política em palco

Ainda no princípio da cerimónia, quando foi anunciar o Óscar de melhor atriz secundária, Mark Rylance fez um dos mais subtis discursos da noite contra Trump, sem chegar a nomeá-lo. Disse que a importância dos atores secundários reside no facto de as suas interpretações funcionarem como oponentes às dos atores principais. De igual modo, acrescentou, é fundamental que haja oponentes ao ódio... Ora, nessa mesma categoria, a estatueta dourada foi entregue à atriz negra Viola Davis, acabando por ser a cereja em cima do bolo neste engenhoso ataque ao magnata racista, atual Presidente dos Estados Unidos.

Mas este não representou o único nem o mais alto momento da noite, no que toca aos prémios que veicularam a mensagem política. Esse momento correspondeu a uma ausência: o realizador iraniano Ashgar Farhadi, vencedor pela segunda vez, com o filme O Vendedor, foi protagonista das palavras mais acutilantes dirigidas à administração Trump, na sequência do decreto (entretanto suspenso) que o impediria de estar presente na cerimónia. Numa declaração lida pela iraniana Anousheh Ansari (conhecida como a primeira mulher turista no Espaço), Farhadi realçou a partilha que o cinema possibilita, a sua capacidade de quebrar estereótipos culturais e religiosos, e apontou os cineastas como criadores de "empatia entre nós e os outros". Algo que é preciso "hoje mais do que nunca", concluiu.

Ainda a festa não ia a meio e já se tinham ouvido várias referências ao atual estado das coisas. Entre elas, a frase do ator Gael García Bernal - "Como mexicano, como latino-americano, como trabalhador migrante, como ser humano, sou contra qualquer forma de muro que nos queira separar" - foi uma das mais aplaudidas, aquando da entrega do Óscar de melhor filme de animação. Aproveitando o embalo, os realizadores de Zootrópolis, o vencedor, fizeram questão de sublinhar a própria história de tolerância que é este filme, sobrepondo-se ao "medo do outro"... Até nas categorias técnicas os agradecimentos serviram de oportunidade para assinalar o espírito de união, como foi o caso do Óscar de melhor caracterização, atribuído à equipa italiana de Esquadrão Suicida, em que um deles fez menção ao estatuto de migrantes.

Mais na reta final, dois documentários (longa e curta-metragem) anteciparam um desfecho da cerimónia em grande. O primeiro, O.J.: Made in America, centrado na visceral experiência americana, que remete para o racismo e violência policial, motivou dedicatórias sentidas a vítimas desta América. O segundo, a curta The White Helmets, deu voz à Defesa Civil Síria, que citou o Corão: "Salvar uma vida é salvar toda a Humanidade". Já Moonlight, o retrato afro-americano mais forte na corrida, foi a verdadeira chapada de luva branca. Barry Jenkins prometeu estar por cá nos próximos quatro anos (duração do mandato presidencial) para aqueles que sentirem que as suas vidas não são refletidas no cinema.

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