"A pintura não informa e convém não ser clara"

Hoje, no edifício do 'Diário de Notícias', em Lisboa, sobe o pano sobre 'Je t'aime - Pintura sem importância', exposição do pintor João Dixo, com uma pergunta que serve de ponto de partida: para que serve a pintura?

O poeta Manuel António Pina pergunta-se, no texto do catálogo que introduz a exposição Je t'aime, pintura sem importância, de João Dixo (é hoje inaugurada na galeria DN), qual o papel da pintura quando se pinta (bem como da escrita quando se escreve, ou do amor quando se ama). O amigo João Dixo (Vila Real, 1941) talvez lhe responda quando diz que "a pintura não quer clara, é até conveniente que não seja". Ou talvez não, por que o que este artista de 68 anos gosta de fazer é pintar e não fotografar - ou seja, não procura informar através do seu ofício.

"A pintura com o advento da fotografia já era, como dizem no Brasil", enquadra o artista nascido em Trás-os-Montes. "Se a polícia me mandar parar e eu lhes mostrar uma pintura em vez de uma fotografia não vai aceitar", acentua sobre a subjectividade da pintura, para sublinhar a relação que mantém de há muito com este ofício - "pinto desde os quatro ou cinco anos de idade, tive muitas doenças em miúdo, estive a morrer muitas vezes", justifica-se.

E volta atrás, segue em frente, sempre com a pintura como se fosse o próprio mundo - será o seu (do artista) próprio mundo, portanto. "A pintura só tem existido por causa do coleccionismo. É errado dizer que a pintura começou há 40 mil anos nas grutas de Altamira. Porque não se pode confundir pintura com design de comunicação, a pintura como a conhecemos hoje vem do século XIX e XX, tem muito a ver com a forma como vemos o conceito de hoje, também", prossegue numa certa saga de limpeza de conceitos, mais do que na criação de preconceitos.

Há, aqui, na perspectiva de João Dixo, mais uma tese, não propriamente um dogma. "Fala-se muito de teoria de comunicação, mas a teoria da comunicação não se aplica à pintura; podemos falar de história, da tinta, etc, mas temos de separar a teoria da comunicação, porque a pintura não quer ser clara, é conveniente que até não seja", defende. "A pintura não procura informar, a pintura é como a poesia, pretende levantar suspeitas", continua o artista, que não rejeita contar histórias com as suas obras, mas que julga não ter de ser esse o objectivo - claramente, esse não é o seu objectivo enquanto vem pintando nas últimas quase seis décadas. "A pintura obriga a fazer percursos, não está interessada em informar".

Ou seja, e por tudo isto, a pintura, em João Dixo, é uma vida, nem sequer um modo de vida, até por que fazer da pintura um modo de vida requer mais do que mão firme, ou mão certa. "Costumo dizer aos meus alunos, quando mo perguntam, que um bom quadro é um quadro que é pintado por um bom artista; e que um artista é bom quando é reconhecido por quem tem poder, os críticos ou os grandes museus", desfia. E explica: "É preciso entrar no circuito, conhecer pessoas, ter amigos, fazer lobby, talvez". Mas não quer entrar pelos juízos de valor: "Não sei se é uma injustiça ou não, mas é assim que funciona. Eu já dei mais importância".

Por isso é que a pintura, transcorrendo das suas palavras, é uma vida, não um modo de vida. Como se fosse a própria vida - e aqui, partindo das palavras de Manuel António Pina, poder-se-ia derivar para outra questão: o que se faz com a vida enquanto se vive?

Portanto, a partir de hoje e durante um mês, pode ver João Dixo a confrontar-se com a pintura e o que se faz dela enquanto se pinta toda a vida. São 26 obras (acrílicos sobre tela), criadas desde 2004 e até este ano, que a galeria DN, depois da galeria JN, mostra a partir de hoje. Inaugura às 18.00.

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